O podcast que conta a história de Margarida Bonetti ganhou repercussão nas redes sociais, mas a curiosidade pelo estilo de vida da moradora tem recebido mais atenção do que a própria denúncia

Da Redação

Imagem: Instagram/@amulherdacasaabandonada

O podcast “A Mulher da Casa Abandonada”, da Folha de S. Paulo foi lançado no dia 8 de junho, mas foi nessa semana que ganhou as redes sociais e se tornou o assunto do momento. A casa abandonada, em contraste com os imóveis de luxo em Higienópolis, um dos bairros mais ricos de São Paulo, se tornou atração turística. No último domingo (3), integrantes do Instituto Luisa Mell chegaram a entrar na casa para resgatar dois cães mantidos pela moradora, acompanhados do deputado estadual Bruno Lima (PP).

“A Mulher da Casa Abandonada” é uma série criada e apresentada pelo jornalista Chico Felitti, e conta a história da moradora do imóvel: Margarida Bonetti. Conhecida no bairro, a mulher, que se esconde há anos na casa, escapou da lista de procurados do FBI por ter mantido uma mulher em condições análogas à escravidão nos Estados Unidos entre a década de 1970 e a virada dos anos 2000. O programa está na lista dos mais ouvidos e compartilhados do Spotify e tem levado as pessoas a percorrer as imediações do bairro em busca da casa abandonada.

Em entrevista à própria Folha, Felitti disse que o podcast teve o cuidado de não divulgar o endereço e imagens da casa e de Margarida. No entanto, muitas pessoas têm postado fotos em frente ao imóvel nas redes sociais. “Eu pediria para as pessoas terem cautela para que um crime não resulte em outros crimes. Vejo com receio a possibilidade de atitudes violentas contra a mulher. Há relatos de pessoas que passam xingando, gritando para ela. Não podemos responder à violência com violência”, declarou.

O podcast ganhou popularidade, o que rendeu uma onda de turismo em volta da mansão, e até mesmo páginas criadas por fãs nas redes sociais, que tentam descobrir mais informações sobre a criminosa. Um perfil com mais de 120 mil seguidores, por exemplo, se descreve como “criado por fofoqueiros obcecados em pesquisar tudo.”

Mestranda em Literatura e ativista do Movimento Negro Unificado, a criadora de conteúdo digital Samira Soares opinou sobre a forma como o caso tem repercutido. “O que mais me choca é ver como nas redes sociais, um podcast muito bem construído com a intenção de denúncia é desviado por uma espetacularização do público enquanto esta criminosa vivia livremente dialogando inclusive com policiais”, escreveu para seus mais de 12 mil seguidores.

Para Samira, a mansão como ponto turístico teve mais atenção do que o crime cometido pelo casal. “Como esta mulher branca circula tranquilamente num bairro onde todos os vizinhos sabem do seu crime?! A resposta? Racismo! Para o nosso país que vive em Neurose cultural, apontado por Lélia Gonzalez, explorar mulheres negras trabalhadoras domésticas ainda é permitido. Afinal, não são poucos os casos expostos que a elite branca colonialista faz vista grossa e continua explorando”.

Quem é a mulher da casa abandonada?

No primeiro episódio, o podcast aborda o estilo de vida incomum de Margarida, e sua obsessão por salvar as árvores do bairro de podas e derrubadas da prefeitura. A mulher chega a jogar baldes e sacolas plásticas com excrementos pela janela, trazendo riscos sanitários para a vizinhança.

Mas nos episódios seguintes, é revelado há mais de 20 anos Margarida Bonetti e seu então marido, Renê Bonetti, foram indiciados por manterem uma mulher trabalhando na residência do casal em condições análogas à escravidão, nos EUA. Procurada pelo FBI, ela fugiu para o Brasil e se mantém escondida no país desde então.

No programa, Felliti explica que o Brasil não expatria seus cidadãos nacionais para serem julgados em outros países. Ou seja, mesmo sabendo onde Margarida vive, a mulher não poderia ser presa e levada aos EUA para cumprir pena. Já o seu marido, já estava naturalizado como cidadão americano quando o caso foi deflagrado.

Casados no Brasil, Margarida e Renê decidiram se mudar para os EUA, e levaram com eles a trabalhadora doméstica, uma mulher brasileira e analfabeta, que antes trabalhava na casa dos pais da mulher e “foi dada como presente” ao casal no final da década de 1970.

Desde então, a vítima foi mantida pelo casal sem receber salário, sem direito a folgas e férias e sendo sofrendo com agressões e humilhações. Nas ocasiões em que foi lesionada, teve atendimento médico negado apesar de fraturas e ossos quebrados.

A situação só chegou ao fim quando a vítima conseguiu fugir durante uma viagem de férias do casal no início dos anos 2000. Ela recebeu ajuda de uma vizinha, que deu abrigo e denunciou o caso à polícia. A partir disso, o FBI começou a investigar o caso. Enquanto Renê foi indiciado pelos crimes e condenado a seis anos de prisão, Margarida fugiu para o Brasil ainda durante as investigações. Assim, ela nunca respondeu à Justiça, e passou a viver na casa que era de seus pais em Higienópolis.