Por Márcia Guena 

Imagem: Reprodução Filme Café com Canela 

Casou de minha mãe passar a quarentena comigo. Eu tinha ido para a banca de defesa de doutorado da minha amiga Ceres Santos, em São Paulo, na USP – por sinal um trabalho muito lindo sobre ativistas negras nas redes sociais – e, na volta, fomos barradas no baile: ninguém entrava e ninguém saía. Quase ficamos no meio do caminho. Todas as cidades começaram a interromper suas atividades, fechar rodoviárias, restringir a entrada em algumas cidades…. E assim foi que minha mãe ficou comigo em Juazeiro, na Bahia e todo o resto da família em Salvador.

Imaginei dias bucólicos, longos e entediantes. Doce ilusão: uma profusão de lives invadiu a tela do meu computador e do celular! Fora a casa pra limpar, quintal, cachorro e gato pra dar banho e eu, apenas eu, fazendo a interação com o mundo tátil: supermercado, farmácia, banco, casa de ração, recepção de encomendas. E, além de tudo, a reinvenção do trabalho virtual, o tal do “romi ofici”. Haja criatividade, banda de internet e entusiasmo para descobrir toda essa parafernália, que só via quando meu filho jogava pS4 online com os amigos.

E não é que encontrei tempo pra assistir filmes? Domingão, comendo pra caralho….Depois só restava o sofá e o tédio aplastante: – Mãe, vamos assistir um filme? Minha querida mãezinha, de 88 anos, com a cabeça a mil, rejuvenescendo a cada dia, topou. Eu já vinha numa onda de só assistir filmes produzidos por negras e negros, encenados por negras e negros, selecionando tudo de Nollywod, a terceira maior indústria cinematográfica do mundo, produzida pelas nigerianas e nigerianos. Traçando todos os bons títulos produzidos por negros dos dois lados do Atlântico e mais todo o besteirol que aparecia na Netflix. Visitando as jovens diretoras negras brasileiras. Nada de corrente e escravidão. Queria mesmo era ver gente preta bonita, arrumada, brincando ou falando coisa séria, inventando coisas, filosofando… Sabe a Shuri, a irmã mais nova do pantera Negra, aquela menina que sabe tudo de live e de tudo que é tecnologia? Daí pra lá!.

Bom, minha mãe já tinha visto algumas coisas, mas a estreia da quarentena foi com “Minha história” (Becoming) (2018), o documentário que conta parte da vida de Michele Obama, esposa do ex-presidente Barack Obama, que esteve durante oito anos na presidência dos Estados Unidos, de 2009 a 2017, o 44º. presidente do país. Michele percorre 34 cidades dos EUA durante a divulgação de seu livro autobiográfico, o que resultou nesse documentário. Mas o que me interessa mesmo é minha mãe.

“-Minha filha como ela se veste bem! Veja que caimento tem aquela roupa! E os tecidos?! Parece até a Maju”. Essa foi a primeira reação de minha mãe, enquanto recordava de como andava arrumada na sua juventude: “Eu só usava salto Luiz 15, saia evasê, muito bem passada. O cabelo? Muito bem penteado, curto e partido no meio. Às vezes de lado! Eu tinha coleção de sapatos. Comprava com meu dinheiro, o que sobrava depois de pagar as contas e enviar dinheiro para minha família em Vitória da Conquista”. O cabelo rendeu meia hora: “Olha aí, ela também alisa o cabelo. Como eu gosto!”. – É mãe, mas no final ela está com o cabelo crespo….. Ao ver as negras elegantes no filme de Michele Obama com os cabelos alisados, a cabeça de minha mãe deu um nó, porque esse sempre foi um dos nossos maiores conflitos: -“Minha filha, coloca um bobe nesse cabelo! Como é que uma jornalista sai com um cabelo assim?” Todos as minhas amigas com o crespo pra cima, mil cortes, mil tranças, turbantes, bell hooks, discurso… Esse já é, hoje, o referencial libertário de minha mãe. Então aquelas mulheres reais, com seus cabelos pranchados, alisados não batia com a estética da ruptura que eu havia apresentado a ela e ao mesmo tempo a autorizava a continuar usando amônias e queratinas….Debate difícil esse com minha mãe. A minha alma fala que nossos cabelos podem ir para onde quisermos; mas a minha militância tem no meu cabelo uma expressão de resistência contra a opressiva estética branca. Mas meu corpo e meu cabelo querem ser livres!

Café com Canela (2017). “Que coisa linda, minha filha, o jeito que ela cuida da vozinha dela”. Ela achou lindo o primeiro longa metragem dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ficou triste com o sofrimento daquela mulher que perdeu o filho e não saía de casa. Mas senti mesmo que ela ficou impressionada com a avó de Violeta, na cama, sem se levantar. Aquela senhora negra, com os mesmos cabelos brancos que carrega. Teve medo da morte. Teve medo do covid e ficou pensativa. Mas também viu a beleza de Cachoeira e eu disse que nós iríamos lá, assim que a pandemia nos deixasse sair. Perguntou sobre o rio: “é o Paraguaçu, mãe, que divide Cachoeira e São Félix”. Eu e ela salivamos com a coxinha que Violeta vendia e aprendeu a fazer com a mãe, que aprendeu com a avó. Bem de Cachoeira isso: ancenstralidade arrepiante.

Obrigada Denize Ribeiro por me permitir entrar no grupo Cine Resenha. Bom aprender com vocês e pensar em escrever sobre isso e levar minha mãe comigo. É sim, ela foi comigo pra reunião que acontece toda terça, e conversou com uma das produtores do Café Com Canela, a jovem, negra, cineasta Thamires Vieira. É muito bom ver essas pretas fazendo filme lindo. Assim que terminamos o filme fizemos um café com canela!

“É Léa Garcia? Mas ela não morreu?!”. – Não minha mãe! Tá viva e fazendo filme. Ela tem a sua idade. “Que filme lindo, minha filha. Tão curto, mas lindo”. Foi desse jeito que terminamos de assistir “O Dia de Jerusa” (2014), com direção de outra preta retada, que admiro muito, Viviane Ferreira. São 20 minutos de pura poesia. “E aquele bolo, os netos não vieram comer?” Que menina mais carinhosa, estava com pressa, mas terminou ficando com ela. Será que ela mora sozinha?” São tantas questões que surgem nesses 20 minutos, que só o coração consegue responder. Fiquei feliz de ver Valdinéia Soriano, grande atriz que vi nos palcos do Vila Velha nas peças do Bando de Teatro Olodum, fazendo aquela personagem vigorosa, a Margarida, salva da amargura, pela mão de outra mulher negra.

O samba, intitulado “justo”, de Marquinho Dikuá, e que encerra “o Dia de Jerusa” dá vontade de voar: “Justa é a porta da esperança, por onde passa o mendigo e o rei”.

Dedico esse texto a minha mãe e a Denise Ribeiro.