Por Monique Rodrigues do Prado

As tranças me fizeram olhar no espelho e ver outra pessoa: uma mulher enegrecida. Mas como isso é possível se pela cútis já não havia dúvida de quem era eu?

O reflexo apresentado no espelho é expressamente declamado na poesia de Victoria Santa Cruz no poema “Me gritaram negra”.

Ao longo da poesia a poeta afro-peruana vai apropriando-se do seu enegrecer: primeiro narrando toda a sua raiva diante do pesar social que a cor representa. Depois, em um segundo momento, já consciente de si, veste-se desse sujeito negro ante a aceitação da sua pele e de seus lábios grossos reivindicando a sua existência em face dos berros daqueles que lhe gritam negra. Assim, ela finaliza o poema: “negra sou!” como um ato não de validação, mas de autonomia e independência.

O poema ilustra alguns aspectos da vida cotidiana de uma mulher negra, passando pela rejeição social – experimentada nas relações com a negativa de afeto e na vivência da solidão em todos os setores sociais, inclusive quando está na vida universitária ou em uma grande corporação, visto que muitas vezes ao ascender permanece como uma das poucas naquele espaço. É o que tem-se estudado a partir da ótica de uma violência estrutural.

Nesse sentido, o psiquiatra Jurandir Freire Costa analisa: “Ser negro é ser violentado de forma constante, contínua e cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais de Ego do sujeito branco…”

Com efeito, não é novidade que os marcadores sociais contra as mulheres negras, atravessados pelo machismo e pelo racismo, resultam em violência. Mas, além disso, a violência institucional contra as mulheres negras aparece nas reformas da previdência e trabalhista, visto que evidencia a precarização de quem já se encontra na base da pirâmide social.

Ora, o que será do sujeito sem a possibilidade de renda ou sem expectativa nenhuma de que caso lhe recaia algum acidente não poderá ter asseguradas as garantias sociais? Para a maioria das mulheres negras não há alternativa, não existem recursos para uma previdência privada.

Outro dia me lembro de ter brincado em tom de comemoração com uma colega de profissão que agora ela poderia finalmente fazer o seu intercâmbio e aprender uma nova língua, já que “ascendeu socialmente” e agora fazia parte de uma classe média.

A resposta foi imediata: “para nós a ascensão é uma falácia, pois agora mais do que nunca sou eu quem pago a faculdade da minha irmã, da minha mãe e o aluguel da minha família.”

Isso me levou a refletir: Será que um jovem branco de seus 30 e poucos anos, aquele típico “farialimer” teria essas mesmas preocupações? Será que ele está pensando em pagar o aluguel dele e da família ou o cursinho do irmão enquanto muitas de nós sequer tiveram a oportunidade de ingressar no curso superior ou aprender uma segunda língua?

Isso me lembrou a fala de um palestrante no 1º Fórum de Empreendedorismo Negro –  “Raça e Mercado: Uma Transformação Econômica” em que tive o prazer de assistir na Fundação Getulio Vargas. Na ocasião, o palestrante, um homem, branco, meia idade que falava para um público de jovens negros – em sua maioria mulheres – pontuou: “se eu estou na terceira geração da minha família de pessoas formadas na universidade enquanto muitos aqui são os primeiros, é sinal que tem alguma coisa errada”, fazendo uma provocação direta aos privilégios da branquitude.

Com efeito, o que às vezes parece exclusivamente uma questão de oportunidade, na verdade esconde um cenário muito mais perverso: ainda que se tenham oportunidades ou que se corra atrás delas, existem pessoas que estão numa camada da invisibilidade, pessoas que não aparecem, pessoas que não têm qualquer certeza em relação à própria existência. É o que ocorre com as mulheres negras.

Isso me lembra o caso da advogada carioca Valéria Santos que foi literalmente arrastada da sala de audiência tendo a sua subjetividade aniquilada e as suas prerrogativas violadas simplesmente por lhe ser negado esse direito de ser sujeito. Ou ainda a menina Ágatha que voltava da escola, mesmo sendo uma criança que fazia aula de inglês e balé, ou por que não lembrar Mariele Franco que além da vida pública na condição de vereadora, possuía também uma vida acadêmica com titulo de mestrado.

Nessa linha, meritocracia e oportunidades não foram capazes de validar a existência dessas mulheres em absolutamente nada.

Por essa razão, as mulheres têm cada vez mais ampliada a sua existência a partir de grupos, onde por meio dele, elas se identificam como sujeitas. É como naquele espelho em que é possível se perceber a partir do reflexo de si em outras mulheres e se mobilizar para além de uma identidade que nos unifica com as nossas semelhantes, mas nos torna sujeitas.

Vimos esse movimento nas marchas das mulheres negras que acontece anualmente no dia 25 de julho Brasil adentro, assim como nos coletivos ou instituições não governamentais a exemplo do Afronta Coletivo, do TamoJuntas, do Geledes, da Feira Preta, bem como nas batalhas de poesias cujo grande nome da cena atual é a poeta Kimani que recentemente representou o Brasil no Mundial de Poesia na França.

São as mulheres negras reivindicando o ato de existir fora das correntes imperiais e narcisísticas da branquitude, trocando serviços, discutindo o direito a terra; a moradia; ao acesso a universidade e a sua permanência; a saúde mental; ao exercício da fé nas religiões de matriz africana, olhando para o Brasil à luz da Amefrica Ladina, termo cravado pela intelectual Lelia González para expressar a conexão afrobrasileira com os seus países vizinhos.

De toda forma, a legitimidade do seu existir demanda relações físico-emocionais longe das mazelas que hoje se apresentam como concretas.

Assim, de acordo com a psicanalista Neusa Santos Souza: “ser negro é tomar posse desta consciência e criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração.”

É nesse lugar onde a consciência negra apresenta essa mulher para além da manifestação artística e estética de carnaval, onde a agressão física, verbal e emocional deixa de ser regra; onde a construção de laços afetivos seja saudáveis, livre de opressões e, sobretudo onde essas mulheres possam transitar na vida política, jurídica, institucional e econômica sem que sejam assombradas pela escassez estrutural que historicamente lhes perseguem.