Por Laila Oliveira*  / Imagem: Junião Ponte.org

O mundo tem vivenciado o terror de uma pandemia nunca vista antes. Milhares de mortes em diversas partes do planeta ocasionadas pelo surto da Covid-19, iniciado no final de 2019. A mídia hegemônica tem evidenciado estes impactos principalmente na Europa, enquanto prevalece um silêncio ensurdecedor em relação ao continente africano, que em março já tinha mais de 30 países atingidos pela pandemia.

Vamos ouvir de algumas pessoas ao longo desse tempo que o coronavírus pode fazer vítimas de forma indiscriminada, não importa a origem, a raça, o gênero, a classe…todos podem ser vítimas do vírus. Mas será que é assim mesmo? Vamos lá, consideremos o Brasil, país que desde o resultado da eleição presidencial de 2018, vive o desgoverno de Bolsonaro. A contar do dia que assumiu o presidente tem se empenhado em aprofundar as desigualdades sociais já existentes, além de anunciar abertamente fogo contra diversos segmentos sociais, população negra, mulheres, LGBTQI etc.

A necropolítica, conceito do intelectual africano Achille Mbembe, onde ressalta como a morte dos corpos negros faz parte de um sistema de manutenção dos poderes, pode ser vista no projeto político do governo Bolsonaro. Seu modus operandi corrobora para o extermínio dos nossos corpos, como o Pacote Anti-Crime, o financiamento das milícias, os retrocessos das poucas políticas públicas conquistadas, os discursos que criminalizam pessoas negras, enfim, toda uma estrutura que denuncia um pacto muito bem estabelecido, o pacto da branquitude, e uma democracia que não é para todos e todas.

Nesse cenário, em que diariamente a juventude negra é exterminada e que o racismo institucional (e indivídual) continua a fazer vítimas, como proteger os nossos irmãos e irmãs negras? Os nossos corpos continuam matáveis e sem direito a quarentena. O menino João Pedro estava em casa quando a polícia matou, ele só tinha 14 anos. Logo depois, João Vitor, de 18 anos, é assassinado enquanto distribuía cestas básicas na Cidade de Deus, ambos negros. Nós não temos direito de envelhecer, outro dia uma irmã angustiada falou “nós não temos nem o direito de morrer em paz!”, essa verdade me atravessou como uma navalha.

Não esqueceremos do senhor, Everaldo da Silva Fonseca, 62 anos, que acompanhava a esposa no tratamento de cirrose e foi acusado de roubar um celular dentro do hospital, sofreu agressões físicas e verbais e por fim, viu a esposa não aguentar tanta dor e humilhação e morrer ali mesmo de ataque cardíaco. Após a morte de sua esposa o celular foi encontrado em uma sala de reunião que ele não tinha acesso.

A culpabilização e o crime denunciam a cor. Uma passagem da obra A Democracia da Abolição, da ativista, filósofa e intelectual, Angela Davis enfatiza que “independente de quem cometeu ou não cometeu um crime, a punição, em síntese, pode ser vista mais como consequência da vigilância racial”. Essa atribuição do negro ao crime também é uma forma de controle social, de extermínio e de saída quando não se tem políticas garantidoras de condições de vida para as pessoas negras.

A negação de direitos essenciais para uma vida digna bem como a precarização dos serviços prestados pelo poder público, acentuou a vulnerabilidade da população negra e pobre do país. Com a pandemia o governo Bolsonaro ganhou uma aliada para o extermínio da população, sabemos que as comunidades negras, ribeirinhas, quilombolas, indígenas e periféricas não terão estrutura para manutenção do bem-estar de suas famílias, bem como para uma assistência de saúde de qualidade.

Os dados recentes, de uma pesquisa realizada em São Paulo, apontam que a mortalidade por coronavírus é maior entre a população negra, a diferença é 62% maior do que a população branca, tanto pela vulnerabilidade social e econômica, quanto pela maior predisposição a cormobidades como: diabetes, hipertensão e outros. Essa disparidade tanto dos contaminados, quanto dos óbitos disparados entre a população negra, sinaliza que os cuidados e o #fiqueemcasa não é comum a todos e todas, alguns corpos sempre serão sacrificados em detrimento de outros.

Os alarmantes dados dos óbitos e adoecimentos dos trabalhadores da saúde que ficam na ponta, como técnicas e técnicos de enfermagem, maqueiros, profissionais da limpeza e outros, mostram como a precarização e o desmonte da saúde pública afeta os dois lados da mesma moeda, somos nós que damos assistência, somos nós que somos assistidos.

Recentemente, os movimentos sociais e ativistas se empenharam em denunciar a proposta de usar conteinêres para a população carcerária contaminada com a Covid-19,  projeto apresentado pelo Ministério da Justiça e vetado pelo Conselho Nacional Criminal e Penintenciária. Sabemos das denúncias de abusos e torturas nessas estruturas carcerárias, e como o descaso e maus tratos poderiam se potencializar nessa ação de amontoar as pessoas em conteinêres.

Essa estrutura só poderá ser rompida com uma democracia da abolição, ou seja, uma democracia que rompa definitivamente com todas as condições e estruturas produzidas pela escravidão. A democracia da abolição, conforme propõe Du Bois, ressalta que só seremos livres de fato quando as instituições atuais forem abolidas, e novas instituições comprometidas com uma ordem social que de fato garanta a cidadania para a população negra surjam, sem os resquícios do racismo.

Nossos corpos não serão descartáveis! Acredito que apesar de toda a investida em nos derrubar, o nosso povo tem bagagem no que se refere a sobreviver e resistir com sabedoria, e é isso que tem nos enchido de esperança no amanhã. Continuaremos a nos aquilombar, como Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento nos legou, nossas hortas sendo nutridas nos quintais de casa, comunidades inteiras mobilizadas para distribuição alimentos, avós e tias costurando máscaras para distribuição nas comunidades, mulheres negras fazendo redes de cuidado e partilha de saberes ancestrais.

Estaremos nos fortalecendo, ocupando os espaços de poder como um levante, disputando a política e as narrativas, estaremos em TODOS OS LUGARES! Vocês podem até tentar nos derrubar, mas “ainda assim eu me levanto”[1].

 

[1]Título da poesia “Ainda assim eu me levanto” de Maya Angelou, poeta e militante negra estaduniense.

 

 

*Mulher negra em movimento na luta anti-racista, de enfrentamento as diversas formas de preconceito (Lgbtfobia, machismo, xenofobia e outras), filha do Ilé Asé Opo Osogunladê, mãe de Enzo e Bento, jornalista e mestre em Comunicação (UFS). Atualmente Gerente da Igualdade Racial da Prefeitura de Aracaju e integrante da Auto-organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria e do Movimento Negro Unificado(MNU/SE).