O aumento no valor da substância chegou a  380%  e dificultou o acesso dos homens trans, que podem sofrer com retrocessos nos processos da terapia hormonal

Por Patrícia Rosa

Imagem: Claudio Reyes/AFP via Getty Images 

No Brasil, medicamentos feitos à base de cipionato de testosterona tiveram um aumento exorbitante no preço nos últimos meses. A substância é utilizada por homens trans no processo de transição, e o aumento chegou em até 380%. O  acréscimo aconteceu após a  autorização por uma liminar do TRF1 -Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que  permitiu à farmacêutica brasileira EMS reajustar o valor da venda dos medicamentos a base de cipionato de testosterona.

De acordo com com a tabela de preços da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão responsável por determinar o preço dos medicamentos vendidos no Brasil, o  Deposteron, feito a base de cipionato de testosterona, em abril de 2022, custava na faixa de R$ 58,26, em  estados do nordeste como: Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Em agosto do ano passado o preço chegou a atingir  R$ 252,49 nos mesmos estados.

A farmacêutica EMS justificou ao site Yahoo Notícias, que o registro sanitário do cipionato de testosterona é de  1992 e por conta disso o Deposteron tinha o teto inicial de precificação defasado.

“Somente em agosto de 2022, para estar de acordo com as condições e os mesmos critérios da atual legislação, o preço do Deposteron passou por uma adequação junto aos órgãos competentes”, declarou a farmacêutica.

A terapia à base de testosterona é um tratamento importante para que os homens trans possam se identificar fisicamente com o gênero no qual se reconhecem. A hormonioterapia é feita com prescrição médica. Além das mudanças físicas, o procedimento auxilia no aumento da autoestima, segurança e na busca do bem-viver das pessoas trans.

Os perigos da interrupção e mitigação da hormonoterapia

Pedro, homem trans de 40 anos, de Salvador (BA), convive com as dificuldades no uso da testosterona. Ele começou o tratamento em janeiro de 2021, e pagava em torno de R$ 50,00 pela substância. Pedro usou um nome fictício por medo da transfobia. Ele está desempregado e tem dificuldade para manter o fluxo de utilização da substância após o aumento.

“O valor aumentou muito, hoje estamos achando no valor de R$ 237,00. Com isso eu tive que prolongar  períodos. Tá um valor surreal, eu tenho que trabalhar muito, às vezes deixo de comprar alguns materiais de usos pessoais, utensílios, diminuir alimentação para que as contas  batam”, desabafou. 

Mariano dos Santos, de 33 anos, também de Salvador (BA), passa pela mesma dificuldade de acesso à substância, mesmo com auxílio do plano de saúde. Ele iniciou o tratamento hormonal à base de testosterona em 2019, usando o medicamento Hormus. Nos últimos meses o biólogo enfrenta dificuldade para seguir regularmente o tratamento. 

Mariano dos Santos, de 33 anos, precisou prolongar os ciclos das aplicações de testosterona devido ao aumento – Imagem: Arquivo Pessoal

“Eu me considero um pouco privilegiado com relação a isso. Eu comecei com uma ‘testo’ que tem um preço mais elevado, a Hormus, que custava R$ 190, isso porque eu tenho um desconto do meu plano de saúde”, explica. De acordo com ele, o valor atual do medicamento  é de R$ 230, mesmo com o desconto. 

Um dos motivos  que levou Mariano a optar pela medicação mais cara, foi o tempo de aplicação com maiores intervalos, de 10 a 14 semanas. “Os efeitos colaterais são bem menores, tem várias vantagens, mas os custos são elevadíssimos”, diz o biólogo.

Para continuar o tratamento e com o alto valor do hormônio, Mariano precisou aumentar os intervalos entre as aplicações. Ao invés do uso trimestral, ele passou a fazer o uso por semestre. “Eu tenho um emprego estável, não passo por nenhuma dificuldade, mas tive que estender o prazo, para poder esse custo não ser tão pesado, principalmente depois da pandemia. Teve período que eu fiquei oito meses sem tomar”, declarou Mariano.

Apesar dos maiores intervalos nas aplicações, Mariano fala que não sente muitos efeitos colaterais. No entanto, a endocrinologista Luciana Barros, que é médica no Ambulatório Transexualizador do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alerta  para os efeitos de possíveis interrupções ou espaçamento no tratamento: 

“Por conta da interrupção há um retorno do eixo reprodutivo com sangramentos menstruais, aumento das mamas, lentificação no crescimento dos pelos faciais e corporais. Os danos são principalmente à saúde mental, pois o retrocesso da virilização e o retorno dos sangramentos menstruais levam a quadros de disforia de gênero e piora quadros de depressão e ansiedade.”

De acordo com a endocrinologista, os homens que precisam aumentar o intervalo acabam usando uma subdose, e isso pode desenvolver um quadro parcial de hipogonadismo.  A doença acontece  quando os ovários não voltam a funcionar após a suspensão da hormonização.

A endocrinologista Luciana Barros alerta para os riscos da aplicação de subdoses e interrupções da hormonoterapia – Imagem: Reprodução Redes Sociais

“Pois nem os ovários retornam sua função, como nem os níveis sanguíneos de testosterona ficam na faixa masculina, que é o desejado. A pessoa fica com deficiência de hormônios sexuais, isso tem impacto negativo em várias partes do corpo, especialmente nos ossos”, explica a médica. 

A dificuldade no acesso a terapia hormonal é uma triste realidade para os homens trans

Para Ailton Santos, coordenador do Ambulatório de Saúde Integral de Travestis e Transexuais, a complexidade no acesso a esses medicamentos é uma agressão à saúde mental dessas pessoas.  

“Eles não estão mais conseguindo manter a leitura do que eles são, homens. E de novo  enfrentando a transfobia, e muito mais forte por conta da aparência ambígua.”

O Ambulatório de Saúde Integral de Travestis e Transexuais fica em Salvador (BA). Ailton afirma que o órgão não está habilitado para compra de hormônios para homens trans, pois essa dotação orçamentária é uma demanda do Governo Federal. 

“Esperamos que logo depois do carnaval a gente já venha retomar com mais celeridade e mais foco, a questão da habilitação do ambulatório para que a gente também possa contribuir na melhoria da qualidade de vida desses homens trans e pessoas trans masculinas”, diz Ailton.

A endocrinologista Luciana Barros chama a atenção para a importância da disponibilização gratuita de hormônios sexuais pelo Sistema Único de Saúde (SUS):

“Atualmente não temos hormônios sexuais gratuitos para nenhuma das pessoas que precisam deles, sejam elas transgênero, mas também pessoas cisgêneros, com condições de saúde. É preciso lutarmos pela inserção de testosterona na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Rename ”, finaliza a especialista.