Por Elizabeth Souza
Cores, brilho e alegria também são expressões de luta e resistência. A 3ª Marsha Trans evidenciou essa força na tarde deste domingo (25), em Brasília (DF). O barulho dos leques soava como aplausos em meio às vozes firmes de lideranças políticas e sociais que, do alto de um trio elétrico, reivindicavam uma sociedade na qual suas vidas e direitos sejam respeitados.
É nesse contexto de resistência e memória que se insere a fala de Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Segundo a dirigente, a mobilização carrega uma grande responsabilidade diante de um cenário adverso, ao mesmo tempo em que reafirma o compromisso de transformar o olhar da sociedade e do próprio Estado sobre a população trans. A Marsha foi realizada pela Antra em parceria com o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat) e outras 60 organizações.
Reivindicações
Ao falar sobre o projeto de sociedade defendido pelo movimento, Bruna também destacou que as pautas são, acima de tudo, interseccionais. Segundo ela, as reivindicações não se desvinculam da demarcação de terras indígenas, da melhoria das condições de vida da classe trabalhadora e do fim da escala 6×1. Ao mesmo tempo, incluem o enfrentamento ao transfeminicídio, a implementação de políticas educacionais em todos os níveis, a promoção de emprego e renda, a adoção de cotas para pessoas trans e a defesa das infâncias trans e de um envelhecimento digno.
Além disso, mencionou uma pauta que considera de extrema relevância: “Se pudesse definir, seria a publicação do Programa de Atenção Especial à Saúde da Comunidade Trans, prometido há dois anos. Nós estamos aguardando e ainda não há indicativos. O Governo Federal e o Ministério da Saúde precisam publicá-lo, porque se trata de uma questão de saúde pública e de longevidade, que impacta diretamente a sobrevida da comunidade trans.”
As falas ecoaram entre participantes da marcha, como Samantha Terena, mulher trans indígena da aldeia Tarumã, no território indígena Taunay-Ipegue, em Mato Grosso do Sul. “Pra mim é maravilhoso estar aqui como pessoa trans e reafirmar que indígena LGBT existe e estamos aqui pra marchar junto com as outras manas por nossas vidas. Ou lutamos ou morremos”, frisou Samantha.

“A marcha reafirma para a sociedade brasileira que os corpos trans existem, estão em todos os cantinhos do Brasil e vieram a Brasília para dizer à sociedade que nós queremos ser visibilizadas, inseridas e cuidadas. Porque nós somos um país onde os nossos corpos são os mais aviltados”, reforçou Jovanna Cardoso, fundadora do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS).
Reivindicações que chegam em meio aos dados mais recentes do dossiê realizado pela Antra, divulgado nesta segunda-feira (26). O documento informa que 80 pessoas trans e travestis tiveram suas vidas ceifadas no Brasil, em 2025. O país segue sendo o que mais mata pessoas trans no mundo, pelo 17º ano consecutivo.
“Nós somos obrigadas a pagar todas as imposições públicas e, ainda assim, somos o único segmento social do Brasil que não tem direito nenhum. Não temos direito ao estudo, somos expulsos da escola ainda na infância e juventude. Não temos trabalho, não temos educação e nossa perspectiva de vida não passa dos 35 anos”, completa Jovanna, se somando às vozes potentes do encontro.
Luta e esperança
A potência dessas vozes ecoou por entre as ruas de Brasília através da sonoridade de um trio elétrico que percorreu as vias que ligam o Congresso Nacional ao Teatro Nacional, conduzindo a bandeira que estampava, em letras garrafais, o tema da edição: “Brasil soberano é um país sem transfobia”. O lema dialoga diretamente com a grafia da Marsha, em que o “SH” faz referência a Marsha P. Johnson, mulher trans, negra e artista drag queen. Ela esteve na linha de frente da Revolta de Stonewall, em 1969, em Nova Iorque, marco histórico do movimento LGBTQIA+ mundial.
Ativistas e lideranças emanaram um rio de palavras de amor, esperança e força a todas as pessoas trans presentes, bem como chamaram a atenção para a responsabilidade que pessoas cis têm em meio à busca de uma sociedade justa e saudável para a população trans, travesti e não-binária. Uma dessas vozes foi a da deputada federal Erika Hilton, uma das mais aguardadas.
“Em mais um ano, a Marsha Trans ocupa Brasília para dizer: ‘não nos calarão!’. Somos a garra, a força, a rebeldia, a ousadia, a insurgência e seguiremos sendo”, asseverou. A parlamentar também aproveitou para deixar um recado aos reacionários que participaram de uma outra marcha realizada naquele mesmo dia, encabeçada pelo deputado federal bolsonarista Nikolas Ferreira. Em meio às fortes chuvas que tomaram a capital federal na manhã e início de tarde do dia 25, alguns apoiadores da extrema direita que aguardavam a chegada da marcha bolsonarista foram atingidos por um raio e encaminhados ao hospital. Algumas pessoas seguem internadas em estado grave.
“A chuva limpou, e a Esplanada [dos Ministérios] tem as cores da nossa bandeira. A natureza fala, o tempo diz: para o fascismo, raios e trovões; para a gente, um céu aberto. Viva a nossa luta, viva a nossa história”, enfatizou Erika em meio a um céu azul tímido e sem chuvas no final da tarde deste domingo.
Maior alcance
Pela primeira vez, a Marsha Trans contou com a participação de caravanas interestaduais, ampliando o alcance da mobilização. Representantes do Rio de Janeiro, da Bahia e do Ceará estiveram presentes após um processo de seleção que recebeu centenas de inscrições de pessoas trans, travestis e não-binárias. Na Bahia, foram selecionadas pessoas de 11 municípios.
Uma delas foi Thiffany Odara, travesti negra, pedagoga e doutoranda em Educação, que tem marcado presença em todas as edições do evento. “Enquanto houver transfobia não haverá democracia, esse é o recado da marcha”, reforçou.

Palavras que dialogam diretamente com outro integrante da caravana que participou do evento pela primeira vez: Naian Leal. “É muito significativo estar aqui porque tem menos de dois anos que eu tentei acabar com minha vida por causa do preconceito velado [contra mim]. Então é muito importante estar aqui enquanto corpo trans, mostrando que estou resistindo e tentando mudar o histórico de tantas pessoas trans que não conseguiram e foram suicidadas por esse sistema”, disse ele.
Diretamente da capital fluminense, Rio de Janeiro, Cassandra Maciel também deu o seu recado: “Queremos dizer que nós existimos (…) infelizmente por nosso país ter uma moral ética baseada em uma visão cristã, arcaica, eurocêntrica, patriarcal, isso fere muito o que somos. Então a importância da Marsha existir é falar da importância da existência de pessoas como eu.”


