Por Lecco França*

O filme Negrum3 (2018) é uma espécie de manifesto estético e político da “bixa preta”, entre outres sujeites pretes pelo espaço preto. A palavra “negrume”, inclusive, significa em português “aglomeração de nuvens, cerração intensa ou escuridão” (Dicionário Online de Português, 2020). Na perspectiva do roteirista e diretor paulista Diego Paulino, é como se cada jovem prete, que marca presença na trama ou que compõe como um todo a cena artística e sociocultural preta da cidade de São Paulo, fosse uma pequena nuvem que, unidas a outras, constituíssem esse universo de dissidência e de celebração pela existência desses sujeites, seus corpos e suas memórias.

O curta-metragem é protagonizado pelo performer Eric Oliveira, com a participação de outres integrantes da cena artística queer, noturna e urbana de São Paulo, como a multiartista Aretha Sadick e Félix Pimenta. O filme também mescla diferentes linguagens, como a performance, principalmente na primeira parte com Eric, seminu, de cabelo rosa, em um cenário repleto de roupas agênero no chão e em cabides, assim como a documental, quando a câmera acompanha um pouco da vida do jovem, enquanto se arruma para curtir diferentes baladas no centro de São Paulo, como a Batekoo, e encontra seus amigos nas ruas. Na segunda parte tem-se o discurso de Félix Pimenta (com o rosto provocadoramente pintado de preto) que convoca todes a conhecer os princípios do chamado “Manifesto Pelo Espaço Preto”. Finalmente, na terceira parte, em um cenário quase carnavalesco afrofuturista, com muito brilho e luz, Aretha Sadick e Erick descem uma enorme escada e se encontram para uma nova performance.

A existência e ocupação desses sujeites pretes representa não só uma espécie de afronta à normas e convenções sociais, em especial aos padrões brancocentrados de beleza corporal, até o próprio combate a LGBTfobia, mas também como possibilidade de afeto e cooperação, já que muitos desses jovens, rejeitados e abandonados por suas famílias consanguíneas, encontram e constroem uns com os outros novas configurações familiares.

A dissidência dos corpos, contemplando sua diversidade de composições étnicas, sexuais e de gêneros, é o ponto alto do filme, a começar por Eric, esse jovem que expõe seu corpo preto, queer e livre, em confronto às imposições de uma sociedade tradicional, branca, heteronormativa e cisgênero, desde o início da trama, quase desnudo defronte a um espelho quebrado. Além disso, ao ouvir e acompanhar um pouco de sua trajetória, o espectador tem uma ideia do lugar e de sua vivência naquela sociedade, assim como do seu espírito de insubordinação, quando revela, a nível de ilustração, que usava batom na escola ainda adolescente, ou quando transita e ocupa o cenário urbano, ao sair de casa com sua peruca loira, encarnando a “branca maluca e cisgênera”.

Nesse sentido, o filme revela o quanto tem sido fundamental para a renovação do cinema brasileiro contemporâneo, em especial através do curta-metragem, mais aberto a experimentações e novos pontos de vista sobre sujeitos historicamente retratados de forma, muitas vezes, estereotipada e desrespeitosa através de discursos e olhares exógenos. Em Negrum3, a “bixa preta”, de fato, assume sua voz narrativa, reivindica sua própria existência e busca estratégias de sobrevivência, como o uso das redes sociais, por exemplo.

Esteticamente, o filme inspira-se no afrofuturismo, movimento estético, social e cultural, que combina elementos da ficção científica, da história de culturas africanas não-ocidentalizadas, com o objetivo de abordar os dilemas dos povos afrodescendentes, em especial na diáspora, apropriando-se do passado e construindo perspectivas positivas de futuro, nesse caso, perceptível nos cenários e figurinos coloridos e brilhantes e na trilha sonora eletrizante.

 

O premiado filme, que já circulou em inúmeras mostras e festivais de cinema nacionais e internacionais, está disponível na plataforma Globosat Play, exclusiva para assinantes.

 

*É professor universitário, pesquisador, escritor, cineclubista, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.