O 1º Prêmio de Jornalismo Afirmativa é uma iniciativa do Coletivo de Mídia Negra Afirmativa, que premiou produções jornalísticas de jovens profissionais e estudantes de comunicação, selecionadas entre os anos de 2016 e 2017, cujo tema foi  “A Juventude Negra Comunica o Direito à Vida”.

Atingidas e agredidas pelo sistema patriarcal que rege a sociedade por todos os lados, as mulheres negras buscam artifícios para conseguirem se manter sãs e vivas. Seja pela falta de atendimento adequado nas UPAS e hospitais públicos, seja na falta de oportunidade nos trabalhos e estudos. As violências que cercam as mulheres negras fazem com que elas (sobre)vivam diariamente. Vítimas de seus parceiros e de um estado que peca na falta de assistência, resta a elas buscarem uma na outra o suporte para seguir.

Segundo dados do Atlas da Violência 2018,  produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), e que analisa os dados da violência no Brasil entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios para cada 100 mil mulheres negras aumentou 15,4%, enquanto que entre as não negras houve queda de 8% no período. A disparidade com os números mostra que há algo de errado com a forma que o sistema vem sendo aplicado, uma vez que o perfil de mulheres que mais morrem no Brasil (a negra de baixa renda) não conta com o Estado e suas políticas como suporte. Além disso, aquelas que tentam denunciar uma agressão sofrida definem o acolhimento da Delegacia de Atendimento a Mulher – DEAM, como “constrangedor”.

Cristina Souza* tem 35 anos, duas filhas, negra, trabalha em casa fazendo Buffet. Quando morava no município de Vera Cruz, na Bahia, recebeu uma ligação de uma amiga, afirmando que seu marido estava em um bar com outra mulher. Decidiu ir até lá e constatou o que lhe foi dito. Ela e o então companheiro começaram a discutir quando Cristina caiu, vítima de um soco no rosto. “Ele montou em cima de mim e começou a me bater. Eu ainda consegui arranhar e morder, mas fiquei muito pior porque ele é infinitamente mais forte que eu. Fui parar no hospital e lá me disseram para vir a Salvador, na DEAM”, contou.

“No dia seguinte a agressão eu fui à DEAM e logo na recepção fui atendida por um homem que me encaminhou depois a uma mulher. Nesse momento o atendimento foi mais constrangedor. Tive que contar a história para umas três pessoas. Eu não falei com delegado, não consegui registrar a queixa, me falaram que não podiam fazer nada porque eu tinha que ir para a delegacia do município”, relatou Cristina que voltou para casa sem atendimento.

Não somente a agressão física vem machucando e matando as mulheres negras. O genocídio simbólico, ou seja, as violências mascaradas, normalizadas e tantas vezes ignoradas, também fazem parte do enfrentamento diário.

Reunião da Marcha de Mulheres Negras, no Festival Latinidades (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

DIREITO À EDUCAÇÃO PRA QUEM?

A população negra enfrenta desigualdades que afetam diretamente a capacidade de inserção na sociedade em diferentes áreas, batendo de frente com o conceito de país democrático com oportunidades para todos. A educação no Brasil é marcada pelo racismo e o processo de democracia educacional é novo, com baixo investimento e com a base política limitada. Somente a partir da Constituição de 88 que pudemos perceber avanços reais para a entrada de homens e mulheres negras nas universidades.

No entanto, permitir o acesso dessa população marginalizada as universidades não quer dizer que o ensino básico foi qualificado, a educação pública básica continua defasada e não prepara o jovem para disputar e alcançar o seu acesso às universidades. Dessa forma, houve o reconhecimento de que a população negra também tem direito a educação, mas na prática isso ocorre de forma limitada.

Para Taisa Ferreira, professora da rede municipal de ensino e mestra em educação, essa desigualdade social afeta principalmente às mulheres negras. “As mulheres negras são as mais afetadas pela desigualdade, ganham os menores salários, tem maiores  dificuldades para conseguir emprego, mesmo considerando ter uma formação e qualificação. Muitas têm dificuldade para manter-se no processo formal de educação no tempo correto e, muitas vezes, tem que abandonar para trabalhar e ajudar a garantir a sobrevivência da família”, relata.

Taísa Ferreira, professora e mestra em educação

As informações educacionais sobre a participação das mulheres negras não são suficientes para  revelar os diversos percursos realizados por elas, muitas vezes, marcados por interrupções, abandonos, obstáculos e a necessidade de criar caminhos alternativos para realizar o direito à educação. Às mulheres negras têm que lidar com o processo de enfrentamento à desigualdade consolidado em três grandes estruturas inseparáveis: relações de classe, de gênero e raciais.

As desigualdades enfrentadas pelas mulheres ainda são discrepantes em relação aos indicadores de acesso a educação, conforme dados do Informe Brasil – Gênero e Educação 2013, apresentado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). De acordo com o documento, as desigualdades de gênero na educação brasileira são caracterizadas por seis grandes desafios. Entre eles está o fato dos indicadores educacionais serem marcados por desigualdades entre mulheres de acordo com a: renda, raça, etnia e local de moradia (rural e urbano), causando prejuízo para mulheres negras, indígenas e do campo. Além disso, está também listada a manutenção de uma educação sexista, homofóbica/lesbofóbica/transfóbica, racista e discriminatória no cotidiano escolar, omissa as diversas formas de discriminação.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres negras (pretas e pardas) formam um contingente de mais de 53 milhões de mulheres dentre uma população residente estimada em 201,5 milhões de pessoas. Ainda que elas sejam quantitativamente maioria, às suas condições enquanto mulheres negras e pobres são justificativas reais, consolidadas historicamente, para o enfrentamento de discriminações e dificuldades de acesso a melhores oportunidades.

SAÚDE: O SISTEMA TAMBÉM MATA

Na saúde as mulheres negras não encontram acolhimento e bom atendimento, os profissionais da saúde tratam pessoas negras de forma diferenciada, negligente e discriminatória – algo que vai muito além do corporativismo. O racismo é tão notório, que já foi ponto crucial de campanha do Ministério da Saúde em 2014, chamada “SUS sem Racismo”. No entanto, o Conselho de Médicos repudiou a campanha, alegando que os médicos que atendem na rede pública de saúde – sistema que é em sua maioria utilizada pela população negra e pobre – de forma igualitária.

De acordo com Emanuelle Góes, doutora em saúde coletiva e autora da primeira pesquisa quantitativa sobre racismo e aborto no Brasil, “o que observamos é que a disparidade racial não tem diminuído tanto, a uma melhora para as mulheres negras, mas quando comparamos com as mulheres brancas, ainda apresenta diferenças em suas taxas. Por exemplo, a Taxa de Morte Materna que diminui para todas as mulheres nos últimos dez anos, mas a Taxa das Mulheres negras é de mais ou menos 62,8 por 100 mil nascidos vivos, e as mulheres brancas a taxa é de 35,6 para cada 100 mil nascidos vivos”, contou.

Emanuelle Góes, autora da primeira pesquisa quantitativa sobre racismo e aborto no Brasil

Ainda segundo Emanuelle Góes, afirmar em quais os serviços que as mulheres negras mais sofrem é uma tarefa complexa, devido às tantas áreas da saúde. “Eu particularmente sou do campo da saúde reprodutiva e acompanho as questões raciais nela, e tenho visto racismo institucional desde o planejamento reprodutivo (as mulheres negras tem menos acesso a métodos contraceptivos, e estão mais expostas à esterilização compulsória) no pré-natal (tem menos consultas)  no parto (recebe menos medicamento pra dor) puerpério (recebe menos orientações) e estão mais expostas ao aborto clandestino e inseguro” As mulheres negras seguem na luta cotidiana em busca apenas de um direito básico: viver.

*Nome fantasia para preservar a identidade da vítima

Wynne Santana de Carvalho, mulher, negra, nordestina, inquieta, jornalista, apaixonada pelas palavras e crente que podemos mudar o mundo usando-as.

MATÉRIAS DO PRÊMIO DE JORNALISMO AFIRMATIVA

Mídia, a sustentação do genocídio

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Meninas e jovens negras no alvo do genocídio*

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Minha palavra vale um tiro

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O que há por tras das grades

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É o poder

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Equipe Afirmativa

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