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Mulheres vivas, em luta e sem medo: por Democracia com Soberania, pelo Bem Viver, pelo fim do feminicídio e contra a escala 6×1

É preciso estar atento e forte, Não temos tempo de temer a morte. Divino, maravilhoso, Gal Costa, 1969.
Imagem: Paula Fróes

Por Camila de Freitas Santos da Silva**

Há quem tente reduzir a luta das mulheres a datas comemorativas, como se ela coubesse em um calendário concreto ou em homenagens protocolares. Mas a realidade denuncia essa tentativa de esvaziamento. A luta está no cotidiano. No corpo-a-corpo. No tempo presente. No agora. Está em cada trabalhadora que enfrenta jornadas duplas e triplas, nas estudantes que ocupam as universidades por políticas de acesso e permanência, nas mulheres do campo que sustentam a produção de alimentos, nas periferias que constroem redes de solidariedade e acalento onde, muitas vezes, as políticas públicas não chegam, e, quando chegam, não funcionam como deveriam.

Essas trajetórias são marcadas por cicatrizes profundas: a violência de gênero que ceifa vidas — entre a morte morrida e a morte matada —, o racismo estrutural e outros marcadores interseccionais que sustentam os privilégios masculinos e preservam as engrenagens de um patriarcado que organiza poder, recursos e reconhecimento de forma desigual. Trata-se de um sistema que, em sua origem, já naturalizava hierarquias, com distribuição de silenciamentos e transformação da desigualdade em norma. Um arranjo que garante a alguns os deleites e as benesses do mando, enquanto impõe a muitas o peso da sobrevivência cotidiana.

Nesse caminho, do sertão ao litoral, das palafitas às grandes avenidas, mulheres seguem reorganizando o mundo a partir da própria sobrevivência. E sobreviver, em um país atravessado por racismo, desigualdade social e violência de gênero, é um ato político. Dos incansáveis. Daqueles que drenam a vida psíquica, física e emocional, mas que ainda assim não nos imobilizam.

A minha formação veio dos movimentos sociais e estudantis. Uma menina curiosa e repleta de sonhos — a revolução. Foi nesses espaços que aprendi dizeres, escutei estórias e aprendi que não basta sobreviver: é preciso ter coragem. É preciso não ter medo. Na canção Divino Maravilhoso, eternizada na voz de Gal Costa, ouvimos “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. Como mulher negra, atravessada por estruturas historicamente excludentes, afirmo: não há tempo. O alerta não é metáfora, é condição concreta de existência.

Desde que o mundo se reconhece e se constrói, as mulheres se organizam em torno de uma constatação central: a estrutura social é sustentada pelo nosso trabalho. Somos nós que realizamos o cuidado cotidiano, que mantemos nossas casas, e as dos outros, em pé. Somos nós que criamos filhos e cuidamos dos familiares, que ofertamos amor mesmo quando ele nos é negado em condições dignas. Somos nós, mulheres, que atravessamos as maiores batalhas, na linha de frente.

Mas essa constatação não deve servir para romantizar a exaustão. Se sustentamos o mundo, é justamente por isso que temos o direito de transformá-lo. Não queremos apenas resistir às trincheiras, queremos desmontá-las. Queremos viver o nosso sonho ancestral: o Bem Viver, com dignidade, segurança alimentar, acesso à saúde, educação, moradia, ao amor, à vida, sem medo.

É nesse horizonte que se constrói o chamado: “Mulheres vivas, em luta e sem medo: por Democracia com Soberania, pelo Bem Viver, pelo fim do feminicídio e contra a escala 6×1.” Um mote que não surge de improviso. Ele é resultado de acúmulos históricos, debates intensos e articulação viva e potente entre mulheres de diferentes cidades baianas, que, mesmo em uma simples chamada virtual, via plataforma Zoom, demonstram que a política feminista é construída na auto-organização, escuta e construção coletiva.

Esse conjunto de palavras traduz uma compreensão ampla de enfrentamentos presentes na atual conjuntura do nosso país e do mundo. Não se trata de uma junção de slogans isolados, mas uma síntese das intersecções políticas construídas a partir das realidades concretas das mulheres.

Nesse sentido, falar em democracia com soberania é tecer caminhos de participação real, fortalecer o nosso projeto de poder popular e defender processos decisórios que contemplem as múltiplas diversidades que compõem o país. É afirmar que democracia não pode ser apenas rito institucional, precisa ser prática cotidiana, com distribuição de poder e voz. Defender o Bem Viver é romper com a lógica da exploração permanente. É propor outros caminhos — verdadeiros odus ancestrais — que apontem para uma política dos afetos, do cuidado, da coletividade e da seguridade social. É deslocar o centro da política da acumulação para a dignidade. 

Lutar pelo fim da escala 6×1 é denunciar um modelo de trabalho que esgota corpos e subjetividades, sobretudo os corpos femininos e negros. É questionar uma engrenagem que naturaliza a exaustão como regra e transforma descanso em privilégio.

O que está em jogo não é apenas uma pauta isolada, mas um projeto de sociedade sustentado pelo Bem Viver. Um projeto que só se sustenta com a ampla participação e articulação entre os movimentos feministas, negros, sindicais, estudantis e rurais. Essa unidade nos garante o direito à diversidade como nossa maior arma de força política.

No dia 8 de março, mulheres do sertão ao litoral, das palafitas às grandes avenidas, vão às ruas. Vão lutar. Lutar porque, historicamente, essa é a nossa maior arma de existência. É por meio da voz, do corpo, da auto-organização e da articulação política que transformamos indignação em movimento e dor em força.

Vamos às ruas para barrar projetos que nos retiram direitos e aprofundam desigualdades. Para afirmar que queremos viver a luta sem medo — por democracia, pelo Bem Viver, pelo fim do feminicídio e contra a escala 6×1. Vamos porque entendemos que cada pauta está conectada a um mesmo sistema que insiste em nos explorar, silenciar e violentar.

Lutar, neste tempo, é também um gesto de autopreservação coletiva. É enfrentar uma política que nos mata todos os dias, seja pela violência direta, pela exaustão do trabalho, pela fome, pelo racismo ou pela negligência do Estado.

Por isso, convido você, que está lendo este texto, a ocupar as ruas conosco. Conheça a agenda das manifestações, atos e eventos do seu território. Que sua voz se some às nossas, que seu corpo fortaleça essa presença coletiva, que sua indignação se transforme em ação. A luta é de todas nós, e é juntas que seguimos, vivas e sem medo.

*Camila de Freitas Santos da Silva é uma mulher e negra, estudante de Psicologia pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Atualmente é Diretora Executiva da União dos Estudantes da Bahia, militante da Marcha Mundial das Mulheres e Conselheira Estadual de Juventude no segmento de Jovens Feministas.

*Este é um artigo de opinião que está dentro da nossa política editorial, mas não reflete necessariamente o posicionamento da Revista Afirmativa

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