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Caso Vitinho: quase um ano após a morte do jovem, família enfrenta a morosidade do judiciário baiano

Na última segunda-feira (2), o MP-BA se comprometeu a apresentar denúncia até 10 de maio, quando se completa um ano da morte do guia de turismo em uma operação policial
Imagem: Arquivo Pessoal

Por Jamile Novaes

Victor Cerqueira Santos Santana, carinhosamente conhecido como Vitinho, cresceu em uma família grande e unida, na cidade de Itabela, extremo sul da Bahia. Mesmo vivendo no distrito de Caraíva, em Porto Seguro (BA), onde atuava como guia de turismo, fazia questão de atravessar 70km de estrada para estar em casa e celebrar, junto da família, todos os feriados e datas importantes. “Ele sempre foi muito amoroso com as tias, com a mãe, muito participativo de tudo, não perdia nenhum evento nosso”, conta sua prima, Adriana Souza.

Preocupado com a saúde e qualidade de vida da mãe, dona Luzia Cerqueira, o jovem pretendia desacelerar a jornada de trabalho para cuidar dela e viajarem juntos. Seus planos, no entanto, foram interrompidos no dia 10 de maio de 2025, durante uma operação conjunta das polícias Federal e Militar, que buscavam suspeitos de integrar um grupo conhecido como “Anjos da Morte”.

Tudo começou por volta das 18h, quando Vitinho buscava um grupo de turistas para levar até a pousada onde trabalhava. Ao perceber a movimentação da polícia, o guia de turismo teria conduzido o grupo até o interior de um comércio para que ficassem abrigados até o fim da operação.

De acordo com a versão da polícia, um dos objetivos da operação era executar um mandado de prisão contra um suspeito conhecido como “Alongado”, que teria resistido e acabou morto pelos agentes. Vitinho foi apontado pela polícia como o “segurança” de Alongado e, ainda segundo a versão oficial, foi morto a tiros em via pública.

No entanto, familiares e pessoas próximas contam que Vitinho nunca teve qualquer envolvimento com o crime. Testemunhas relataram que ele foi abordado pelos policiais, algemado e levado para fora do distrito de Caraíva. A família denuncia ainda que o corpo do jovem só chegou ao Instituto Médico Legal (IML) por volta das 3h da madrugada do dia 11 de maio. 

 Protestos foram realizados no distrito de Caraíva em resposta à morte do jovem. / Imagem: Arquivo Pessoal

O atestado de óbito aponta “politraumatismo toráxico, choque hemorrágico e projétil de arma de fogo” como causas da morte, laudo que corrobora com a denúncia de familiares de que ele foi torturado antes de ser morto. Em 24 de maio de 2025, o corpo de Vitinho foi exumado, a pedido do Ministério Público da Bahia (MPBA), para uma nova perícia que pudesse apurar as circunstâncias da sua morte. O inquérito instaurado para investigar o caso, no entanto, já expirou, há meses, o prazo de 90 dias previsto para a conclusão. 

Promessa de denúncia depois de um ano de luta

Durante a última semana, familiares do jovem, junto ao advogado que acompanha o caso, estiveram em Salvador (BA) para cobrar respostas sobre o andamento das investigações. “A gente tem provas suficientes de materialidade do delito. Existe uma pessoa que foi morta em uma operação policial. Agora, a nossa maior dificuldade é conseguir a autoria. A gente vai pressionar todos os policiais da operação, porque alguém matou”, afirma o advogado Ewerton Carvalho.

Ele também explica que, na fase de inquérito, ainda não existem acusados ou réus apontados pelo crime, o que só será possível a partir do momento em que houver uma denúncia formal encaminhada pelo MP. 

Após reunião com representante do MP, realizada na última segunda-feira (2), o advogado informou à Afirmativa que o órgão se comprometeu em encaminhar a denúncia até o próximo dia 10 de maio, data em que a morte de Vitinho completa um ano. A partir disso, Ewerton poderá ingressar como assistente de acusação para colaborar com os procedimentos processuais do caso.

Bahia lidera ranking de letalidade policial no Brasil

“Quando chegou a notícia que tinham assassinado ele, eu falei ‘ele deve estar na estrada, mas ele falou que estava vindo, deve estar sem sinal’”, conta Adriana. 

Naquele dia 11 de maio de 2025, no entanto, Vitinho não pôde cumprir seu compromisso familiar de estar com dona Luzia para comemorar o Dia das Mães. Quase um ano depois, ela conta com saudade sobre a conexão que tinha com o filho. “Todos os dias, de manhã e de noite, ele me pedia a bênção. A gente abençoava um ao outro e desejava um dia na presença do Senhor. Hoje em dia é raro a gente ver jovens tendo esse tipo de cuidado.”

 Vitinho e Luzia mantinham contato diariamente, apesar da distância. / Imagem: Arquivo Pessoal

A dor de Luzia se soma a de milhares de outras baianas que têm a sua maternidade interrompida pela Polícia Militar da Bahia ano após ano. Em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça, o estado figurou mais uma vez no topo do ranking de mortes provocadas por policiais. Foram 1.569 casos, superando estados como São Paulo e, até mesmo, Rio de Janeiro, que vivenciou a maior chacina policial de sua história em outubro do ano passado, com mais de 120 pessoas mortas.

Se você for uma pessoa negra, suas chances de entrar para a estatística letal das forças policiais baianas são quase seis vezes maiores. O relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta (2024) da Rede de Observatórios da Segurança, apontou que 95,7% das vítimas naquele ano eram negras. Ou seja, enquanto a taxa de mortes entre a população negra foi 11,5 para cada 100 mil habitantes, entre a população branca o índice apontou dois óbitos para o mesmo contingente populacional.

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