Por Monique Rodrigues do Prado

Como é que se aprende a amar? Suponho que se essa pergunta fosse destinada a professora e autora africana de “O Espírito da intimidade” Sobonfu Somé talvez a resposta fosse tão suscita quanto profunda: “amando”. Em algumas palestras onde fora questionada sobre a vida, a escritora explica que em sua comunidade não há muitas palavras para dar sentido àquilo que só se sabe vivendo ou fazendo.

Burkina Fasso, país da autora, está localizado na costa Oeste da África. O nome significa “a terra dos ancestrais orgulhosos”.  Seu povo, chamado de Dangara, está próximo da terra, dos animais, da natureza e bem longe dos padrões modernos da cidade. A árvore mais alta é a baobá que cresce até 55 metros e pode ser vista de longe. A economia é agrária, ou seja, planta-se exatamente o que a aldeia precisa para comer, não há desperdícios e as relações comerciais são feitas com base na troca. Os mais velhos supervisionam e cuidam da aldeia sem intenção de poder ou riqueza e todo mundo toma conta de todo mundo, sobretudo, das crianças.

A vida pública é segura: tudo acontece ao ar livre. As construções servem apenas para o armazenamento de alimentos e para dormir, o resto se dá do lado de fora, especialmente os rituais. Na aldeia não há pressa. Para resolução dos conflitos, há um conselho de anciãos igualmente divididos entre homens e mulheres. É nesse contexto entre comunidade e pessoas que são construídos também os relacionamentos afetivos.

Não existe formula de bhaskara para o amor, mas Sobonfu nos ensina que há outras maneiras de amar conectadas com um senso de comunidade, ancestralidade e conexão intima com a vida. A pensadora esclarece que assim como a natureza, o bem-estar dos relacionamentos também depende dos cuidados da tribo, o que nos parece uma possibilidade tão longínqua, já que pela perspectiva ocidental, as relações são privatizadas com primazia única no indivíduo.

Nessa outra experiência de amar, o corpo carregado de limitações dá lugar ao “ser” ao invés do “ter”.  Sonhar é uma forma de manter-se conectado com a ancestralidade. A intuição é um grande olho que pode ver as várias dimensões da vida. A força vital invisível existente dentro de cada uma das pessoas da comunidade é valorizada como fonte de sabedoria, sem necessidade da racionalidade fria.

Para Sobonfu, não há como fatiar as relações em públicas e privadas como simulamos no Ocidente. Nesse ponto é fundamental compreender que as opressões que acontecem no campo privado nas relações ocidentalizadas somente ocorrem por serem autorizadas pela estrutura pública, ou seja, seria possível flagrarmos violências sexistas e racistas em Estados que não há desigualdade de gênero ou racial?

Amor, portanto, é compreender que você é parte do todo e que não há diferença em cuidar da terra, de um animal, de uma árvore ou de um ser humano, já que cada um desses elementos são fontes vitais do universo. O que pode soar entranho para os povos ocidentalizados, já que o ego e o controle estão no centro das relações, na verdade demonstra o quanto o povo Dangara respeita a vida como fonte de amor. Por isso, as relações íntimas não são vistas como sujas ou como tabus, mas sim como a expressão dessa conexão ancestral. Entretanto, a autora elucida que a experiência puramente sexual isolada, pode vir carregada de buracos energéticos e mágoas. Dessa forma, muitas pessoas anseiam buscar no outro a cura, quando na verdade estão desconectadas com o seu próprio ser.

Sobonfu ensina que para escaparmos das garras ocidentais das relações equivocadamente romantizadas, pautadas pelo ego e pelo controle, precisamos deixar fluir essa fonte vital que ela chama de espírito da intimidade, o qual deve ser nutrido e mantido para que então possamos evoluir para relações saudáveis.