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Mulheres negras da América Latina costuram alianças por Reparação e Bem Viver

Através do Comitê Impulsor Internacional, ativistas constroem estratégias para viabilizar a participação na Marcha das Mulheres Negras e fortalecer a articulação política transnacional
Colagem: Patrícia Rosa

Por Catiane Pereira e Jamile Novaes

Seus passos vêm de longe. Seus caminhos cruzam os ares, as estradas, os trilhos e os rios, ultrapassando fronteiras geográficas, políticas e culturais. Suas bagagens carregam lutas históricas, coragem, radicalidade e o desejo de transformação. Suas rotas apontam para uma sociedade onde as desigualdades e violências causadas pelo racismo sejam reparadas e o Bem Viver seja uma realidade para todas as pessoas.

Em contagem regressiva, há apenas alguns dias da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, ativistas de todo o Brasil e de diversos países do mundo se organizam para tomar as ruas de Brasília (DF), em 25 de novembro. Uma mobilização que vem sendo costurada ao longo dos últimos três anos, através de reuniões, debates, conferências e caravanas realizadas em formato virtual e presencial por coletivos e organizações que atuam em diferentes frentes de luta e territórios.

O movimento, que parte do Brasil, se conecta a outros países, articulando uma rede internacional de mulheres negras que compartilham estratégias de resistência, enfrentamento ao racismo patriarcal e defesa dos direitos humanos. Para coordenar essa articulação, foi criado o Comitê Impulsor Internacional, que conta com representações de 37 países e é  responsável por apoiar a mobilização, fortalecer o diálogo entre coletivos e facilitar a participação de ativistas de diferentes territórios. 

Brenda Gomes, técnica do Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra e  uma das ativistas brasileiras que integram o Comitê Internacional, explica que o trabalho de articulação global tem sido intenso desde janeiro de 2025. “O Comitê Internacional vem realizando encontros com mulheres de diversos países, com o objetivo de construir uma narrativa global comum. Essa mobilização já resultou na criação de Comitês em outros países, além da organização a partir dos Grupos de Trabalho, que têm como objetivo a articulação da comunicação, linguagem e financiamento.”

Brenda Gomes, técnica do Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra e  uma das ativistas brasileiras que integram o Comitê Internacional – Imagem: Bruna Rocha

De várias partes da América Latina, ativistas negras se preparam para marchar no Brasil, reivindicando o fim da violência de gênero e da LBTIfobia, a participação na política nos espaços de poder e tomada de decisão, a garantia dos direitos trabalhistas e tantas outras pautas que atravessam as fronteiras e demandam a articulação de uma agenda internacional. Para essas mulheres, a marcha é método político que consolida as conexões e fortalece o coro por justiça e liberdade

Vozes da América Latina

Da Argentina, a psicóloga social Natacha Giusto, soube da mobilização para a Marcha através das redes sociais, mas foi só após vir ao Brasil para uma atividade do Instituto Update que teve a possibilidade de se envolver nos diálogos sobre a construção desta agenda. Junto a outras ativistas negras do seu país, ela criou um comitê impulsor local para a Marcha e está em busca de apoio financeiro para custear a vinda de 34 ativistas para Brasília.

Integrante do Bloque Antirracista Rosario, da Área de Género de la Comisión 8 de Noviembre e da Asamblea de Mujeres, Lesbianas, Bisexuales, Travestis, Trans, No binaries, Intersex y otras identidades e expresiones de género Afrodescendientes de y en Argentina, ela conta que sua participação no Encontro Plurinacional de Mulheres e Diversidades foi um fator decisivo para que se engajasse na luta feminista negra.

“Muitas pessoas imaginam uma Argentina branca, eurodescendente, praticamente sem registros de pessoas negras ou afrodescendentes. Estas narrativas estão instaladas dentro e fora do país. Muitas vezes crescemos em completa solidão e achando que somos as únicas pessoas negras. Este grande movimento feminista possibilitou o encontro com a minha comunidade”, explica.

Natacha Giusto, Integrante do Bloque Antirracista Rosario, da Área de Género de la Comisión 8 de Noviembre e da Asamblea de Mujeres, Lesbianas, Bisexuales, Travestis, Trans, No binaries, Intersex y otras identidades e expresiones de género Afrodescendientes de y en Argentina – Imagem: Arquivo Pessoal

A boliviana Paola Inofuentes foi criada em uma família de ativistas que fundou a primeira organização negra do seu país. Desde muito cedo, esteve envolvida no movimento cultural e foi nesse espaço que teve a oportunidade de aprender sobre direitos humanos, das mulheres, e sobre como articular a luta antirracista com outras agendas. 

Paola é a atual coordenadora da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diáspora (RMAAD), a rede regional mais antiga da América Latina, criada em 1992 durante o primeiro Encontro de Mulheres Negras na República Dominicana e hoje presente em 23 países. 

E foi justamente através da Rede que ela tomou conhecimento sobre a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, realizada em 2015, mas naquele momento não pôde vir ao Brasil. Anos depois, em contato com ativistas do Odara, Paola soube que aconteceria uma segunda edição em 2025 e foi convocada a atuar nos processos de articulação da região. “Primeiro, pensamos em promover a participação das mulheres da Rede na Marcha. Depois percebemos que não se tratava apenas de acompanhar o movimento do Brasil: tratava-se de construir uma marcha regional.”

Paola Inofuentes, atual coordenadora da Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diáspora (RMAAD) – Imagem: Anastácia Flora

Lía Zevallos é psicóloga comunitária e ativista afro-peruana. Desde criança, sempre observou as desigualdades existentes e como o racismo se expressava no cotidiano. Em meio a esse cenário, encontrou na arte, na dança e na cultura os seus primeiros espaços de resistência. Mais tarde, teve a possibilidade de conhecer diversas comunidades do seu país e entender que as desigualdades que tanto lhe incomodavam não eram casuais, mas sim estruturais. “Essa mistura de organização, cultura e comunidade me levou a um compromisso político com a luta.”

Atualmente, Lía é responsável pela Secretaria-Geral da Ashanti Perú, uma rede de juventudes negras que impulsiona processos de liderança e participação no Peru e na América Latina. Ela teve o primeiro contato com as discussões em torno da Marcha através da RMAAD e passou a fortalecer uma rede de ação política que conecta as lutas locais aos processos continentais.

“É a minha primeira vez na Marcha. O que me motiva é a capacidade de articulação regional e a força política que ela representa. Participar me permite fortalecer alianças e contribuir para a agenda de justiça, Reparação e Bem Viver, a partir de uma perspectiva latino-americana”, afirma.

Lía Zevallos é psicóloga comunitária e ativista afro-peruana, responsável pela Secretaria-Geral da Ashanti Perú – Imagem: Arquivo Pessoal

Direto do Uruguai, Tania Ramirez também chega para marchar junto às companheiras do Brasil. A ativista, que se define como amefricana do sul, foi criada numa família matrilinear, por uma mãe que sempre a ensinou sobre a importância de ter consciência de raça, classe e gênero. Atuou na militância estudantil secundarista e universitária e, em 2012, após ser vítima de agressões físicas e verbais motivadas pelo racismo, compreendeu o lugar central da luta política na sua trajetória. “A partir dali, entendi que essa luta era para a vida toda. Ali percebi que lutar para transformar o mundo não é por temporada. É para sempre. E mesmo depois de nós. Como nossas ancestrais, seguimos semeando.”

Ainda na juventude, Tania co-fundou o Mizangas – Movimiento de Mujeres Afro, organização que há mais de 20 anos atua pelo fortalecimento das mulheres negras do Uruguai. Com uma incidência política ativa e articulada, o Mizangas já conseguiu influenciar nos processos de criação de leis importantes para o Uruguai, como a legalização do aborto, a regulamentação da maconha, ações afirmativas para população afro e a lei integral para pessoas trans – que garante a livre autodeterminação de gênero no país. 

No ano passado, enquanto participava de um encontro promovido pela Association for Women’s Rights in Development (AWID) na Tailância, Tania teve a oportunidade de se conectar com algumas ativistas brasileiras e se juntar à articulação internacional em torno da Marcha. 

Tania Ramirez, co-fundadora do Mizangas – Movimiento de Mujeres Afro – Imagem: Arquivo Pessoal

A Reparação e o Bem Viver não são apenas os eixos centrais da mobilização brasileira, mas traduzem uma agenda internacional das mulheres negras. Brenda Gomes explica que essas pautas conectam as mulheres de diferentes territórios porque expressam realidades comuns. “Em diferentes países, essas mulheres enfrentam realidades marcadas pela violência racial, pela pobreza, pela exclusão política e pela negação de direitos básicos. O que as une é a busca por justiça histórica, por políticas públicas e por uma nova ética de convivência social, que respeite as ancestralidades, a natureza e a dignidade dos corpos negros.”

Unidas por Reparação e Bem Viver

A vinda de Natacha, Paola, Lía, Tania e suas organizações à Marcha não é fruto do acaso, mas de anos de articulação, resistência, diálogos transnacionais e da força de coletivos que atravessam países e se estendem pela América Latina e por todo o mundo. Elas representam algumas das redes de mulheres negras que têm construído estratégias coletivas, compartilhado saberes e fortalecido a luta por Reparação e Bem Viver em seus territórios. 

Ao serem convocadas a construir uma marcha com incidência internacional, as ativistas passaram a acionar suas próprias redes e buscar apoios institucionais para criar caminhos concretos que garantam a participação de mulheres de seus países. “Priorizamos chegar, e garantir que todas as companheiras – na sua diversidade, inclusive com deficiência, neurodivergência, questões de saúde mental, ou que maternam – tenham seus cuidados assegurados. Alimentação, descanso, apoio, tudo”, aponta Tania, que já conseguiu garantir a vinda das ativistas de Mizangas, mas ainda busca recursos financeiros para companheiras de outros países.

De forma estratégica, a RMAAD decidiu realizar sua assembleia geral em Brasília, nos dias 23 e 24 de novembro, como uma forma de aproveitar a presença das delegações internacionais para fortalecer a Marcha. Paralelamente, os comitês nacionais dos países que compõem a Rede seguem discutindo logística e lidando com os desafios financeiros para que outras ativistas da Rede também possam participar. 

“Para a assembleia e a Marcha, chegam 120 mulheres. E há muitas outras que virão apenas para a Marcha. O principal desafio é o financiamento. Não há recursos, e este é um ano de redução significativa de financiamento para organizações”, explica Paola. Ainda assim, acredita que os desafios serão superados e que haverá um número expressivo de representantes da RMAAD no dia 25 de novembro.

Para Brenda, a articulação internacional amplia a força política da Marcha. “Unir mulheres negras do mundo significa criar uma frente global contra o racismo e o patriarcado, denunciando as opressões comuns e compartilhando estratégias de resistência e de cuidado. Além disso, essa união fortalece a incidência política em organismos internacionais e cria pontes de solidariedade e mobilização de recursos”, ressalta.

Depois da Marcha, a luta continua

Mais do que um ato político, a Marcha é vista como um espaço de cura, reencontro e continuidade das lutas. As expectativas das ativistas apontam para a consolidação de uma agenda internacional de mulheres negras e o fortalecimento de alianças entre coletivos da América Latina e do Caribe.

“Espero que esta experiência não fique apenas no momento simbólico, mas que abra caminhos para uma agenda comum, com ações sustentáveis e estratégias de cuidado coletivo”, afirma Lía Zevallos. Paola Inofuentes acrescenta que a marcha deve ser um marco para pensar o futuro da RMAAD. “Sairemos acolhidas emocionalmente e politicamente. Depois, virá o momento das reflexões sobre os próximos passos”, diz.

No Uruguai, Tania Ramírez já planeja levar os aprendizados para o Mizangas. “Esta caminhada vai ter impacto. Queremos que reverbere globalmente. Estamos caminhando para algo diferente. O capitalismo, o racismo patriarcal e a guerra contra nossos corpos têm que acabar”, declara.

Brenda Gomes reforça que as expectativas para o pós-marcha são grandes. ” A Marcha quer deixar como legado um documento político internacional, construído de forma coletiva, que sirva como base para a formulação de políticas públicas de reparação no Brasil e em outros países”, afirma. Ela também espera o fortalecimento das redes de mulheres negras, o surgimento de novas lideranças e a criação de mecanismos permanentes de incidência política, tanto em nível nacional quanto internacional.

Para Natacha Giusto, o que está em jogo é mais do que um evento, é a chance de construir novas referências para o feminismo negro latino-americano. “Queremos modificar as bases da sociedade e romper com a lógica que sustenta o racismo, o patriarcado e o colonialismo. O feminismo antirracista, anticapitalista e anticolonial é a possibilidade de ter um futuro melhor, com um ecossistema equilibrado e oportunidades para todas”, conclui.

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