Por Alane Reis e Patrícia Rosa

Imagem: EPA/CRAIG LASSIG

O ex policial branco Derek Chauvin, que em maio do ano passado asfixiou e matou o cidadão negro estadunidense George Floyd, foi condenado por um júri popular, em decisão histórica e unânime, nesta terça-feira (20) na cidade de Minneapolis (estado de Minessota), onde o crime aconteceu. Na época, o caso gerou uma onda de protestos no mundo e fez do racismo a grande pauta de 2020, até em países que insistem em escondê-lo, ou minimizá-lo, como o Brasil.

Após três semanas de julgamento, Chauvin, de 44 anos, foi condenado por três crimes previstos na justiça americana: homicídio em segundo e terceiro graus e homicídio culposo em segundo grau. O juiz Peter Cahill afirmou que a sentença deve ser divulgada daqui a oito semanas, mas o que já sabemos é que a pena máxima pode chegar a 40 anos de prisão. Antes do julgamento, em março deste ano, a prefeitura de Minneapolis decidiu pagar $ 27 milhões de dólares de indenização à família do ex segurança assassinado.

De acordo com documentos do tribunal, o júri (que ainda permanece anônimo) foi composto por 12 pessoas, sendo sete mulheres (quatro brancas, uma negra e duas multirraciais) e cinco homens (três negros e dois brancos), que estavam reunidos e isolados há mais de 24h. Todos declaram Chauvin culpado pelos três crimes que foi acusado. Logo após o veredito, o ex-policial foi algemado e encaminhado sob custódia pelo Xerife local.

Na ocasião da morte de Floyd, uma patrulha policial foi chamada em uma loja após a notificação de que ele teria usado uma nota falsa de 20 dólares para pagar por cigarro. O então policial, com o apoio e presença de outros dois agentes, imobilizou George com os joelhos por cerca de 9 minutos. O homem de 46 anos morreu após se debater, chorar, gritar, chamar pela mãe e pelos filhos, e falar a frase que marcou o ano da pandemia da covid-19: “eu não consigo respirar”.

As imagens registradas no dia do crime foram analisadas para o veredito e cerca de 45 testemunhas foram ouvidas, inclusive o adolescente que gravou o vídeo que correu o mundo. Derek Chauvin preferiu não depor.

No último dia do julgamento (20), dezenas de homenagens encheram a rua de Minneapolis onde Floyd morreu. O país inteiro acompanhou com ansiedade a leitura do veredito. Do lado de fora do tribunal a área foi cercada por grades e blocos de concreto. O governo convocou 3 mil homens da Guarda Nacional para reforçar a segurança e a prefeitura cancelou as aulas presenciais para reduzir a circulação nas ruas. Outras cidades no país inteiro também tinham se preparado para uma nova onda de protestos caso o veredito não fosse “a dolorosa justiça”, como recorrentemente afirma a família de Floyd.

O caso é histórico para a justiça americana porque em diversas situações semelhantes, os policiais ou foram absolvidos ou pegaram penas brandas. Após a decisão, o presidente e a vice, Joe Biden e Kamala Harris, ligaram para família de Floyd e também deram declarações em rede nacional prometendo que vão trabalhar para aprovar leis contra a violência policial e o racismo. Biden chegou a dizer que o racismo sistêmico é uma mancha na alma dos Estados Unidos. E que esse pode ser um momento para alcançar mudanças significativas no país.

Sabemos que George não foi a primeira nem a última pessoa negra assassinada pela polícia na nação que diz ser a maior democracia do mundo. Marry Ferreira, nossa colunista brasileira que vive no país, escreveu sobre a longa história de violência do Estado e racismo nos Estados Unidos.

Sabemos também o poder de influência que o país potência mundial tem sobre o Brasil. Por cá, todos os grandes veículos de mídia noticiaram a sentença, como noticiaram o crime: marcando na narrativa o racismo como motivador. Grande parte da sociedade brasileira comenta e concorda com a decisão histórica, mas por aqui o demarcador racial ainda é o principal critério de comoção e pressão social, até quando as vítimas letais da violência são crianças pequenas, vide toda repercussão do caso Henry Borel (4 anos), frente ao silêncio e “costume” pelo desaparecimento de Fernando Henrique (11), Alexandre da Silva (10) e Lucas Matheus (8), os meninos de Belford Roxo (RJ), ou os assassinatos de Micael Silva (11) e Ryan Andrew (9), ambos mortos por policiais militares, no Nordeste de Amaralina, em Salvador.

A pressão social nas ruas e nas redes e a grande solidariedade internacional foram fundamentais para que George Floyd não fosse só mais um caso de racismo institucional nos Estados Unidos, para se tornar de agora em diante “o caso exemplar”, já que na cultura jurídica, precedentes são fundamentais para um novo parâmetro ético ao julgar casos similares.

O governador branco de Minessota, o democrata Tim Walz, disse que a busca por Justiça para Floyd não terminou nesta terça (20), e que ela só virá com mudanças reais que previnam casos como o dele. “Esperamos que o veredicto comece a mostrar que a supremacia branca não vencerá. Mas isso não trará nossos entes amados de volta. Não teremos George Floyd de volta. Sua filha terá de crescer sem ele”, disse o político.

Governador de Minnesota — Timothy James Walz – Imagem: Reprodução Facebook

Uma fala como essa seria impensada por um governante brasileiro. Por aqui, a herança viva do mito da democracia racial se degladia com nossas narrativas de denúncia do racismo na cultura, nas instituições e no Estado. Se por um lado nossa sociedade nunca esteve tão ávida às questões raciais, são raros os representantes de nossa democracia fajuta que menciona o racismo institucional na segurança pública, ou tem coragem de fazer sequer uma fala em solidariedade a uma das milhares de mães negras que perdem os filhos ainda crianças, adolescentes e jovens, pras balas direcionadas do Estado Brasileiro Genocida.

Que a triste partida de Floyd e a dolorosa justiça americana nos sirva de exemplo.