Por Jamille de Brito Cardoso*

Imagem: Reprodução Facebook

Deságua no cotidiano de jovens pretos, como enxurrada de identificação. Feito lágrimas de representação, o livro Gotas de Chuva Encontram o Mar de Dóris Soares, traz consigo a vontade incessante de mergulhar nas linhas e entrelinhas da narração que a autora nos proporciona, pois a mesma está intrinsicamente ligada à vida de negros em todo Brasil.

A escritora gaúcha, negra, mãe, esposa, ativista e psicóloga foi criada no movimento negro de Uruguaiana (RS), que teve em seu avô materno como um dos criadores. Dóris vem reconstruir o imaginário da literatura contemporânea com sua escrita fluida, de fácil compreensão e (quase que) biográfica.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, escrita numa espécie de prosa poética, se subdivide em três capítulos, seguido da segunda parte, na qual nos são apresentados 27 poemas, que lançam os leitores – e os mantêm atentos – nas prosas e versos de construção identitária que a autora nos mostra; sua escrita evoca lembranças.

No primeiro capítulo da primeira parte, chamado “Banho de chuva”, Dóris nos apresenta, em primeira pessoa, lembranças da vivência de uma criança negra que, para ela, são como banhos de chuva. Neste capítulo, ela relata a sua afeição e admiração pelos avós e familiares, bem como a inversão de valores que foi se modificando com o tempo. Hodiernamente, como salienta a autora, pouco se tem visto crianças a se deliciarem nas ruas e nos prazeres pueris. As ruas tornaram-se perigosas, as mães temerosas, os gritos transformaram-se, as vidas foram se reestruturando, mas permanecem iguais, pois os avós ganham novas roupagens, no entanto a essência da vida de crianças pretas ainda continua a mesma.

No segundo capítulo, “Dança de rua”, a autora vem explorar o imaginário e os sonhos de uma criança negra, deixando claro o quanto as diferenças sociais influenciam na construção imagética. Isso fica bastante evidente quando ela faz uma comparação das suas lembranças com um banho de chuva, relatando sobre a vez em que ela fez uma audição na escola pública e ganhou um espaço para ensaiar em uma escola privada. É nesse momento que ficam perceptíveis as diferenças sociais, pois houve ali um choque de realidade, quando uma criança negra, de escola pública, estava agora estudando em um ambiente particular. Dóris toca na ferida causada pelo racismo, pois ele, enquanto estrutura, está enraizado e diretamente ligado com a edificação detalhada de lembranças que a assombram e a perseguem feito fantasma. Podemos observar isso na parte em que Dóris relata sua timidez, apenas para descobrir, em seguida, que esse acanhamento era fruto de situações racistas que vivenciava. Percebe que nunca se tratou de timidez e sim, silenciamento, fazendo com que ela sempre se calasse.  A autora conduz os leitores a se sentirem parte da história contada: os sonhos de uma menina pobre de escola pública se sentir linda ao passar pela rua vestida de bailarina se traduzem em desejos de muitas outras crianças pretas e pobres, pois nem nos seus sonhos ela conseguia se ver representada, pois não se via uma bailarina preta.

É no terceiro capítulo – “Onde não tinha mar” – que a autora apresenta traços mais fortes e marcantes da literatura afro-brasileira, quando busca trazer em seu relato um pouco das tradições de sua família e da cidade de Uruguaiana, enfatizando as procissões realizadas no dia 2 de fevereiro (Navegantes), que ela descreve ser um dos melhores momentos em que a cultura afro ia se fazendo presente – pois era o mesmo dia de Iemanjá –, somente mais tarde é que esse olhar para a negritude realmente se concretiza. Assim como os outros capítulos, este também ganha um tom poético, pois a forma que Dóris estrutura sua poética em prosa, é significativa e encantadora. A autora cita que a sua família não era praticante de religiões de matriz africana, pois não eram bem vistas dentro de sua casa. Porém, descobriu que seu avô materno havia sido praticante, mas não sabia a razão de seu afastamento.  É este olhar de

“descobertas” que a autora vem trazendo ao longo de todo o livro, revelando-nos também a importância da representação e da representatividade, quando é contado sobre a percepção dela a respeito da (como o eu-lírico chama) verdadeira imagem de Iemanjá.

É interessante notar que à medida que o tempo vai passando, a percepção da autora a respeito não só daquela tradição, bem como o modo em que Iemanjá é representada, vai se alterando, pois é com o tempo que se percebe a verdadeira aparência dos orixás, e que a percepção branca e eurocêntrica é apenas uma construção para apagamento de história do povo negro. O terceiro capítulo é também o ponto que mais conversa com o título, porque é nele que vemos refletida as lembranças da infância da autora. É no lugar onde o mar se fez ausente que ela encontra no rio e/ou na chuva os verdadeiros prazeres de se viver.

A segunda parte do livro apresenta alguns poemas em que a autora desperta nos leitores sentimentos que também são os dela. Traz novamente a água como temática principal, e com ela, lembranças de sua infância e da força de uma criança que agora está adulta. Entrecruzando ideias que se cortam ao mesmo tempo em que se complementam, os pensamentos e vivências são dela, mas repercutem o que muitos negros e negras vivem cotidianamente – às vezes, literalmente – na pele.

A segunda parte do livro vem interseccionar, em todos os sentidos da palavra. Vemos emergir na literatura “negras escrituras” protagonizadas por mulheres que em suas construções descrevem pautas, reivindicações e, sobretudo, vivências que por muito tempo foram visibilizadas pelos movimentos sociais hegemônicos que massacraram e tiraram a voz de mulheres de cor.

Em um dos seus poemas – “Tempestar” –, Dóris traz uma criação lexical, espécie de neologismo, que a autora diz reconhecer: “afinal quem nunca tempestou?” Segundo a autora, carregar a pele escura é o que nos faz entender o que é tempestar, o vocábulo que melhor traduz o modo como tempestades acontecem dentro dela e de milhões de pessoas negras. Contudo, após as turbulências de se viver, ou melhor, de sobreviver numa sociedade estruturalmente racista e machista, considera-se possível que, depois da tempestade, venha a arte de se renovar, de recriar, de seguir novos caminhos.

Em seu último poema, “Entra na Roda”, a autora cita várias mulheres importantes para a história do feminismo negro, e as põe numa roda, um ritual, convidando todas as mulheres para participar, unificando o movimento e tornando todas em uma só. É neste poema que ela procura ressaltar a importância de se conhecer os laços ancestrais,  para assim se permitir sentir e se redescobrir entre outras mulheres negras que vieram antes e deixaram lições de vida que se traduzem em histórias que permanecem vivas, como exemplo para as próximas gerações, deixando claro que mesmo em uma sociedade racista e misógina, há uma força maior de mulheres guerreiras e ainda se pode conectar as irmãs de cor, seja  através da dança, dos tambores ou das escritas; elas têm a potência de serem elas mesmas e que entre lágrimas e sorrisos, serem mulheres fortes, que vão resistir. As águas que lavam a alma de Dóris Adriana, trazendo lembranças, são águas que banham a infinidade de muitas outras mulheres negras que se identificam e compartilham das memórias da autora.

Este é um livro incrível, de uma escrita, sem exagero nenhum, excepcional.

Diante de tudo já exposto, faz se mister destacar a importância deste livro para mulheres negras espalhadas por todo o Brasil e porque não dizer, pelo mundo.

 

*Jamille de Brito Cardoso,Graduanda em pedagogia,23 anos,Barreirense

 

 

 

 

Resenha de: SOARES, Dóris Adriana Pinto. Gotas de Chuva Encontram o Mar. Belo Horizonte: Editora Popular Vienas Abiertas, 2020.