Por Michel Ferreira* / Imagem: Reprodução

Começamos este ensaio partindo de um fragmento de uma fala, proferida pelo ministro da economia do atual governo brasileiro, na reunião interministerial de 22 de abril de 2020. Reunião esta convocada para, inicialmente, apresentar um programa de governo chamado Pró-Brasil[1], com ações do Estado em diversas áreas.

Mas que, no decorrer da mesma, revelou nos discursos dos ministros e do próprio Presidente da República um festival de xingamentos, ameaças a outros poderes da República e até mesmo resolver os problemas do país na base da violência. Discutiu-se tudo e não discutiu-se nada ao mesmo tempo, uma vez que todos falavam, ninguém se escutava atentamente. Soma-se a isso uma crise pandêmica do Covid-19 que arrasta mais de 24 mil mortos até o momento e coloca o Brasil em uma das tristes posições de liderança de casos no mundo.

Para além desta tragédia sanitária, que revelou a perversidade de um sistema que globaliza o colonialismo, o racismo/xenofobia e o patriarcalismo em favor de uma manutenção de desigualdades que concentra riqueza em poucos centros do mundo e deixa a maior parte deste à sua própria sorte, nos chama bastante à atenção de como o turismo é pensado à partir de uma lógica pautada pela exploração dos destinos turísticos a partir do falseamento das experiências entre o turista, o lugar visitado e a comunidade.

A frase proferida na reunião do dia 22 de abril pelo Ministro da Economia fazia coro a exposição, nesta mesma reunião, do Ministro do Turismo sobre os desafios para o seu ministério. Nela este último defendeu a legalização de jogos em hotéis/resorts, em nome de pessoas bilionárias que deixam seu dinheiro nestas empresas e “movimenta” a economia. Neste sentido perguntamos: movimenta para quem? Quem é que realmente ganha com o fomento deste tipo de turismo nocivo e exploratório que nega a poesia, a prosa e a interação, elementos fundamentais para se entender um turismo como um fenômeno sociocultural e não como apenas um fruto do sistema capitalista e da modernidade?

O que dizer, por exemplo, de mulheres que têm medo de viajar sozinhas em razão de simplesmente serem mulheres, correndo o risco de serem violentadas e ainda passar por todo o constrangimento e dor de seus relatos serem deslegitimados por órgãos que tem o dever de defendê-las? E o que falar de pessoas negras, e especialmente mulheres negras, que possuem condições de viajar, mas que podem passar por situações constrangedoras de não serem consideradas turistas em razão da sua cor de pele, vestuário, cabelo, dentre outras características[2]?  Ou ainda de moradores/as de algumas regiões da cidade do Rio de Janeiro (apenas para citar o exemplo do destino turístico mais visitado do Brasil), que não podem desfrutar da infraestrutura turística em nome da imagem que a “indústria”[3] do turismo quer passar para o estrangeiro, que visita a cidade maravilhosa mas que segrega e restringe o acesso destas pessoas em certas praias, museus, parques e demais espaços, partindo de uma polícia repressiva[4]? Polícia essa inclusive composta de inúmeras pessoas negras e desumanizadas pelo Estado em todo o seu processo formativo.

Pensamos que o turismo é reflexo de uma sociedade e em um país como o nosso é fundamental entender, por exemplo, que há toda uma carga cultural na dinâmica de trabalho de mulheres vendedoras de comida de rua em Salvador, outro dos destinos mais visitados do Brasil. Embora façam a alegria de quem prova de um acarajé delicioso, há toda uma realidade que nega a grande parte destas mulheres de conhecer/experienciar outros destinos turísticos do seu próprio país sem serem maltratadas porque são simplesmente mulheres, pobres e negras.

Ou ainda quando se realiza uma festa de aniversário de 50 anos de uma socialite então diretora de uma revista influente de moda[5], em que maior parte dos/as convidados/as desconhecem todos os códigos das ancestralidades afro. O resultado? Uma festa grotesca, brega, saudosista da escravização oficial ao vilipendiar a simbologia de uma cadeira sagrada para as autoridades máximas do Candomblé em uma única foto (com a aniversariante sentada na cadeira e, em pé, duas mulheres negras vestidas a partir da ancestralidade afro). Que imagem esta festa perpassa para a sociedade, para a cidade de Salvador e seu povo, para os turistas que ouvem falar da cidade em campanhas publicitárias de turismo (algumas oficiais inclusive) quando desejam conhecê-la e que estigmas imputam às mulheres negras trabalhadoras que estavam nesta festa?

Donata Meirelles, a época diretora da revista “Vogue”, em suas festa de aniversário de 50 anos / Imagem: Reprodução

Se realmente as pessoas presentes na famigerada e triste reunião ministerial quisessem que as pessoas pudessem viver como bem entendessem, estariam pensando em formas de ver as diferenças[6] e pluralidades do nosso país apenas como diferenças e não como formas de se criar mais estigmas a grupos sociais. Afinal, dignidade humana é isto e não dar de ombros e dizer simplesmente ‘e daí, quer que eu faça o que?’ como respondeu o presidente após ser perguntado sobre as mortes em decorrência do Covid-19. Não nos enganemos: este governo representa interesses de grupos de poder no Brasil que determinam por muito tempo a morte social/física de negras e negros, populações indígenas, LGBTI+, idosas e idosos, pessoas pobres e tantos outros… a partir de uma narrativa falsamente construída pela moral e religiosidade cristã. Narrativa esta distorcida inclusive atualmente por grupos neoconservadores.

Se realmente os sujeitos desta reunião pensassem o turismo enquanto um fenômeno carregado de poesia e prosa, buscariam formas de democratizá-lo, parando de fomentar indiretamente dinheiro que podem ter elementos oriundos da exploração sexual, territorial, ambiental, de drogadição. É isto! A dúpé!

 

[1] Link da Folha de São Paulo, onde se pode ler a íntegra das falas transcritas desta reunião e a frase em específico que deu título ao texto, omitindo-se, evidentemente, o palavrão proferido: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/leia-a-integra-das-falas-de-bolsonaro-e-ministros-em-reuniao-ministerial-gravada.shtml>.

[2] Ver textos de Michel Alves Ferreira e Lindamir Salete Casagrande (2018; 2020), onde se discutem questões como racismo e sexismo vivenciados por pessoas negras nas suas vivências/experiências do fenômeno turístico, inclusive se valendo de tecnologias como forma de buscar interações mais democráticas e dignas.

[3] Colocamos indústria entre aspas porque não cremos que o turismo possa ser caracterizado desta forma, o que certamente há em correntes teóricas deste campo de estudo que assim o pensam.

[4] Como exemplo, reportagem do The New York Times e da Folha de São Paulo, onde evidenciam a licença para matar que a polícia desumanizada e repressiva carioca é formada: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/com-licenca-para-matar-ano-tem-recorde-de-mortes-pela-policia-do-rio.shtml>.

[5] Ver texto de Lilia Moritz Schwarcz publicado na Folha de São Paulo, falando sobre o assunto: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/06/racismo-no-brasil-nao-e-so-heranca-da-escravidao-diz-antropologa.shtml>. Da mesma forma, o livro “O que é Interseccionalidade?” de Carla Akotirene (2018) mostra muito bem como a interseccionalidade, como epistemologia em construção, é fundamental para desenvolver um olhar crítico sobre o racismo, o sexismo e o classismo, principalmente às mulheres negras brasileiras. Por fim, a segunda parte de uma trilogia escrita por Michel Alves Ferreira à Revista Senso, discutiu brevemente este caso a partir da ignorância enquanto uma ciência produzida, podendo ser acessado este texto específico no link <https://revistasenso.com.br/racismo/agnotologia-e-a-imposicao-do-silencio-as-ancestralidades-negras-parte-2/>.

[6] Entendemos diferenças a partir de Thiago Teixeira (2019), ao discutir uma ética que parta do reconhecimento da humanidade a partir das diferenças, como caminho de se pensar numa dignidade integral aos sujeitos, especialmente aos estigmatizados.

 

*É Doutorando em Tecnologia e Sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR/PPGTE). Entre outubro de 2018 a setembro de 2019 esteve realizando Estágio Sanduíche (Edital 47 / 2017 – Capes) na Universidad Nacional de Colombia – Sede Bogotá. Também é Mestre pelo mesmo programa (2017). É Especialista em Neuropsicologia e Educação pelo ITECNE (2012). Graduado em Turismo pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2006). Ministrou aulas em escolas técnico profissionalizantes de Curitiba durante nove anos. Participa do Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Relações de Gênero e Tecnologia – GETEC, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, desde março de 2015. Seus interesses de pesquisa são os estudos étnico raciais, estudos de gênero e diversidade, turismo e educação.

 

Para saber mais sobre o assunto (referências):

AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2018.

FERREIRA, Michel Alves; CASAGRANDE, Lindamir Salete. Movimentos, tecnologia e pessoas negras: é possível um outro turismo? Revista de Turismo Contemporâneo. Natal, v.8, n.1, p. 149-167, jan./jun. 2020.

FERREIRA, Michel Alves; CASAGRANDE, Lindamir Salete. E quem disse que não é seu ligar? Por um turismo democrático e inclusivo para negros e Negras. Revista Mundi Sociais e Humanidades. Curitiba, v. 3, n. 2, p. 1-21, jan./jun. 2018.

PISCITELLI, Adriana. “#queroviajarsozinhasemmedo”: novos registros das articulações entre gênero, sexualidade e violência no Brasil. Cadernos Pagu, Campinas, n. 50, 2017: e175008.

TEIXEIRA, Thiago. Inflexões Éticas. Belo Horizonte: Editora Senso, 2019.