Por Monique Rodrigues do Prado

O dia 20 de novembro, conhecido como dia da consciência negra, foi impulsionado pelo movimento negro na década de 1970 como uma data símbolo da resistência negra desde os tempos sangrentos, livrando o imaginário brasileiro que foi a branquitude do dia 13 de maio a grande responsável por libertar os nossos ancestrais negros, os quais vergonhosa e tardiamente remanesceram escravizados até 1888.

O dia visa homenagear Zumbi dos Palmares, neto de Aqualtune, princesa congolesa e estrategista de guerra que passou o legado ao líder quilombola para que pudesse gerenciar o então Quilombo dos Palmares.

Pela Lei nº 9.315/1996 Zumbi passou a ser reconhecido herói da Pátria. Entretanto, diferentemente de 18 de janeiro, feriado nacional que homenageia o líder norte-americano Martin Luther King, aqui a história permanece nebulosa, de maneira que braquitude brasileira não foi capaz de reconhecer a importância nacional do dia 20 de novembro à luz de uma escusa comercial.

Por outro lado, desde o Movimento Negro Unificado (MNU) até hoje, o movimento negro encontra-se a todo vapor, inclusive estendendo a discussão ao longo de todo o mês de novembro cuja programação envolve painéis acadêmicos, palestras, webinars, produções audiovisuais e expressões artísticas, as quais jogam-se luz às potências afrobrasileiras.

Esse ano, em razão dos holofotes nas questões antirracistas a discussão racial permaneceu aquecida em razão do movimento global. Vimos, por exemplo,  a Coalizão Negra Por Direitos reunir inúmeras instituições do movimento negro para formar o pacto “Enquanto houver racismo não haverá democracia” alertando para os impactos da ascensão fasci-racista no presente governo. O manifesto grifa o papel do negro como sujeito político e reforça a ausência de reparação histórica, bem como a desproporcionalidade de renda entre negros e brancos; além do hiato nas políticas públicas; do genocídio e o massivo encarceramento dos jovens negros. Em outras palavras, o pacto chama atenção à “abolição inconclusa” .

As ações que ocorrem durante o mês da consciência negra servem como escopo para denunciar algo muito maior e arraigado: a estrutura de poder pautada na manutenção da hegemonia branca nas cadeiras do Executivo, Legislativo, Judiciário e na direção executiva das maiores empresas e instituições brasileiras. Por isso, é louvável ações como a da Magazine Luiza, pois certamente são capazes de criar um shift no mercado.

A discussão gira em torno da quebra dessa estrutura de privilégios, de modo que o lugar de cada sujeito branco no mês da consciência negra tem muito mais a ver com tornar-se espectador e paradoxalmente ativo, sem que utilize o negro como manual de consulta, o respeitando em sua negritude.

Assim, aprofundar a leitura sobre autores negros, contemplar a fala e a arte de intelectuais e artistas seja no tocante às questões raciais, seja em outras esferas de conhecimento, além de rever o seu papel na exotificação, subalternização e desumanização de pessoas negras são exemplos que contribuem fundamentalmente para alterar o status quo nessa estrutura desigual de poder.

O convite é desafiador porque coloca a branquitude em um lugar de plateia quando ela está acostumada a desfrutar do seu posto intocável de poder e circulação nos espaços. Você pessoa branca pode se surpreender ao ver que autores negros estão pensando, falando e produzindo coisas para além da escassez e sua racialidade.

Lembre-se: Se você fica neutro frente a opressão, você está com o opressor.

 

Imagem em destaque: Brancos fazem paredão entre polícia e manifestantes negros em Minneapolis