Por Monique Rodrigues do Prado

“Quem é você? Do que você tem medo”. Essas são algumas das provocações levantadas no longa-metragem “Black is King” escrito, dirigido e produzido por Beyoncé, álbum visual que de forma decolonial materializa memórias e nos convida a viver em universo de potência, imersos em uma experiência sensorial de cura, afeto e ancestralidade.

A produção contrasta com a antropologia eurocentrada que resume a África a um bloco, desconsiderando as múltiplas identidades e insistindo em desenhar o continente de forma primitiva e estereotipada. A mesma antropologia que tece críticas produzidas com base no epistemícidio para endossar a visão de história única.

Em disrupção a narrativa única, Black is King subverte a cosmovisão ocidental reducionista e resumida no seu próprio umbigo. Os arquétipos de escassez, caos e subserviência são desmontados. Não há espaço para uma trajetória sangrenta, onde negros não existam.

A atmosfera criada em Black is King é bem mais profunda. Lá negros são retratados em sua multiplicidade étnica, aproveitando suas várias linguagens e expressões, entre estética, moda, poesia, arte, música, ritmo e dança, a negritude se estabelece como altiva e, especialmente, conectada com a terra.

As variações étnicas são flagradas não só no território, nos costumes e na vestimenta, como também nas inúmeras texturas capilares apresentadas. As tranças nagô, ombré, jumbo e box brainds; os dreads, os moicanos, os black powers, os cachos, os crespos, as cabeças raspadas; os desenhos, as lãs, o kanekalon, os cortes e as cores, desmontam a tese fetichizada da branquitude que cabelo é “estilo”. Ao contrário, o filme expressa as raízes capilares como formatação das identidades negras.

A jornada apresentada na produção audiovisual costura elementos da tradição africana a fim de projetar negros para um lugar possível de existir, de forma que a diáspora é recriada com base no poder e no orgulho. O futuro de negros e negras em Black is King está dado. Nessa utopia “vidas negras importam” porque as pessoas negras estão em diálogo pleno com a sua existência, sem serem atropeladas pelo ocidente eurocentrado.

Além de utilizar os talentos musicais e da dança da tradição africana, a produção mostra rostos da África do Sul, Gana, Camarões, Nigéria, entre outros, em posições de poder estrutural como anciãos, debutantes, juízes, reis e rainhas.

Ao assistir esta obra prima, cada negro e negra recebe um abraço, já que a história fala de partilha, celebração e amor. Como diz no filme “Nós somos bonitos antes deles saberem o que era beleza”.