Por Matheus Souza
Foi inaugurada nesta sexta-feira (13), no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), a exposição “Inclassificáveis”, que apresenta mais de 100 trabalhos de artistas nordestinos que estavam há décadas nos Estados Unidos. Este é o maior conjunto de obras já repatriado no país.
Contemplando 42 artistas, em sua maioria dos estados da Bahia, Ceará e Pernambuco, a mostra marca o início da apresentação pública do acervo Con/Vida, que possui mais de 660 obras repatriadas após décadas em Detroit, nos Estados Unidos. As pinturas e esculturas foram reunidas ao longo de mais de 30 anos pelas colecionadoras Bárbara Cervenka e Marion Jackson, que formalizaram a doação ao museu.
A exposição está organizada em três núcleos curatoriais: “Restituir Sentidos”, “Escolas Invisíveis” e “Cotidianos”. Unidos, esses eixos revelam diferentes trajetórias, linguagens e técnicas artísticas que dialogam diretamente com territórios da Bahia, como o Pelourinho e cidades do Recôncavo Baiano.

A mostra tem como objetivo questionar os processos de como a arte negra é classificada no mundo das artes. Os termos naif (associada à uma arte ingênua), popular e primitivo são rótulos comumente dados à essas peças, o que, segundo a diretora artística do museu e curadora da mostra, Jamile Coelho, reduz a complexidade estética, política e histórica da arte afro-brasileira.
“Se vamos questionar todo o modus operandi do racismo que se estrutura nas artes visuais e nos coloca nessas classificações, vamos chamar isso de inclassificáveis. Nós somos inclassificáveis, diversos”, explica.
A Exposição trabalha fortemente com a ideia de resgate e de memória, já que a maioria das obras retratam como eram realizados costumes e tradições de herança africana nas décadas de 1980 e 1990, como o carnaval de rua e festas de candomblé,, trazendo para a atual geração o espírito de uma época rica em história e cultura. Entre os artistas presentes estão nomes como Sol Bahia, José Adário, J. Cunha, Louco Filho e Babalu, cujas obras abordam paisagens e momentos marcados por memória, cotidiano e pertencimento.
“Nas narrativas iorubanas, existe a ideia de que começo, meio e fim se fundem. Os tempos se atravessam de alguma maneira: passado, presente e futuro. É como o tapete no início da exposição: nós somos os sonhos dos nossos ancestrais. A gente se realiza, de alguma maneira, no que eles inclusive pavimentaram para que caminhassemos”, conta Jamile.

Essa relação entre passado e presente se estende também para o momento político e social do país. Segundo Jil Soares, também curador da exposição, nesse sentido a mostra funciona como uma provocação aos estigmas, preconceitos e estereótipos atribuídos ao Nordeste, à Bahia e ao povo negro. As categorias que o sistema e suas instituições constroem e acabam por não dar conta de contemplar a proposta visual e a epistemologia apresentada pelos artistas da mostra.
“Construir algo desse porte é desafiador, mas também tem celebração. É a continuidade dos saberes presentes no que esses artistas fizeram e ainda fazem. São escolas de arte não oficiais, que deixaram como legado seus aprendizes”, conta.
A exposição se tornou possível graças à Lei de Incentivo Federal, do Ministério da Cultura, além do patrocínio de empresas privadas. Essa é a 8ª mostra do museu após sua reestruturação, realizada durante a pandemia de Covid-19, em 2020.
A exposição segue aberta para visitação até o dia 23 de março. A entrada é gratuita.


