Por Monique Rodrigues do Prado / Imagem: Geoff Caddick/AFP

O que começou pautado exclusivamente na violência policial, aos poucos foi abrindo outras discussões na dimensão estrutural da “civilização”, já que esse modelo de sociedade ocidental foi instituído a partir do olhar da branquitude. Assim, o escalonamento do movimento Black Lives Matter, hoje fixado na agenda global, tem feito como que os países necessariamente revisitem o seu passado incluindo os símbolos institucionais.

Durante os protestos Black Lives Matter o emblemático ato ocorrido na cidade de Bristol, na Inglaterra, com a derrubada da estátua do escravagista britânico Edward Colston por parte dos manifestantes tem aberto um campo de discussão institucional. Ironicamente, a remoção das estátuas começou no país que foi um dos grandes responsáveis pela escravidão ocidental.

No lugar, foi colocada a escultura da ativista negra Jen Reid que ficou erguida por apenas 24 horas e em seguida removida por ordem do prefeito, que argumentou que não havia autorização para que fosse instalada. A escultura foi feita pelo artista Miarc Quinn inspirada na ativista quando durante os protestos de 07 de junho de 2020, vestida de preto, manteve-se em pé e de punho cerrado em cima do concreto vazio.

Mesmo com a remoção da escultura pela prefeitura, a arte foi capaz de inflamar novamente as discussões acerca das questões raciais, reparação histórica e justiça social nos noticiários e questionar quem são as personalidades que o coletivo escolhe para serem honradas.

Vale dizer que no Brasil encontra-se em tramitação o Projeto de Lei nº 404 da deputada estadual Erica Malunguinho no âmbito da Administração Estadual direta e indireta. A proposta legislativa dispõe entre outras coisas que, àqueles que foram diretamente escravocratas ou defensores da ordem escravagista não sejam escolhidos como denominação de logradouros públicos, de prédios estaduais, rodovias estaduais, locais públicos estaduais, a edificação e instalação de bustos, estátuas e monumentos por qualquer dos Poderes no âmbito do Estado de São Paulo.

Além disso, o projeto propõe que sejam removidos os monumentos das vias públicas e armazenados em museus com as devidas informações referentes ao período escravagista, ou quando relacionados a denominação que os locais sofram renomeação.

Em síntese, a proposta tem como fundamento o apagamento histórico e a violência simbólica em contraposição a sub-representação de negros e a inflação de homenagens prestadas aos escravocratas e defensores do regime que perpetuaram a elaboração e difusão de teorias racistas. Enfatiza-se a profunda dissonância com o Estado Democrático de Direito, alavancando o combate institucional ao racismo, dado que não houve reparação histórica a população negra.

De todo modo é possível observar que por aqui a branquitude brasileira, especialmente os que ocupam as cadeiras institucionais, se recusa a jogar luz aos seus privilégios e muito menos participar publicamente de manifestações ou eventos que digam respeito à agenda antirracista. Por isso, é importante discutir a temática no âmbito do domínio público.

Ao olhar a escultura da Jen Reid me vem a memória a letra “Deus é uma mulher preta”, cantada na voz de Jéssica Gaspar que na letra denuncia os efeitos do racismo provocado, sobretudo, pelo Estado contra as vidas negras ao falar de necropolítica e genocídio. Entretanto, a música também fala de alma, saberes ancestrais, sonhos e reivindica esse lugar de humanidade aos povos da diáspora africana que o racismo tanto nos nega. Quando olhamos para Jen e apreendemos os simbolismos expressos em sua imagem, entendemos em que lugar nós queremos nos ver.