(…) Minha fé é negra,

e minha alma enegrece a terra no ilá

que de minha boca escapa.

Sou uma árvore negra de raiz nodosa.

Sou um rio de profundidade limosa e calma. Sou a seta e seu alcance antes do grito.

E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade e o ferro das armas.

E ainda luto em horas de sol obtuso

nas encruzilhadas. (Poema de Livia Natália)

 

Por Dai Costa*

 

O Brasil retira as cortinas do seu racismo. O Brasil materializa todo seu ódio, sua insatisfação pelo pequeno avanço dos nossos passos, aqueles que vêem de muito longe. O Brasil usou as urnas para retirar de vez o mito de que o racismo por aqui é velado. O racismo não é velado no Brasil, ele esta presente em nossos índices de empregabilidade, de acesso ao poder, na hierarquia das posições de destaque, lá esta o nosso racismo no palco. Nada é velado.

O racismo caminha lado a lado conosco, todos os dias. No casamento mais letal do racismo e do machismo, nós mulheres negras estamos nos números das diversas mortes, físicas, simbólicas, psicológicas.

Desde o resultado das eleições 2018 que tento escrever, expurgar, gritar, compartilhar tamanha tristeza, dor e revolta. E só aumenta. Por um momento senti a paralisia das emoções diante de tanta negligência do Estado diante de nossas vidas.

Saudando a energia de Matamba e invocando a força das águas de Ndandalunda, é preciso renovar nossas águas de esperança, nosso sentimento de solidariedade e nossa força ancestral. Quero poder pensar como estamos nos fortalecendo para fazermos os enfrentamentos necessários em cada pedaço de chão que pisamos nesse país, tenho feito um deslocamento nesses últimos dias e quero poder pensar nas novas metodologias que nascem das vivencias das negras jovens, quero poder pensar nas novas ferramentas tecnológicas utilizadas para construir política, quero poder refletir a nossa entrada nas universidades brasileiras, nossa contribuição para ciência e produção do conhecimento, os impactos da nossa presença nos espaços brancocêntricos, os desafios da rasura de nossa produção de saberes nesses espaços, quero enquanto negra jovem refletir a existência da nossa geração e os desafios colocados para nós nessa estrada, em meio a essa encruzilhada do pensar político as inquietações me visitam ao pensar estratégias de continuar caminhando.

Tenho refletido sobre o fortalecimento emancipatório de meninas negras, a força motriz que precisamos construir, fortalecendo cada vez mais as nossas múltiplas existências coletivas, vencer barreiras impostas pela organização racistas dessa sociedade, pensando estratégias de maior conhecimento sobre o movimento de mulheres negras e suas diversas formas de atuação.

As meninas negras traçam um caminho longo e árduo de conhecimento de si, sofrendo desde a infância diversos tipos inferiorizações, assédios, situações de subalternidades e mortes simbólicas. Nossa geração tem grandiosos desafios, fortalecendo diálogos possíveis entre gerações para o fortalecimento de suas trajetórias enquanto negras jovens vivas, mostrando para as meninas desde muito cedo que elas não precisam se adequar a padrões beleza eurocêntrico e que sim elas pode ser quem elas quiserem, sendo felizes com seus corpos e suas escolhas.

Caminhamos. Continuaremos caminhando. Não temos respostas, formulas prontas ou uma verdade única. Temos muitas verdades, compreendendo cada territorialidade, caminhos, corte no corpo, subjetividade, formas de combate, percepção de vida que constituem diversas realidades existentes no nosso movimento. Construções diárias, constantes e pulsantes. Estamos em movimento. Continuaremos em movimento. Carregamos nos ombros as almas de quem não está mais com a gente e seguimos em movimento. Choramos as dores das nossas perdas diárias e seguimos em movimento. Nosso movimento é irreversível, ele ganha cada vez mais força quando entendemos que nosso maior inimigo é o racismo. Não vamos parar de produzir, não vamos deixar de amar, exercer o afeto como prática diária, divergir entre nós, tirar casca de nossas feridas, recuar, avançar ou repensar nossas ações. Estamos em movimento.

Continuaremos em movimento.

Invoquemos a força das mulheres búfalos, a sabedoria das yalodês, o feitiço das mulheres da lama sagrada e o poder de cura das águas salgadas para que possamos atravessar o deserto de nossas dores, das nossas alegrias, dos nossos erros e acertos. Invoquemos nossas ancestrais, façamos do nosso silencio um feitiço potente e estratégico.

Com folhas sagrada, espadas erguidas. Estamos em movimento. Continuaremos em movimento. Não vamos sucumbir.

* Dai Costa é mãe de Maria, Makota de Nkissi, feminista negra, produtora cultural e professora da ONG Bahia Street, graduanda em Pedagogia pela UNEB, articuladora política na Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF BA), integrante do grupo de pesquisa CANDACES UNEB e pesquisadora do NuCus na linha de Lesbianidades, Interseccionalidades e Feminismos (UFBA).

 

Foto de Destaque: Maria Eduarda Costa e Kailana Ada Costa por Juh Almeida