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Indumentárias dos Blocos Afro de Salvador (BA) ensinam e reposicionam o corpo negro na festa

Entenda como cores e adornos ligados às religiões afro-brasileiras estruturam uma estética de resistência
Imagem: Agência Brasil

Texto: Divulgação

Dentro de alguns dias, os circuitos do Carnaval de Salvador (BA) serão ocupados pelos imensos tapetes formados pelas indumentárias dos principais Blocos Afro da cidade: Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Olodum ou Malê Debalê, para citar alguns. Além de contar, por meio da música, as histórias do povo negro que atravessam gerações, essas instituições utilizam as vestimentas em uma semiótica que chama atenção desde a fundação das agremiações nos anos 1970.

A respeito do papel das indumentárias no Carnaval de Salvador, Cáren Cruz, consultora de imagem, especialista em pele negra e colorimetria, explica que os Blocos Afro são parte de um projeto político e cultural que tem a identidade negra como parte de sua organização. Por isso, estabelecem uma estética própria, referenciada na valorização da negritude e da diáspora africana. “As cores, tecidos, colares, códigos e símbolos carregados no corpo surgem como a extensão dessa luta por direitos e um manifesto de posicionamento dentro e, historicamente, fora do Carnaval”, salienta. 

Ainda de acordo com Cáren, quem observa o cortejo dos Blocos Afro nos circuitos da capital baiana, nota uma estética própria nas fantasias e vestes dos abadás, fundamentadas nas religiões de matriz africana. Desde a Banda Didá, que já trouxe as cores amarelo e dourado de Oxum, aos Filhos de Gandhy, que lotam as avenidas dos tons branco de Oxalá, e azul de Ogum, a escolha das cores e adereços traz uma história de protesto e resistência por trás da folia.

Para entender melhor a escolha das indumentárias, a especialista chama atenção para os trajes utilizados pelos Filhos de Gandhy. Nas vestimentas é possível notar forte associação ao Candomblé e ao Calundu (práticas religiosas de origem bantu, que envolvia incorporação, danças e músicas) se tornam mais evidentes ao somar aos búzios, vidrilhos e braceletes, com as cores que remetem aos Orixás. Dessa forma, o Carnaval também cumpre um papel educativo.

“Quando os Blocos Afro ocupam as ruas com cores, tecidos e símbolos, eles estão comunicando valores, histórias e pertencimento. Esses tecidos ‘dialogam’ com a permanência do corpo negro na festa, enquanto as cores funcionam como códigos sociais que narram orgulho, ancestralidade e espiritualidade”, elucida.

Outro exemplo utilizado pela especialista para destacar a identidade cultural afro-brasileira presente na folia é o Ilê Aiyê. Desde a sua fundação, em 1974, como o primeiro Bloco Afro de Salvador, o grupo do bairro Curuzú e seus 100 primeiros participantes se tornaram símbolos de resistência e identidade no Carnaval. Hoje, esses trios conduzem centenas de homens e mulheres negras pelas avenidas e influenciam a riqueza cultural característica do Carnaval soteropolitano.

Nesse cenário, a consultora de imagem afirma que a escolha das cores, tecidos e adereços não obedece à lógica da tendência, mas a sistemas simbólicos herdados das religiões de matriz africana.

“As cores não estão ali para simplesmente ‘embelezar’ o Carnaval, mas para organizar o corpo negro dentro da festa a partir de códigos ancestrais. Essa estética, fundada e difundida muito antes da década de 1970, não é acessória: ela estrutura e reposiciona o corpo negro como sujeito central dessa narrativa, seja na história da sociedade, do Brasil, África e mundo, até desaguar no Carnaval”, conclui Cruz.

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