Jonas Pinheiro

Há exatamente dois anos a vereadora do PSOL Marielle Franco foi executada ao retornar de uma atividade com mulheres negras no Rio de Janeiro. 14 de março, dia de nascimento de Abdias do Nascimento e Carolina Maria de Jesus, era inimaginável para as populações negras que esta data hoje seria mais lembrada por uma tragédia que escancara o racismo denunciado toda vida por estas duas personalidades em suas obras. Como Carolina, Marielle era favelada, e ao adentrar na política institucional foi executada pela política genocida do Estado brasileiro, como denunciou Abdias em vida.

O assassinato de Marielle, para além de escancarar a face mais nefasta do racismo brasileiro, é o marco do declínio político de um país rumo ao total obscurantismo no qual vivemos hoje. Os movimentos negros ao longo da história propuseram projetos políticos para a nação e trabalharam arduamente para denunciar as opressões sofridas pelas pessoas negras no Brasil, um país que negava cinicamente a existência da racialização de seu povo. Em dado momento algumas destas pautas foram conquistadas, e o advento de um governo de esquerda criou expectativas em parcelas da população que de fato houvesse mudanças estruturais na sociedade brasileira. No entanto, apesar de conquistas nestes 14 anos de esquerda no executivo, como a aprovação das cotas raciais como lei federal, é neste mesmo período em que o número de assassinato de pessoas negras aumenta exponencialmente. Apesar disso, durante quase todo o governo do PT, negou-se que havera uma política de segurança pública em curso que vitimava quase que exclusivamente as populações negras brasileiras.

A morte de Marielle Franco, neste sentido, é simbólica por uma série de aspectos envolvidos. 2018, ano do assassinato, haveria eleição presidencial passado dois anos de um golpe político-jurídico-midiático sofrido pelo PT. A vereadora do PSOL era um nome promissor na política e estava sendo cogitada para ser candidata à vice-governadora do Rio de Janeiro. Em contrapartida, uma onda ultraconservadora tomava conta do país. Em seu discurso na Câmara de Vereadores no dia 08 de março, seis dias antes de ser morta, um homem na plateia a interrompe gritando “Viva Ustra” (vídeo abaixo a partir dos 7min), famoso torturador da Ditadura militar e um dos ídolos da família Bolsonaro, que hoje se sabe tem ligações estreitas com os assassinos de Marielle. Eram sinais de tudo que viria a acontecer no país. Os dias seguintes à morte de Marielle deixaram os movimentos sociais atônitos diante da brutalidade do ocorrido e da falta de respostas acerca dos mandantes e dos motivos.

Meses se passaram sem qualquer explicação das autoridades, apenas especulações e um “bate cabeça” entre as instituições envolvidas na investigação, com comprovadamente pessoas de dentro da polícia dificultando os trâmites. Aos poucos as ligações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro vieram à tona. Acostumado a estar no baixo clero da Câmara por 30 anos, agora presidente, Jair teve sua vida revirada e suas práticas corruptas expostas.

Em 2019 a Polícia Civil aponta Élcio Queiroz, Ronnie Lessa e Adriano da Nobrega como suspeitos de assassinar a vereadora e o motorista Anderson Gomes. Os dois primeiros foram presos, e o terceiro, Adriano, foi assassinado mês passado na Bahia, pela Polícia Militar. Todos os suspeitos são apontados como integrantes de uma milícia intitulada Escritório do Crime, e em algum nível apresentaram ligação com a família Bolsonaro, sendo Ronnie Lessa vizinho do presidente. Adriano Gomes, morto em um sítio de um  vereador do PSL (partido pelo qual Bolsonaro foi eleito) em Esplanada (BA), era investigado pela prática de rachadinhas (prática corrupta com os salários de assessores) no gabinete do hoje senador e filho do presidente Flávio Bolsonaro.

Élcio Queiroz, um dos suspeitos de assassinar Marielle, aparece em foto postada em suas redes sociais ao lado de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro é diretamente relacionado ao caso após matéria do Jornal Nacional em novembro de 2019 mostrar que no depoimento do porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, no qual mora Bolsonaro e Ronnie Lessa, apontar que o ex-policial militar Élcio Queiroz teria entrado no dia do assassinato de Marielle Franco por autorização de “Seu Jair”. Após a matéria e uma live de Bolsonaro (quase um atestado de culpa) o porteiro mudou a versão do depoimento. Descobriu-se que naquele dia Jair Bolsonaro, ainda deputado estaria em Brasília. Fato é que cada vez mais a relação do assassinato com a família que comanda hoje o país rumo ao neofascismo se mostra mais evidente. O “capanga” de Bolsonaro, travestido de ministro da Justiça, Sérgio Moro, passou a pedir mais uma vez a federalização do caso. A família de Marielle Franco é contra, pois acredita que pode prejudicar as investigações.

Junta-se a estes fatos a morte em circunstancias no mínimo estranhas de  Adriano da Nóbrega. A Revista Veja (numa capa de senso de ética duvidoso) chegou a publicar que as fotos do corpo apontam para execução. O advogado do ex-policial afirmou em entrevista que o que aconteceu em Esplanada, na Bahia, foi queima-de-arquivo. O que teria Adriano da Nóbrega a falar sobre a execução da vereadora? Por que Jair Bolsonaro demonstrou preocupação acerca da perícia dos celulares de Adriano?

Hoje completam-se dois anos do assassinato de Marielle Franco e o que temos são mais dúvidas do que respostas. Quem matou? Quem mandou matar? Por quê? A execução de uma mulher negra com uma promissora carreira política é muito mais que uma morte física, é simbólica. É a morte da possibilidade de quebrar com o perfil conservador da sociedade brasileira, que tem majoritariamente na política homens brancos e ricos. Como bem disse Vilma Reis, militante negra e pré-candidata a prefeitura de Salvador, sabia-se que a potencia de Marielle a faria ser presidente. Em 14 de março morreu muito mais que o corpo de uma mulher negra, foi a morte da possibilidade de um país melhor e que olhe mais para as suas e os seus e não para uns poucos privilegiados (e milicianos).Marielle e sua luta, no entanto, faz emergir “sementes”, e seu legado está hoje na mão de tantas outras mulheres negras que, como disse a vereadora em seu ultimo pronunciamento, não serão interrompidas.