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“Caso ela diga não”: a trend que banaliza a violência contra mulheres

Imagem: Freepik

Por Jamile Novaes

Em pleno “Mês da Mulher”, temos sido expostas a uma sucessão de notícias de violência e feminicídio vindas de todas as partes do Brasil.

Em Pernambuco, Mariele Vitória Alves de Lima foi esfaqueada e teve o corpo queimado por um colega por não ceder ao assédio que vinha sofrendo no ambiente de trabalho. Em São Paulo, um homem de 20 anos foi afastado da universidade após compartilhar mensagens ameaçando agredir e estuprar uma colega, caso ela não aceitasse manter relações sexuais com ele. No Rio de Janeiro, veio a tona o caso cruel e revoltante de uma menina de 17 anos que foi vítima de um estupro coletivo e agressões cometidas pelo ex-namorado menor de idade e outros quatro homens adultos.

Se você tem acessado suas redes sociais recentemente, é provável que esses e outros casos tenham aparecido no seu feed. Também existe uma chance de que o algoritmo tenha te entregado uma trend chamada “treinando caso ela diga não”. Nos vídeos, homens aparecem simulando um pedido de casamento/namoro e tendo um “não” como resposta. Na sequência, eles reagem desferindo socos, pontapés e até facadas contra o ar, sugerindo agressões à mulher que negou o pedido. Uma tentativa bizarra de fazer piada com violência que atinge tantas de nós diariamente.

Muitos desses vídeos contam com dezenas de milhares de curtidas e comentários de quem acha graça e reage reafirmando a incitação à violência. Alguns deles foram publicados em 2023 e continuam disponíveis para quem quiser ver.

O Código Penal Brasileiro, em seu Artigo 286 criminaliza a prática de incitação pública ao crime com pena de 3 a 6 meses de detenção ou multa. Partindo desse pressuposto, o que vemos nessa trend são condutas criminosas gravadas, publicadas e circulando livremente pela internet. No entanto, para além de quem produz os vídeos, é preciso apontar também a responsabilização das plataformas digitais que hospedam e amplificam esse tipo de conteúdo. Redes como TikTok e Instagram não podem ser consideradas como espaços neutros de circulação de vídeos, já que, além de permitirem a publicação, trabalham com algoritmos que premiam engajamento e ampliam o alcance quando indicam esses conteúdos aos usuários. 

O fato desses vídeos acumularem milhares de curtidas e permanecerem disponíveis por anos expõe uma arquitetura digital que lucra com a incitação à violência de gênero sem assumir qualquer tipo de consequência.

Tratar a agressão contra mulheres como entretenimento é normalizar a ideia de que a recusa feminina pode ou deve ser respondida com violência. A “piada”, nesse caso, não é inocente, e reforça uma lógica de punição ao “não” das mulheres, seja diante de um pedido, de um assédio ou da tentativa de controle sobre seus corpos e escolhas. Transformar isso em conteúdo viral na internet pode produzir consequências diretas fora das telas. Não por acaso, os números da violência de gênero no Brasil seguem crescendo e escancarando que essa intolerância à autonomia feminina extrapola as redes sociais.

Desde que o assassinato de mulheres em função do gênero foi tipificado como feminicídio no Brasil, em 2015, assistimos a uma escalada vertiginosa desse tipo de crime, com recordes sendo registrados ano após ano. De lá para cá, ao menos 13.703 foram mortas em contexto de feminicídio, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em 2025, o Ministério da Justiça e Segurança Pública registrou 1.470 casos. Dentre as sobreviventes, a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher apontou que 3,7 milhões foram vítimas de violência doméstica ou familiar ao longo do último ano.

As violências físicas e assassinatos que aparecem nos registros oficiais nem sempre acontecem de forma repentina. É comum que sejam precedidos por comportamentos naturalizados socialmente, como ameaças, intimidações, humilhações, ou até mesmo por “piadas” que sugerem a violência. No fim, fica a pergunta: O que separa quem simula agredir uma mulher em um vídeo de quem realmente a agride quando tem a oportunidade?

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