Por Wagner Lemos

Uma das coisas que me desperta a curiosidade é a história dos alimentos, de como nós adaptamos nessa outra naquela cultura um hábito alimentar vindo de outras terras. Assim, a humanidade foi transformando a pizza egípcia em comida devorada em quase todas as partes do mundo ou ainda fez do macarrão, invenção chinesa, em prato consumido em vários lugares do globo. Nessa conta também está o cuscuz, prato de origem árabe, mas também consumido no nordeste brasileiro.

Esse dedo de prosa gastronômico tem a ver com a sopa, título do texto, e uma dessas frases que circulam pelas terras da internet. Vi num dia desses que “sopa não é janta”, escrito desse jeito mesmo, em português bem coloquial: janta. No jeito bom de falar, ao invés do formal “jantar”.  Aí me pus a relembrar das excelentes sopas que já tomei, sobretudo, as que eram feitas por minha já saudosa mãe. Lembrei de como era reconfortante a sensação de alimento  quente no estômago e de como isso matava bem a fome.

Fui além… relembrei que, por trás da história da sopa, há todo um quê de aperto e solidariedade. É um alimento de multiplicação para poder dividir. Imagine-se uma prole grande, poucos itens em paupérrima casa, insuficientes para uma refeição generosa. O que se faz? Pega-se um pedaço de mirrado de carne, uns legumes aqui e acolá e umas folhagens. Corta-se miudinho tudo isso, se põe numa fervura até que um pouco de cada ingrediente passe para o caldo e todos possam usufruir um tantinho de cada coisa. Todo mundo come de tudo, nem que seja um pouquinho e a “sustança” da comida vai dar sossego para a barriga dando sossego ao aperreio.

Hoje a pobreza se aprofunda em nosso país. Todos os dias vemos manchetes sobre  pessoas se acotovelando em filas de doação de ossos, outras que pedem pelanca nos açougues para colocar em algum caldo, gente que tinha vida estável e que descambou para viver em situação de rua. Há uma carestia cruel nos preços dos alimentos, mas também há quem diga que o aumento seja fruto de o brasileiro estar comendo mais e que essa demanda aumentou os valores. Sinceramente não sei onde fica essa realidade paralela, se na morbidez de caráter de que diz isso ou num profundo abismo de zombaria. O que sei é não se precisa ir muito longe do entorno para ver a fome arrasar as pessoas.

Daí meu incômodo com a tal frase “sopa não é janta”. É certo que não passa de uma brincadeira despretensiosa, mas que me fez pensar um bocadinho mais. Sopa é janta, sim. Sopa é mais do que isso, é acalanto, é amor. Amor, esse tal ingrediente, que tanto tem faltado entre nós.

Este texto não reflete necessariamente o posicionamento editorial da Revista Afirmativa