Por Iago Gomes* 

imagem: Roda Viva/Reprodução

Para explicar de forma bem objetiva, vício de linguagem é um conceito linguístico que serve para explicar descuidos, desvios que alteram o uso da norma padrão e culta da língua durante, sobretudo, o processo de fala. São palavras, expressões, termos que utilizamos de forma demasiada e geralmente nem consideramos ou percebemos quando falamos, já que a fala é um processo muito mais automático do que a escrita, quando paramos mais para refletir quanto ao próprio uso das palavras. Especialistas tendem a afirmar que o Vício de Linguagem está bem relacionado a um desconhecimento também do comunicador sobre o seu próprio processo de comunicação ou a outros fatores como o descuido. Questão é que quase sempre a falta de refletir sobre a própria linguagem usada pode nos levar a aplicar aquela palavra específica várias vezes ou por ouvirmos demais, ou por termos desenvolvido algum laço afetivo com elas, achar “bonitinha” e passar adiante de forma tão natural que só quem percebe é quem está mais atento estando do outro lado da comunicação.

Mas porque seria o conceito “Racismo Estrutural” um vício de linguagem? Nesse texto o trago como metáfora, uma forma de crítica por seu uso constante em todos os meios possíveis, inclusive nos veículos de mídia hegemônicos, como a Rede Globo. O termo passou a figurar constantemente em um contexto de amplas denúncias de violências motivadas por discriminação racial no Brasil e fora dele, como no caso de assassinato de George Floyd nos EUA e de João Alberto dentro do Carrefour aqui no país. Muitos diriam que é bom que isso se torne um vício de linguagem e figure constantemente no vocabulário popular, mas seria simples se isso não significasse o que apontei no início do texto: “ausência de reflexão sobre a própria linguagem”. Só que não é apenas isso, apesar de acreditar que muita gente usa repetidamente sem conhecimento específico sobre o que é de fato, e isso tem muita relação com a reprodução do que a mídia coloca como pauta, não podemos esquecer que a Mídia Burguesa é uma Instituição ligada à manutenção da ordem, ao controle ideológico dos sujeitos, ou seja, ela, assim como as demais instituições do Estado, tem muito interesse em conservar a estrutura. Pensando nisso, não seria no mínimo estranho, atribuir o racismo estrutural como um problema ao mesmo que o papel do agente do discurso seria esconder essa Estrutura? Vejamos que não há somente uma resposta a essa pergunta.

A publicação do livro do professor Silvio Almeida, “O que é racismo estrutural”, pela coletânea de textos Feminismos Plurais, e a sua ida a programas de grande alcance como o Roda Viva, o Altas Horas, a sua divulgação por figuras públicas de destaques como Luciano Hulk e Serginho Groisman possibilitaram um crescimento absurdo de compras e leituras. A obra chegou a figurar em diversas situações entre os mais vendidos de sites de empresas como a Amazon. Na obra, Silvio Almeida define o racismo estrutural da seguinte forma: “o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural”. Silvio Almeida não criou o conceito de racismo estrutural, não foi o primeiro e não é o único a denunciar e expor a estruturação do racismo, mas é um importante intelectual na tomada de construção de um pensamento antirracista contemporâneo no Brasil. Lélia Gonzales, décadas atrás, já apontava a relação raça, classe e gênero como um tripé de sustentação da estrutura política e econômica. Zumbi dos Palmares já mantinha um projeto de república autossustentável que coletivizava negros escravizados, indígenas e até brancos anti-Projeto Colonial, base de organização do Capitalismo no Brasil. Não podemos ignorar que a denúncia de uma Estrutura que se organiza com base também na raça não é uma novidade trazida no século XXI, o que podemos questionar é afinal porque somente agora há interesses midiáticos no termo racismo estrutural.

Silvio Almeida aponta também a distinção entre as concepções individual, institucional e estrutural de racismo. São concepções e não classificações tipológicas, diferenciar isso nos ajuda a entender que está muito mais atrelado a forma com que se enxerga o que é raça/racismo do que em como raça/racismo se apresenta. Logo é a noção que se tem, o grau de profundidade para explicar o que é um ato de discriminação de indivíduo para indivíduo, de uma instituição para um indivíduo e em como em ambos os casos a estrutura se faz presente, porque ela não pode se fazer de outra forma, o que explica o que é o Estrutural desse conceito.

Para avançar mais acho viável sintetizar o que também é importante diferenciar, que são as concepções de racismo (e logo de antirracismo) de acordo com a posição político-ideológica. Isso tem relação com a forma com que se capta a política e a economia a partir do desenvolvimento histórico de conflitos.

A primeira noção é a Liberal, que se forjou a partir das Revoluções Burguesas, estas incapazes de superar os modelos coloniais nas Américas. Dentro desta noção se nega a existência do racismo como um modelo de construção das relações do mundo, reduzindo-o a anomalias que remetem a ideias de supremacia de “saudosistas de tempos onde pessoas negras eram vistas como inferiores”. Para os que pensam assim, a própria corrida meritocrática é exaltada, afinal, se é uma anomalia isso não afeta de forma tão profunda a construção social dos indivíduos a ponto de impossibilitarem disputar em pé de igualdade com outros. Geralmente saem daí os anti-Política de Cotas, os que sempre defendem a Privatização dos serviços de Educação, de Saúde, mas que usam as hashtags e símbolos antirracistas quando um ato discriminatório ganha visibilidade.

A segunda noção é a Reformista, que diferente da Liberal compreende o racismo como parte da estrutura econômica e política, mas além de encarar a atuação por dentro das instituições como suficientes para se alcançar o antirracismo, acaba flertando em diversos momentos com as ideias liberais acerca, sendo incapaz de aprofundar a compreensão sobre como raça se desenvolve em paralelo a sofisticação do próprio Capitalismo. O intelectual camaronês Achille Mbembe diz em “Crítica da Razão Negra” que “se a Humanidade se tornar fungível, o racismo vai reconfigurar-se nos interstícios de uma nova linguagem. – assoreada, molecular e fragmentada.”. Completa dizendo que “O Negro e a raça nunca foram elementos congelados”. Ora, se raça, racismo se sofisticam de acordo com o desenvolvimento das estruturas políticas e econômicas do Capital, uma perspectiva que sobreviva restritamente da disputa das instituições não acompanhará esse fluxo e poderá ser alvo de desgaste teórico e militante, seria como uma “esquerda sem perspectivas históricas”, sem uma compreensão da História como uma possibilidade, como diz Paulo Freire em “Política e Educação”. A perspectiva antirracista reformista é como os garotos de Capitães da Areia no carrossel, sonham com um futuro, aqui seria o sonho da destruição da divisão racial, mas correm atrás de si mesmo, dando voltas sem colocar os pés no chão, aqui os pisos do Capitalismo.

A terceira e última perspectiva é a Revolucionária. Nessa pespectiva o racismo é enxergado como um problema eminentemente estrutural, e por ser como tal a única possibilidade de destruição é a destruição da própria estrutura. Aqui entramos na pergunta mais importante de todas. Se nomeamos o racismo, porque damos a segunda palavra do conceito apenas o seu adjetivo? É preciso dar nome e sobrenome, e por isso não deixamos de dizer que o nome da estrutura é capitalismo. Raça não é um subproduto do capitalismo, mas é a própria forma como o capitalismo alcança a sua primeira fase de desenvolvimento e acumulação primitiva, como nomeia Marx, e como ele vai se sofisticar através de outras mudanças em seu próprio processo de metabolismo. A divisão de classe e raça por exemplo deve ser feita para fins analíticos pontuais nas demandas anti-branquitude, mas não pode ser ignorada e separada no que se trata a demanda anti-burguesia. Ambas devem fazer parte de um mesmo pacote, do antirracismo revolucionário.

Ainda em “Crítica da Razão Negra”, Mbembe afirma que “É falso pensar que a lógica racista é apenas um sintoma da depredação de classe ou que a luta de classes seja a última palavra da questão social. É verdade que raça e racismo estão ligados a antagonismos assentes na estrutura econômica das sociedades. Mas não é certo que a transformação dessa estrutura conduza inevitavelmente ao desaparecimento do racismo. Em grande parte da história moderna, raça e classe foram-se originando mutualmente”. Concordo com Mbembe no que tange a compreensão e relação entre classe e raça, mas discordo sobre a destruição da estrutura não conduzir a desaparecimento do racismo, pois se esse último fato não acontecer então a estrutura criada na modernidade, a partir inclusive da própria raça, não será de fato total destruída. Não é possível se alcançar a destruição total das classes sem destruir totalmente qualquer tecnologia, ideologia, modelagem produtiva de hierarquias. Deixar a raça como resquício da antiga estrutura seria alimentar a possibilidade de retorno dela ou mesmo da manutenção, caso ela não tenha desaparecido.

Mas retornemos ao questionamento inicial: Por que sabendo de tudo isso, os mecanismos institucionais das Mídias Burguesas seguem usando tranquilamente e insistentemente o conceito de racismo estrutural? Por que não somente utilizar “racismo”? A resposta pode estar em um conceito chave chamado “reificação”. Grosso modo seria o resultado do próprio modus operandi do capitalismo, que transforma tudo em mercadoria, a partir do exercer desse processo de objetificação sob conceitos abstratos de análise, nesse contexto a própria transformação do antirracismo em uma mercadoria em um processo estendido da raça até ao combate à opressão que não-brancos sofrem. A fase atual do Sistema Capitalista é relativamente de ampliação de consumo de mercadorias em extrema circulação. Mídia Burguesa ainda é o principal locus de propaganda, então é por onde também se experimenta e se testa a capacidade de compra e venda, não somente de objetos concretos, mas de ideias, de abstrações. Essa constatação não é recente também, mas desde o discurso de “fim da História”, assumido pelos agentes ideológicos do Mercado, se faz presente através do discurso purista das identidades, soltas no ar, no tempo, sem historicidade, sem classificação na luta de classes. Essa identidade é exercida em diversas situações como somente para adquirir demandas individualistas de inserção. Como afirma Asad Haider em “Armadilha da Identidade”: “Reivindicar inclusão na estrutura da sociedade como ela é significa se privar da possibilidade de mudança estrutural”. As demandas restritamente identitárias são na prática inofensivas à estrutura, ao capitalismo, então fazer com que pareça que a solução para um problema que nem sequer eles vêem como um problema é a “representação”, a inclusão nos próprios mecanismos de mídia, é uma bela forma de esvaziar o sentido real de racismo estrutural sem deixar de utilizá-lo e demonstrar que se interessa pelas pautas emergentes.

Não poderia terminar esse texto de outra forma se não evocando aquilo que me parece o centro de base de atuação que devemos ter. A partir dos velhos jovens Marx e Engels de que “A História de toda sociedade até hoje é a História da Luta de Classes” deve ser compreendida em seu caráter totalizante: A História da Modernidade até hoje é a História da Luta racial e, portanto, é também pela raça que devemos nos organizar contra o Capitalismo, viciosamente chamado somente de Estrutura.

 

*Professor da Rede Básica da Bahia, Graduado em Letras pela UEFS, Militante e Comunicador Político.

 

 

 

** Este texto está dentro da política editorial da Afirmativa, mas não reflete, necessariamente como um todo, a opinião da Revista.