Por Aline Alves Miranda*

Quero te convidar a um exercício de reflexão (rápido, mas profundo): Quais eram seus hobbies em 2008? Pense nas músicas que ouvia, como se relacionava com as pessoas, nos programas e filmes que assistia. Você dormia melhor? A ansiedade era uma questão? Em que de fato investia seu tempo livre?

A princípio muitas dessas memórias podem parecer turvas e extremamente distantes visto que estamos falando de 12 anos atrás. Mas se esforce para tentar visualizar como era seu processo de lazer naquele tempo. Após este flashback você chegou a notar que o whatsapp não estava presente? Estamos falando de um período no qual você ainda não passava horas do seu dia com o celular na mão. Lançado em 2009, é estranho como parece que ele sempre esteve aqui e fez parte dos nossos modos de comunicação, embora não tenha tanto tempo assim. Como em pouco mais de uma década deixamos de lado grandes revoluções na comunicação que permitiram que ela fosse mais imediata e privada que uma ligação telefônica, como o MSN e o SMS? Como nos tornamos seres conectados à internet e desconectados muitas vezes de nós mesmos?

Embora tenha feito este recorte temporal, a reflexão é muito maior. Estamos acompanhando a expansão e evolução tecnológica dos últimos anos, o avanço das redes de internet móvel, a eclosão das plataformas de streaming, o surgimento de diversas novas redes sociais (como o Instagram) e a disponibilização no mercado de celulares mais acessível à população. Estes são alguns dos diversos fatores que fizeram com que a comunicação que falava para (teoricamente) uma massa homogênea entendesse a nova realidade imediatista que passamos a viver. Não precisamos mais aguardar uma resposta se todos estão conectados o tempo todo. “Como assim visualizou e não me respondeu? Já fazem 10 minutos! ” Já falou ou ouviu algo assim?

Iniciei a graduação em comunicação exatamente em 2008 e desde os primeiros estudos teóricos, era vendida a ideia de que vivemos na era da informação e, até certo ponto, essa poderia ser uma premissa verdadeira visto que nunca foi tão fácil ter acesso a diferentes tipos de conteúdo. Antes de sermos controlados por Androids, a internet e todas as tecnologias que surgiam nos davam acesso a diversos tipos de conteúdo e embora sempre houvessem propagandas, os conteúdos eram mais orgânicos e diversos. Porém existe um gigantesco abismo entre o que poderia ser e o que de fato é. Um exemplo disto é algo que venho observando a algum tempo, as pesquisas feitas no Google se tornaram cansativas e em muitos casos improdutivas, com resultados básicos e superficiais ou uma chuva de sites de venda. Também somos bombardeados de notícias que nos causam desconforto. Ou seja, pouca informação para as massas e muitos negócios para empresas. Se informação é conhecimento, por que parecemos mais tolos? Não estamos na era da informação, estamos na era da Sofreguidão.

Consumimos manchetes e não conteúdos, ouvimos uma música e não o álbum inteiro, curtimos fotos sem ler as legendas, nos irritamos com qualquer áudio que ultrapasse 40 segundos e delegamos nosso pensamento crítico sobre assuntos complexos a youtubers (e nem vou falar sobre algoritmos e polarização). Esse imediatismo está nos adoecendo. Bebemos e fumamos mais e/ou geramos distúrbios alimentares. Usamos remédios, drogas ilícitas e açúcar como nunca. Estamos mais ansiosos e estressados, sempre reclamando de não ter tempo para antigos hobbies e passando horas pulando Stories aleatórios.

Fui forjada nos anos 90 e sempre ouvi que os heróis da geração anterior morreram de overdose. Hoje é triste ver que os meus morrem por motivos ligados a depressão. Quanto mais nosso pensamento acelera com o acesso a tanto conteúdo e tantas possibilidades, mais inertes ficamos em ações concretas em nossa vida.

Constantemente me deparo com a procrastinação, bloqueios criativos, preguiça, ansiedade, insegurança, auto sabotagem, desânimo, pânico, depressão…  Na grande maioria dos casos o gatilho parte de alguma rede social e qualquer coisa ali pode ser esse gatilho, até mesmo abrir o whatsapp e ter mensagens demais ou de menos. É um misto de ego e escravidão emocional, refletindo nesse espelho cibernético uma eterna busca interna por aceitação. Sempre buscamos por aceitação e pertencimento de fato, mas agora estamos 24hrs conectados nessa frequência.

É importante ressaltar aqui dois pontos. O primeiro é que este assunto é muito (muito mesmo) amplo e complexo, este texto abre diversas reflexões embora se foque apenas no imediatismo atual. O segundo ponto é que não se trata de uma reflexão nostálgica e apegada do passado, pois é evidente que a tendência é que o mundo se torne cada vez mais tecnológico e conectado e que muitos costumes da sociedade caiam no ostracismo. A busca real aqui é entender como desenvolver algum equilíbrio que permita que essa evolução sirva as pessoas e seu bem-estar, evitando que as plataformas coloquem o ser humano numa prateleira do varejo virtual.

Tendo tudo isso em mente, volto enfim a reflexão inicial. Nas arrumações da quarentena encontrei uma caixa antiga de recordações que me fizeram questionar o que os anos de conexão fizeram comigo. Haviam cartas de antigos amigos, desenhos, poemas, composições, rabiscos… Era um tempo de expressão e criação, no qual inspirações e pensamentos eram externados e ecoados. Hoje parece que estou ancorada por um @. Me sinto menos criativa e produtiva, com menos senso de humor para coisas triviais, menos informada (era da informação?) e com menos tempo, embora o Instagram tenha me avisado a pouco que passei mais de uma hora e meia conectada fazendo nada. As ideias, sentimentos e sensações ainda estão aqui, porém eles ficam dormentes quando recebem a chuva de dopamina que os aplicativos nos proporcionam.

E assim passam por nós os dias de uma inquietação estática, que antes era externada e gerava frutos. Seja leitura, escrita, a prática de esportes ou talvez um curso.  Abandonamos inclusive as pequenas e profundas observações que nos tornam um pouco mais filhos da terra, como ver o pôr do sol, sentir a pele ser tocada por uma brisa fresca em um dia quente ou uma conversa olho no olho. Aos poucos as interações com os outros, com o ambiente e consigo mesmo deram lugar aos memes, gifs e emojis que jamais terão a mesma profundidade e significado. Não estamos só nos afastando das relações sociais com as bolhas criadas na rede, estamos distantes de nós mesmos e das coisas que nos faziam bem.

Eu espero mesmo é que em algum momento tenhamos a mesma sorte que a cantora Pitty e alguém nos desconfig        ure (pode desconectar também se quiser). Quem sabe uma pane em nossos sistemas (e nos nossos Androids) nos façam voltar a sermos um pouco mais humanos.

 

*Comunicadora, Fotógrafa e Publicitária mineira de 29 anos. Entusiasta em estudos sociais, políticos, comunicacionais e semiótica.