Por Pedro Caribé* / Imagem: André Carvalho – Agência Haack

O que aconteceu nas eleições de 2020 em Salvador, a capital mais negra do país, que apresentou duas candidatas negras à prefeitura por partidos de esquerda: Major Denice (PT) e Olívia Santana (PCdoB), e juntas não alcançaram 25% dos votos válidos?

O que aconteceu para não eleger uma câmara de vereadores sem uma renovação negra, feminina e jovem expressiva, como São Paulo e Porto Alegre? Mais, por que a olho cru o pleito, além dos números frios, não traz uma posição correspondente à força civilizatória africana desta cidade?

O que aconteceu com a capital que mais rejeita o governo Bolsonaro para eleger em primeiro turno Bruno Reis (DEM) com 64%, um homem branco membro de um partido de direita que apoiou o golpe de 2016 e sustenta o presidente no Congresso Nacional?

Na carência de respostas, vale levantar alguns pontos a fim de buscar explicações mais plausíveis, para além dos fenômenos nacionais já batidos, em especial o crescimento dos partidos de direita como o DEM, e a evidente derrota do PT.

O primordial aqui destacado é o esvaziamento, a transfiguração e o reposicionamento do confronto racial.

O espírito de revolta pairava antes da pandemia quando artistas, entidades, coletivos… se movimentaram para termos uma eleição negra e feminina na cidade em 2020 no movimento #EuQueroEla. O debate aqui eclodiu antes das manifestações após o assassinato de George Floyd que sacudiram o mundo.

Diga-se, a radicalidade foi sintetizada na pré-candidatura de Vilma Reis no PT, intitulada #AgoraéEla ao romper o mito da democracia racial nos corpos, nas imagens, na autonomia, e até no conteúdo programático com uma plataforma para a cidade.

O governador Rui Costa desejava inicialmente apresentar como candidato um sócio do mercado imobiliário: Guilherme Bellintani. A ideia era fazer uma discussão entre meninos brancos para saber qual seria o melhor gestor do Estado, e havia a possibilidade de o PT sequer ter candidato. O partido disse não, e Lula após sair da prisão definiu que deveria ter candidatura própria.

O debate acirrou-se internamente, mas o partido deixou a democracia interna de lado para obedecer às ordens do governador. Iniciou-se um processo violento e irreversível para este pleito ao filiar em cima da hora uma policial militar, Major Denice, oriunda da instituição que simboliza a face mais cruel e inegociável do genocídio negro.

Além de apresentar uma militar como principal alternativa à continuidade de ACM III, o neto, a estratégia do governador há tempos é se aproximar com o DEM ao não evidenciar a sustentação do partido ao presidente Bolsonaro.

O mote da campanha que deu 18% à Major Denice, patrocinada pelo governador, foi a política de tijolos, as obras na cidade, muitas delas devastando o meio ambiente como a Av. 29 de Março, a promessa de um VLT para lá de problemático, e uma ponte até a ilha de Itaparica enquanto a fome cresce no estado. Nada muito diferente da gestão de ACM Neto.

Salvador nas suas principais ruas e avenidas cumpre nesses dias o secular projeto do “engana olho”, termo utilizado por Muniz Sodré em o Terreiro e a Cidade para sintetizar as intervenções urbanas e palácios que tinham o objetivo de criar um imaginário europeu, leia-se, desafricanizador no pós-abolição.

Um passeio hoje e verás praças reformadas, uma orla made in Miami, pouco lixo, tinta fresca, viadutos cruzando o céu, um metrô cortando zonas vazias de gente, novos hospitais, muitos shoppings centers, e ao invés de igrejas católicas, grandes templos neopentecostais.

Nos becos, baixadas e vielas, é a capital do estado com o maior número de pessoas na linha ou abaixo da linha de pobreza, escolas fecham ou se mantém com professores mal pagos e desmotivados, as unidades de saúde da família sofrem desmontes, bem como a política de assistência social, mais ainda no Centro Histórico no sobe e desce ladeira da gentrificação.

O tráfico enquanto isso se movimenta como alternativa para ser alguém na comunidade sem esperanças, e a polícia passa a todo momento com viaturas exibindo fuzis engatilhados. Uma guerra que resultou uma semana antes da votação no assassinato de Railan de 7 anos, no icônico Curuzu na Liberdade, durante uma batida da PM.

É essa cidade que mostrava antes das eleições, nas pesquisas de opinião, uma significativa intenção em escolher uma mulher negra, e de oposição a Bolsonaro. Porém, perto do dia da votação o destino já estava selado: se for para gerir a cidade sem programas distintos, por que não manter o que funciona?

Como se diz no dia a dia aqui: eles que são brancos que se entendam.

Nem a morte de Railan, nem o fato de Bruno Reis ter falsamente se declarado negro, nem o derrame de dinheiro em uma das campanhas mais caras do país, nada causou espanto.

No fim o esvaziamento do debate racial foi capturado pela direita enquanto os cemitérios ainda contabilizam mortos pelo coronavírus. Deu-se um recorde de abstenção, 25%, e a transfiguração deu ao negro Sargento Isidório (PSD) a terceira colocação (5,3%), lastreada em “comunidades terapêuticas”, algo que dialoga com o eleitor de metade da câmara, formada por vereadores evangélicos.

O reposicionamento do combate ao racismo e sexismo se deu ao eleger duas mulheres negras de partidos de direita, uma delas, Ireuda Silva (Republicanos), com perfil de trabalho direto com as comunidades e discurso de enfrentamento à violência contra a mulher; e Cris Correa, presidente municipal do PSDB, uma jovem jornalista com todo receituário do antirracismo e direitos humanos sem abdicar dos cabelos alisados estilo Michelle Obama.

 

PSOL, PSB e PCdoB também têm contas a pagar

Culpar o PT por tudo e todos é uma armadilha a ser evitada, e até espera-se dois mandatos combativos na câmara, Marta Rodrigues e Maria Marighella, neta de Carlos Marighella, e outro com inserção nas comunidades negras, Carlos Suíca.

No geral, todos os partidos de esquerda cometeram mais erros que acertos que culminaram em candidaturas majoritárias frágeis, que frearam a mobilização para o futuro e uma renovação mais radical na câmara.

Hilton Coelho (PSOL) ficou com o esquálido 1,3%, liderado pelo mesmo jingle de doze anos atrás, um reggae que já não embala a capital da resistência. Aliás, por que um homem não negro foi candidato do PSOL, foi para tentar a reeleição para deputado em 2022? Parece ser a mesma escola de Nelson Pellegrino que controla o diretório municipal em nome do seu mandato.

Poderia o partido lançar alguém vinda das águas da ilha de Maré, Eliete Paraguaçu; poderia ser uma líder sem-teto, Dona Mira; ou a socióloga e educadora do Nordeste de Amaralina, Márcia Ministra. Aliás por que essas trajetórias tiveram pouco acesso ao fundo partidário? A única vaga do partido saiu do pouco expressivo Marcos Mendes para o promissor Coletivo Pretas por Salvador, capitaneado pela antiproibicionista e lésbica Laina Crisóstomo.

Um partido como o PSOL com mais de quinze anos de vida não merece ser tratado como uma criança. Se alguém saísse dos anos 90 e chegasse hoje, acharia a eleição ideal para um agrupamento como este, sob disposição de redes sociais, financiamento público e limites à espetacularização do pleito, como o fim das camisas e dos showmícios.

“Ha, a máquina de ACM Neto foi muito pesada”. Menino, quando Lídice venceu em 1992 no auge do carlismo era como?

Lídice da Matta do PSB que também apoiou a Major com a vice Fabíola Mansur, talvez o gesto mais contraditório de uma biografia que não se curvava ao mandonismo de direita e esquerda. O PSB saiu mais fraco, suou para manter apenas um vereador, um dos fundadores do Instituto Stive Bike, Sílvio Humberto, priorizado no fundo partidário. Farinha pouca, meu pirão primeiro; estancou-se o crescimento de nomes como Janda Mawusi enraizada nas tradições e resistência dos povos de terreiro, e da jovem trans Ariane Sena.

Tal movimento da ex-prefeita não transferiu os 15% que tinha nas pesquisas, deixou o perfil do seu eleitorado órfão, e matou de vez a candidatura de Olívia Santana, sem musculatura.

Bom, Olívia mereceria até um capítulo à parte. Saiu de cabeça erguida, agregou o eleitor mais crítico, mas representa as contradições de um movimento negro que se burocratizou, não desperta mais paixões, e teve como resposta a mesma cara de paisagem que ela faz quando a coisa aperta nos Cabulas da vida. Ela está na luta com um “estatuto da igualdade racial” nas mãos, desde que não lhe valha ônus.

A sua chance de alçar outro patamar na política local foi em 2016, mas o PCdoB até hoje inexplicavelmente escolheu Alice Portugal para ser candidata à prefeitura. Um desastre. Mas abriram-se mais portas no partido e governo como secretária para ser a primeira deputada estadual negra eleita na Bahia em 2018, diga-se, também referendada por um pragmatismo positivo do voto negro à esquerda.

Já na eleição de 2020 a dubiedade a deixou em quinto lugar com 4,5%, atrás do “doido” Sargento Isidório, e o bolsonarista Cézar Leite (PRTB). Não ficou claro se ela era uma candidata contra a vontade do governador, se era uma opção do partido, ou se era mais uma peça para fazer com que a Major Denice chegasse ao segundo turno. O fato é que governo também fez cara de paisagem para alguém que dizia com orgulho fazer parte da base e tinha na vice o PP.

Ficou mais presa à candidata da ordem do que da sublevação que pairava no ar, e o partido e a cidade perderam uma vereadora de luta e autônoma, Aladilce Souza, além de murchar o ímpeto de nomes como Viviam Caroline, da banda Didá, e a presidente nacional da UNEGRO, Ângela Guimarães.

 

O futuro é logo ali

No fim das contas o grande vencedor foi ACM Neto, agora com o caminho aberto para chegar ao governo do estado em 2022, alinhado com Brasília, algo comum na Bahia.

O nome que aparece como possibilidade de enfrentamento é o senador Jaques Wagner, outro a adotar estratégias equivocadas em Salvador e no interior. Assumiu o controle do diretório estadual do PT, mas deixou os companheiros e companheiras do partido de lado para apoiar candidatos conservadores.

Hoje o governo do estado está sem direção, sem secretários da Casa Civil e das Relações Institucionais, perseguido pelo governo federal, e com as poucas torneiras que restam concentradas em Otto Alencar (PSD) em João Leão (PP), caciques de dois partidos da base de Bolsonaro, que lideram as prefeituras no interior.

O projeto na educação é desacreditado, a política de meio ambiente cúmplice dos grandes empreendimentos, a saúde relega as ações da atenção básica, o combate às drogas é concentrado na junção entre bíblia e bala, e a comunicação então, mantém-se o modelo entrelaçado ao coronelismo midiático na destinação das verbas e nas mensagens publicitárias.

Veja, o que escrevo aqui sobre o governo está na boca até de qualquer petista com um mínimo de seriedade, a exemplo de um deputado federal que encontrei nas ruas de Salvador esses dias.

Não há motivo para as forças transformadoras, principalmente as que emergem da população negra, ficarem reféns dessas cabeças brancas.

É possível eleger parlamentares que saiam da mesmice no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa. É possível uma nova via na candidatura ao governo para termos segundo turno. Mais ainda, é possível despertar a paixão pela política, pela organização e o velho trabalho de base que fez a esquerda brasileira ser uma referência mundial.

Só que dessa vez, a única forma de não enganar o olho do eleitor é trazer o protagonismo e a autonomia aos corpos e uma agenda civilizatória da população negra.

 

* Jornalista e doutor em comunicação pela Universidade de Brasília.