Por Maya Quilolo*

Enquanto o mundo branco se apressa em nos solicitar alternativas ao seu destino aterrorizador, nós, o mundo negro, vivemos as consequências maléficas de sua opção civilizatória. O planeta numa marcha breve se transforma em uma grande favela: as desigualdades sociais e ambientais aliadas às políticas de morte circundam a vida de milhares de pessoas em territórios altamente militarizados, tanto pelas milícia estatais, quanto pelos mercenários que mordem as migalhas das mesas em(pó)eiradas nas instituições democráticas. A morte como princípio venta pelas avenidas e nossos olhos já não se espantam com corpos, armas, vírus e televisão.

Frente a uma modernidade desoladora continuamos caminhando no mundo como ratos a roer as beiras e as sobras mastigadas pela boca grande do mundo, a que chamamos de capitalismo. Os que de nós comungam com outras perspectivas civilizatórias continuam massacrados pela pegada colonial, sustentando esse mundo condenado para que, como nos diz Davi Kopenawa, o céu não desabe. O sustento do mundo, sobrecarregado nas costas dos povos subalternos, se constitui a partir das práticas milenares que restituem ao mundo humano sua dignidade terrena, alimentando o buraco negro aberto pelo estômago do que denominamos ocidente. Mas, conhecendo a ferida é que se conhece a cura , como nos ensina Obaluaê. Uma chama africana ascendeu para mim novamente e hoje presto homenagem a existência mulher, africana, de Wangari Maathai (1940-2011).

Wangari Maathai foi mulher, ativista política e ambiental nascida no Quênia. Em vida, Wangari Maathai atuou nos territórios devastados pela monocultura do café e chá ingleses: rios secos, florestas mortas, população desnutrida, mundos que desabaram sobre as cabeças do povo colonizado. Com as ferramentas do mundo que a deserdou Wangari fundou a Pan-African Green Belt Network : organização que capacitava pessoas, sobretudo mulheres negras, para atuar no reflorestamento das áreas devastadas. Nos 30 anos de trabalho muitas áreas foram recuperadas por centenas de mulheres negras plantadoras que juntas plantaram 30 milhões de árvores, recuperaram nascentes e rios já secos e puderam novamente desfrutar da abundância divina da terra em suas vidas.

Pela sua notável contribuição, Wangari Maathai foi a primeira mulher africana a receber o prêmio Nobel da Paz em 2004 e nos atentou para importância da preservação ambiental, sobretudo para os povos negros e as pessoas pobres, que acumulam os impactos avassaladores do colonialismo.  Seu corpo de mulher, uterino e plantador, esgarçou-se na sua missão de vida, Wangari Maathai morreu aos 71 anos de câncer de ovário após fecundar milhares de vidas renascidas: rios, florestas e pessoas. Wangari Maathai desafiou o senso comum de sua época e apostou na capacidade do povo africano e sua cultura de apresentarem soluções para seus próprios problemas. Em seu discurso no prêmio Nobel Wangari afirma:

“No prêmio deste ano, o Comitê do prêmio Nobel colocou a questão crítica do meio ambiente e sua ligação à democracia e à paz diante do mundo. Por sua ação visionária, sou profundamente grata. Reconhecer que o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz são indivisíveis é uma ideia cuja hora chegou. Nosso trabalho nos últimos 30 anos sempre valorizou e engajou esses vínculos.” [tradução livre]

No Brasil, vivemos uma corrida cada vez maior para abocanhar de vez o que o mundo branco chama de “patrimônio natural”, preservado pelo sangue indígena e negro sobre os quais pesam tanto a existência quanto a preservação destes territórios. Paralelamente às máquinas da mineração, petróleo, eucalipto, monocultura, hidroelétricas e outros empreendimentos de impacto ambiental. O desejo do mundo branco pelas paisagens paradisíacas exclusivas empurram os povos indígenas da costa brasileira, dando lugar à tribos estranhas que desfrutam as curas do rapé e da ayahuasca enquanto colhem os frutos profanos de empresas petrolíferas que furam as costas Obaluaê.

A nós, mundo negro, que podemos colher somente os frutos da terra, outro corpo colonizado, maculado e violentado como o nosso, deixo a lição mulher africana de Wangari Maathai, que com seu útero de gestar futuro também nos salva um pouco da morte, plantando “sementes da paz”, como ela mesma diz, em nossos corações apocalípticos, atormentados.

 

*Maya Quilolo é quilombola, antropóloga, artista e produtora. Trabalha no entrocamento entre arte, antropologia e povos e comunidades tradicionais.