A filantropia no Brasil é majoritariamente branca, sudestina e vinculada a interesses empresariais

Na segunda matéria da série “Filantropia no Brasil, e o que nós, povo negro, temos com isso!?”, entenda quem são as elites que doam dentro e fora do país e quais seus interesses

Por Andressa Franco

Os maiores filantropos do mundo hoje são homens, brancos e estadunidenses. Como o investidor bilionário Warren Buffett, que já doou cerca de US$ 46 bilhões: a maior parte para a fundação do ex-diretor executivo da Microsoft e sua esposa, Bill e Melinda French Gates. A fundação é a maior organização filantrópica do mundo. Também se destacam nomes como George Soros, criador da rede internacional de filantropia Open Society Foundations e Michael Bloomberg, fundador da Bloomberg Philanthropies.

A lista continua com nomes como o cofundador do Meta, Mark Zuckerberg; o fundador da Amazon, Jeff Bezos; e o CEO da Tesla, Elon Musk. No entanto, uma pesquisa da Forbes mostra que os membros da lista Forbes 400 de 2023 doaram juntos cerca de US$ 250 bilhões para a caridade, o que, segundo os cálculos da organização, representa menos de 6% de seu patrimônio líquido combinado.

Imagem: Reprodução Forbes
Imagem: Reprodução Forbes

A primeira matéria da série sobre filantropia no Brasil, mostrou como ela é culturalmente muito mais consolidada em outros territórios, como o estadunidense, devido ao acúmulo de riquezas altamente desigual em relação aos países do sul global. 

Mas a antropóloga inglesa Jessica Sklair, que pesquisa filantropia e investimento social privado na elite brasileira, observa que historicamente ao redor do mundo uma característica se repete: quem tem menos dinheiro doa mais. Pelo menos proporcionalmente à sua riqueza. “Quando falamos da filantropia institucionalizada, falamos dos grandes institutos e fundações, uma prática da elite. Isso não significa que estão dando uma porcentagem grande do seu dinheiro, mas a quantidade é maior.”

Quem são as elites que doam?

O imaginário social de grandes filantropos nos conduz para homens, brancos, da terceira idade e localizados no norte-global, não por acaso. Mas quem de fato são as elites que doam, suas motivações e interesses? Essas motivações se encontram em algum momento com as agendas das organizações da sociedade civil (OSCs), movimentos sociais e ativistas, especialmente do sul global? E no Brasil, as agendas de coletivos negros, mulheres negras, localizados na Amazônia e no Nordeste do país conseguem dialogar com os interesses dos filantropos e investidores sociais?

Jessica Sklair tenta responder essas e outras perguntas há quase 20 anos, quando começou a pesquisar o tema em solo brasileiro. “Se eles são realmente benevolentes é uma pergunta que não ajuda”, brinca. “O que é preciso perguntar é se a filantropia da elite está preocupada em reduzir a desigualdade ou a pobreza, que não é mais do que o resultado da desigualdade. Mas a filantropia que estão fazendo não visa transformações sérias na sociedade.”

Jessica Sklair, que pesquisa filantropia e ISP na elite brasileira – Imagem: Queen Mary University of London

Para a pesquisadora inglesa, os investidores sociais e famílias ricas reconhecem os problemas sociais enfrentados pelo país. Mas suas ações filantrópicas tentam reduzir a pobreza sem mexer nas questões estruturais que os mantém ricos, como raça e gênero.  Esse, opina Jessica, é mais um dos motivos que leva os filantropos e investidores a apenas executarem seus próprios programas, ao invés de apoiar organizações da ponta. 

“A emergência das ONGs no Brasil é um movimento em paralelo muito pouco ligado com o surgimento da filantropia. Acontece durante a ditadura, como um movimento politizado, em prol da democracia, que não tem os mesmos interesses da elite filantrópica.”

Até hoje, a maior parte dessa classe doadora no Brasil está vinculada principalmente a empresas. A maior representação de respondentes do Censo GIFE – principal pesquisa do investimento social privado no país – em números absolutos, por exemplo, são os empresariais (68 de 137). As fundações familiares ainda são a minoria.

A antropóloga destaca até mesmo argumentos que já foram utilizados para evitar o apoio a esses movimentos sociais. “Explicações como: movimentos negros ou de favelas, por exemplo, não saberem escrever projetos por serem politizados. Não dá pra aceitar esses argumentos, porque no fundo o problema é ideológico.”

Interesse da filantropia internacional não se sedimenta a longo prazo

Muitas iniciativas filantrópicas no Brasil, contam com recursos vindos de fora do país. Um mapeamento da Rede Comuá e da ponteAponte com 31 organizações independentes, mostra que 87% delas recebem apoio da filantropia internacional. 

Para entender o que coloca o Brasil no interesse da cooperação internacional no mundo hoje, podemos olhar para as agendas de atuação dessas organizações mapeadas: equidade racial, populações indígenas e tradicionais, meio ambiente, gênero, sexualidade, entre outras que dizem respeito a grupos historicamente vulnerabilizados.

“O Brasil tem números muito alarmantes de extrema pobreza, violência, voltou ao mapa da fome e é um dos países mais desiguais do mundo. Fora a questão da Amazônia e das mudanças climáticas”, explica Patrícia Kunrath, doutora em antropologia social e coordenadora de conhecimento no Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE).

Patrícia Kunrath, doutora em antropologia social e coordenadora de conhecimento no Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE) – Imagem: GIFE Reprodução

Você já deve ter ouvido falar de iniciativas como o Fundo Amazônia, por exemplo, que capta doações para investimentos no combate ao desmatamento da floresta. União Europeia, Alemanha e Dinamarca são seus principais doadores. 

Contudo, para Jessica, é preciso tomar cuidado antes de concluir que investimentos estrangeiros significam maior abertura desses filantropos para agendas mais políticas. “Certamente tem mais disponibilidade entre as fundações do exterior em apoiar essas pautas no Brasil, mas isso vai e vem. Tivemos um momento de retirada desse apoio no início dos anos 2000, o que foi importante para o desenvolvimento do terceiro setor no país. Mas elas começaram a voltar durante o governo Bolsonaro.”

Ainda assim, a antropóloga acredita que esse apoio não necessariamente reflete uma elite estrangeira mais aberta à “decolonização”. Ela alerta que, em alguns casos, esse apoio também pode ser visto como uma maneira de controle. “Te apoiamos, mas você não pode ficar muito radical, ou realmente mudar nada estrutural, senão retiramos o apoio.”

Tássia Mendonça é gestora de portfólio de equidade racial no Instituto Ibirapitanga e também acredita que o interesse da filantropia internacional na região não se sedimenta a longo prazo. Principalmente a partir da sua experiência de 10 anos na sociedade civil, no Instituto Omolará, organização de mulheres negras do Rio de Janeiro. Tássia observa que organizações que não atuavam no Brasil nos últimos anos têm se aproximado principalmente para atuar em pautas ambientais e de combate ao racismo. 

“Essas grandes filantropias frequentemente mudam as estratégias e não necessariamente levam em conta contextos regionais, o que coloca as organizações que dependem desse recurso em vulnerabilidade financeira e institucional.”

Tássia Mendonça é gestora de portfólio de equidade racial no Instituto Ibirapitanga – Imagem: Instituto Ibirapitanga Reprodução

Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra, a filantropia internacional é muito segmentada. “É preciso girar esforços para pensar que numa realidade como a do Brasil, é preciso pensar de forma interseccional. É preciso pensar a agenda de gênero, por exemplo, interseccionada com a racial, com a realidade das mulheres indígenas, LBTs, etc.”

Investidores sociais privados tendem a seguir dois caminhos: executar projetos próprios, ou repassar recursos para OSCs, movimentos sociais e ativistas. Dados do último Censo GIFE indicam que 55% dos Institutos, Fundações e Empresas associados conservam um perfil de atuação mais executor, enquanto 43% ainda são mais financiadoras.

Em termos práticos, executar um projeto próprio é quando, por exemplo, uma empresa tem um programa em determinada área de atuação, que normalmente se relaciona com o impacto gerado por aquela instituição. Como um programa de reflorestamento da Amazônia e da Mata Atlântica pelo Fundo Vale – fundo vinculado à empresa responsável pelas grandes tragédias socioambientais do Brasil.

Já o repasse de recursos, o chamado grantmaking, envolve uma relação de confiança com a organização apoiada. O que o Ibirapitanga faz, por exemplo. O Instituto é uma fundação familiar, criada em 2017 a partir da doação de parte da fortuna do cineasta Walter Salles.

“Isso se dá através de dois programas. Um é o de sistemas alimentares, o outro é o de equidade racial, que atua na ampliação da representatividade simbólica e política da população negra. Fazemos doações de caráter flexível tanto no monitoramento quanto na prestação de contas”, explica Tássia.

“É cômodo investir no eixo Rio-São Paulo”

Mesmo em fundações que prezam pela relevância da flexibilidade, de um investimento a longo prazo e de atuar na pauta racial, como o Ibirapitanga, 50% das doações do Instituto ainda estão concentradas em São Paulo, e entre 20% e 30% no Rio de Janeiro.

“Há uma tendência de concentração regional”, constata Tássia. O Sudeste é a região onde se concentra a maior atuação dos respondentes do Censo GIFE (72%), enquanto na região Norte atuam apenas 36%, e na Nordeste 39%. Um dos motivos identificados por Tássia para isso é a própria presença das filantropias no Sudeste.  “A filantropia é uma área que resulta do acúmulo de dinheiro. Logo, estão presentes no Rio e São Paulo devido à concentração de recursos econômicos do capital nessas regiões.”

Além disso, a ativista também observa que na distribuição de OSCs no Brasil há também uma prevalência delas no eixo RJ-SP. Diante desse quadro, Tássia acredita que existem poucas estratégias elaboradas para desfazê-lo. “Há pouca intencionalidade no campo filantrópico para desconcentrar o investimento no eixo RJ-SP. A própria linguagem filantrópica nem sempre dialoga com a da sociedade civil e menos ainda com a dos movimentos sociais.”

Para Tássia, é preciso conhecer para apoiar, o que demanda investimento, tempo e intencionalidade, o que, para ela, tem pouco hoje na filantropia. “É cômodo investir no eixo RJ-SP.”

Naiara chama atenção para as dimensões continentais que o Brasil possui, e enfatiza que a forma como o racismo patriarcal opera é diferente em cada território. “Tem uma hegemonia posta em relação ao lugar de olhar e pensar as mulheres negras a partir da realidade do Sudeste. A filantropia brasileira precisa conhecer as realidades dos territórios Norte e Nordeste e as experiências da sociedade civil organizada nestas regiões.”

Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra – Imagem: Reprodução Odara
Hackear a filantropia 

Para Jessica Sklair, a desconexão das elites financiadoras com as agendas dos movimentos sociais é um dos cernes que levam ao pouco repasse direto de recursos. Além disso, a antropóloga lembra que, o fato da filantropia institucionalizada no Brasil ser conduzida pelas elites. “As pessoas que estão fazendo filantropia desse tipo são brancas. É uma prática muito racializada”, observa. 

A impressão está em consenso com os números. Visto que pessoas negras são minoria nos conselhos deliberativos do setor, conforme também aponta o Censo GIFE. No ano de 2020, 33 organizações tinham pessoas negras em seus conselhos, em 2022, esse número caiu para 27. O percentual de pessoas brancas nos conselhos hoje é de 92%, 7% negros, 1% amarelos/orientais e apenas 1 pessoa indígena.

Tássia, por exemplo, afirma que as pessoas negras que têm chegado no campo nos últimos anos têm feito um processo de hackeamento. “Não era comum há cinco anos ver pessoas negras ocupando funções de oficiais de programas ou gestores de portfólio.”

Ao olhar para sua experiência de 10 anos na sociedade civil, justamente na captação de recursos, a gestora lembra da necessidade de se adequar no momento de escrever projetos e buscar recursos. Precisando se adaptar não apenas à linguagem, mas também aos objetivos do financiador. “É preciso ter muito cuidado para que não haja cooptação da sociedade civil para os interesses da filantropia.”

Para Tássia, é difícil a filantropia se colocar num lugar de aprendizagem. Ainda assim, defende que a melhor estratégia para quem financia deve ser investir na escuta ativa de lideranças, organizações e intelectuais do movimento negro. “Quando se tem, na raiz do programa, uma definição que parte do próprio campo, afastá-la dos interesses do campo é muito mais difícil. É menos sobre pautar agendas, e mais sobre ser pautado.”

Mas, o fato da filantropia decolonial, por exemplo, estar sendo debatida nos espaços de discussão do setor, já é considerado um avanço por Jessica Sklair. 

“Quando comecei a pesquisar filantropia, em 2005, nenhum lugar do mundo falava de decolonização. Colocar isso na pauta é positivo. A barreira agora é a elite olhar para essas questões estruturais e admitir que faz parte do problema. E para criar mudança, precisa mexer na sua própria condição. Não sei se a elite brasileira está aberta a isso”, completa.

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