A região tem sido assunto na internet desde o resultado do pleito que deu a vitória para Lula, tanto como alvo de ofensas, como de agradecimentos

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução

O Nordeste foi a única região em que o ex-presidente e candidato Lula (PT) obteve mais votos que o atual presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais do último domingo (30), com participação decisiva no pleito. O petista foi eleito com 50,20% dos votos válidos de todo o Brasil, no Nordeste, recebeu os votos de 69,34% da população. Só na Bahia, foram mais de 6 milhões de votos.

Em resposta, a região voltou a ser alvo de ataques xenofóbicos nas redes sociais, inclusive por apoiadores do candidato derrotado na própria região.

“Tomara que morram de fome”

Em Porto Alegre (RS), na região Sul, onde Bolsonaro teve a maior vantagem com 61,84% dos votos válidos, uma apoiadora identificada como Yasmin Senna realizou uma transmissão ao vivo atacando nordestinos.

“O povo é ingrato. Se eu fosse o Bolsonaro, eu ia lá no Nordeste e buscava a água inteira. Deixava eles sem água. Tomara que eles morram de fome. Gente, o que o Lula fez para o Nordeste que o Nordeste é tão cego?”, ataca. Após ser alertada por uma pessoa que não aparece na live de que poderia ser presa, ela completa: “Alexandre de Moraes, vem aqui me buscar, que eu estou doida pra enfiar a faca em você e rodar.”

Na segunda-feira (31), ela voltou às redes sociais para negar que suas falas foram xenofóbicas. “Em momento nenhum eu fui xenofóbica. Eu não falei em momento nenhum ‘morram de fome vocês do Nordeste’, eu quis dizer que no comunismo todos vamos ficar miseráveis”, disse.

Na manhã desta terça-feira (1), a loja onde a bolsonarista trabalha, a LORE, se pronunciou em repúdio “a qualquer tipo de fala antidemocrática, discriminatória e xenofóbica”. A loja classificou as declarações de Yasminn como “repugnáveis” e informou que a mesma não faz mais parte do corpo de funcionários da empresa.

Em Cariacica (ES), região Sudeste, na qual Minas Gerais foi o único estado a dar a maioria de votos ao candidato do PT, uma apoiadora de Bolsonaro viralizou com um vídeo em que aparece vestida de verde e amarelo à beira da piscina de uma residência onde dispara: “Parabéns bando de passa fomes do Nordeste. Agora não vem para o Sudeste vender sua rede não. Continua na cidade de vocês, não vem para cá não, bando de miséria, pobres, fodidos da casa do caralho, continuem no Nordeste de vocês, bando de cabeça-chata, continua aí onde vocês tão! Bando de passa-fome.”

Depois de anunciar que Lula havia sido eleito, os comentários do post da Gazeta Digital também acumularam falas xenofóbicas. Um dos internautas escreveu: “O tal do Nordestino vem para Mato Grosso para pedir emprego (risos) não merecem nem a água que chegaram até eles”. Outra pessoa comentou que os nordestinos “não cansam de fazer merda, não aprenderam nada com a Dilma, tudo isso por um pedaço de carne que não faz a diferença”. Outro declarou: “povo nordestino mais uma vez mostrando sua asneira”.

O artigo 20 da Lei nº 7.716/1989 prevê punição para a prática de descriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Ataques na própria região Nordeste

Uma eleitora de Bolsonaro, moradora de Tanquinho (BA) fez uma série de publicações em sua conta no Instagram, com cunho xenofóbico e de discriminação social. Alice Soares foi identificada como filha da ex-secretária de assistência social da cidade, e, além de chamar os nordestinos de burros e pobres, escreveu: “Não quero ninguém na minha porta pedindo cesta básica, muito menos contato pra fila da regulação”. Ela também se referiu ao Nordeste como “o câncer do Brasil”, e continua: “Plantem grama porque a seca tá chegando! Nordestino é e sempre foi burro! Parabéns aos analfabetos que acham que vão comer picanha.”

Um farmacêutico funcionário da farmácia do Caroá, em Feira de Santana (BA), também em suas redes sociais, disparou várias ofensas à região. “Nordeste continuará sendo a região mais pobre, pois sempre irá se contentar com pouco, (migalhas)”. Em outro post, se refere à população nordestina como “povinho de merda”.

A rede de farmácias do Caroá, se posicionou na manhã desta terça-feira (1), afirmando serem uma empresa “genuinamente nordestina” e repudiar qualquer manifestação xenofóbica. Acrescenta ainda que serão tomadas as medidas que julgarem cabíveis em relação ao funcionário.

“Nordeste salvou o Brasil”

Se de um lado destilam ódio aos nove estados que compõe o Nordeste, de outro, grande parcela da população foi às redes sociais para agradecer aos nordestinos pelo papel definitivo na retirada de Bolsonaro do poder, primeiro presidente a não se reeleger no Brasil desde a redemocratização.

Em uma série de posts, o perfil da Mídia Ninja, publicou um card de agradecimento para cada estado da região. Os comentários foram lotados por agradecimentos dos internautas direcionados ao povo nordestino: “Eeeeh Bahea, perfeita! Devemos mais essa ao Nordeste!”, escreveu um. “Obrigada nordeste, somos eternamente gratos”, “Nordeste nos salvando. Sou paulista com coração nordestino”, “Hoje eu queria ser baiana. Ainda vou me mudar para o Nordeste e ser mais feliz” são apenas alguns dos comentários.

Em resposta à onda de reconhecimento pelo papel exercido nas eleições, a cineasta pernambucana e coordenadora da Rede Tumulto, Yane Mendes, publicou um vídeo em sua conta no Instagram nesta segunda-feira (31), onde pede para que essa gratidão seja retribuída.

“Se lembrem então da nossa intelectualidade, de todo o trabalho político que a gente faz independente de eleição.”, ressalta. “Pra que a gente possa cobrar orçamento justo, pra que a gente não seja minoria nos espaços nacionais, pra que você solte essa pressão nos espaços que você constrói, pra que nas conferências internacionais a gente também tenha representação. A gente sabe o nosso potencial fazia tempo, mas se vocês só acordaram agora, dá valor e usa isso pra alguma coisa”.

Na legenda, Yane continua o desabafo. “É muito ruim explicar o nosso não acesso aos editais de cultura e todas as dificuldades que temos para tornar nossas grandes ideias em um monte de palavra difícil exigida por quase todos editais nacionais. É muito difícil ser chamada para várias coisas só em troca de visibilidade como se só fosse bom para gente”. A cineasta finaliza chamando atenção para o reconhecimento do Nordeste como um povo necessário nas discussões do país, seja ela qual for.