Por Lecco França*

Quem nós somos? De onde viemos? Essas são algumas questões que Black is king (2020) tenta nos responder, diante do fato de que muitas pessoas negras “não se lembram de quem eram, do que eram, de onde vieram, e dos motivos para tentarem fazer esquecê-las disso”.

O filme tem direção da multiartista estadunidense Beyoncé Knowles-Carter, codireção de Kwani Fordjour e colaboração de outros diretores de ascendência africana, como Emmanuel Adjei, Blitz Bazawule e Jenn Nkiru. O roteiro é assinado por Beyoncé, Yrsa Daley-Ward, Clover Hope e Andrew Morrow.

O álbum visual, inspirado na trilha sonora da refilmagem de O rei Leão (2019), não é uma mera sequência de clipes entremeados por cortes abruptos. Há uma coerente linha argumentativa que une imagem e som de forma muito competente. Na trama, a saga de Simba, protagonista do clássico da Disney, é ressignificada através de um garoto negro que sai de sua terra natal em África e embarca na diáspora, submergindo em um novo mundo de muitas descobertas e perigos, como a violência e o dinheiro, mas sempre acompanhado daqueles que estão sempre dispostos a orientá-lo e protegê-lo: os seus ancestrais. O tema principal da narrativa, de fato, é a ancestralidade africana, representada pela sabedoria dos mais velhos e pela presença dos espíritos ancestrais que acompanham os seus descendentes, mesmo após a morte de seus corpos humanos no plano terrestre.

Em um post publicado no Instagram, Beyoncé afirmou que “quando nós, pessoas negras, contamos nossas próprias histórias, podemos mudar o eixo do mundo e narrar nosso verdadeiro passado de gerações de prosperidade e riqueza de alma, que não é contado nos livros. Com esse álbum visual, eu queria trazer elementos da história negra e da tradição africana, com um toque moderno e uma mensagem universal, e tratar do que realmente significa encontrar sua identidade e construir um legado”.

Assim, o filme une passado e presente, ao reforçar a ideia de que todos nós pretos carregamos a realeza conosco, como nossos antepassados africanos, reis e rainhas, muitos deles que foram despojados de sua dignidade e trazidos às Américas, na condição de escravizados, pelo cruel processo de colonização europeia, ao longo de séculos de história, porque ser rei ou rainha é também “assumir as responsabilidades e fazer sacrifícios que podemos ou não queremos fazer. Realeza é tomar conta do que é nosso, dos filhos, da família, de quem nos protege e de todos. Realeza é tomar conta de pessoas”.

Outros temas também são abordados no filme, como a maternidade, através da mãe natureza, representada nas belíssimas paisagens africanas, e da figura da mulher, representada principalmente por Beyoncé. Assim como pela sua antecessora, Tina Knowles-Lawson, sua mãe, e sua sucessora, Blue Ivy Carter, sua filha mais velha – o filme também é dedicado a um de seus filhos mais novos – em diferentes passagens, Beyoncé carrega um bebê ou transita com uma criança em lugares naturais, como cachoeiras, oceanos, rios e dunas gigantes; a beleza dos corpos negros e o resgate da autoestima, expressos nas respeitosas e dignificantes imagens de pessoas negras e em narrações, como: “O amor próprio é negado aos homens negros. Dizem-nos: ‘Eu devia te detestar’. O mundo nos diz que somos outra coisa, muito escuros, pequenos, o que for. Há que mostrar que homens e mulheres negros são sensíveis, fortes, inteligentes e intuitivos. Sempre fomos maravilhosos. Vejo-nos refletidos nas coisas mais celestiais do mundo. Negro é rei. Éramos a beleza antes de saberem o que era beleza”; e o pan-africanismo, movimento relativamente popular entre as elites africanas ao longo das lutas pela independência do jugo europeu na segunda metade do século XX, e em parte responsável pelo surgimento da Organização de Unidade Africana (OUA), que propõe a união de todos os povos da África como forma de potencializar a voz do continente no contexto internacional, representado na cena em que é recriada a bandeira dos Estados Unidos nas cores vermelha, preta e verde, que simbolizam o movimento, ou no trecho: “O mundo seria melhor para todos se reis e rainhas percebessem que, sermos iguais, partilhando espaços, ideias e valores, forças, fraquezas e equilibrando-se mutuamente, é a forma de como os antepassados agiam. E essa é a forma africana. A tua realeza existe para seres uma benção para os outros, para deixares um legado onde os outros encontrem esperança, força e a cura”. Além das cosmogonias e religiosidades africanas, há também referências cristãs na trama, na passagem bíblica de Moisés, que é abandonado em um cesto, e no trecho da Bíblia que diz que o homem é a imagem e semelhança de Deus.

Do ponto de vista técnico, Black is king é um espetáculo visual e sonoro, com grandes planos gerais exaltando as belezas naturais do continente africano, mas não de forma pejorativa, já que mistura imagens de ambientes rurais e urbanos e referências do mundo tradicional e moderno. As locações incluem África do Sul, Gana e Nigéria, países africanos, além dos Estados Unidos (com filmagens em Nova Iorque e Los Angeles), Reino Unido e Bélgica. Os animais, tão presentes nas imagens das selvas e savanas africanas, aparecem apenas nas estampas de alguns figurinos e objetos. Aliás, os figurinos, selecionados por Zerina Akers, são um show à parte, além das estampas de temática animal, há outros tipos de tecidos estampados nas inúmeras roupas usadas por Beyoncé e do elenco como um todo, mas principalmente de tecidos lisos, com cores vibrantes, e muito brilho, especialmente nos acessórios, boa parte disso inspirado no trabalho de estilistas africanos ou de ascendência africana, como a senegalesa Sara Diouf, proprietária da marca Tongoro, que assinou os figurinos de “Spirit”, a marfinense Lafalaise Dion e Loza Maleombho, esta nascida no Brasil e criada na Costa do Marfim. Há também referência, em minha leitura, com base no meu repertório cultural, a fotógrafos africanos contemporâneos, como o nigeriano J. D. Ojeikere e o senegalês Omar Victor Diop nos enquadramentos, na paleta de cores dos cenários e figurinos, e na iluminação, além de alusão a filmes africanos, como La noire de… (1966), dirigido pelo cineasta senegalês Ousmane Sembene, no qual Beyoncé reinterpreta a personagem Diouana, só que neste caso, a protagonista não sendo mais a empregada do branco, e sim rica e tendo um empregado branco, Touki Bouki (1973), dirigido pelo também senegalês Djibril Diop Mambéty, na releitura de algumas cenas, como a do carro com estampa de tigre, que transporta Simba, e do afrofuturismo, movimento filosófico e estético-cultural que combina elementos de ficção científica, história, arte africana e afro-diaspórica, afrocentrismo e cosmologias não-ocidentais, para criticar não só os dilemas atuais dos afrodescendentes, mas também para revisar, interrogar e reexaminar os eventos históricos do passado.

Já a trilha sonora do filme contempla as canções inéditas presentes no disco The Lion King: The gift,  interpretadas por Beyoncé, em faixas solo ou com a participação de outros artistas, como os atores James Earl Jones e Cliwetel Ejiofor, nas faixas “Balance (Mufasa Interlude)”, “The Stars (Mufasa Interlude)” e “Uncle Scar (Scar Interlude)”, os cantores nigerianos Tekno, Yemi Alade e Mr. Eazi, na canção “Don’t jealous me”, os estadunidenses JD McCrary e Shahadi Wright Joseph, em “Danger (Young Simba & Young Nala Interlude)”, o nigeriano Burna Boy, em “Ja Ara E”, Kendrick Lamar, em “Nile”, Jay Z, marido de Beyoncé, Childish Gambino e a cantora maliana Oumou Sangaré, em “Mood 4 Eva”, Pharrel Williams e o camaronês Salatiel, em “Water”, Saint Jhn, Wizkid e Blue Ivy Carter, na canção “Brown skin girl”, os nigerianos Tiwa Savage e Mr. Eazi, em “Keys to the kingdom”, e o ganês Shatta Wale e o rapper estadunidense Major Lazer, em “Already”. Há também canções da Smithsonian Folkways Recordings, gravadora sem fins lucrativos da Smithsonian Institution, localizada nos Estados Unidos, que reúne uma extensa coleção de música de todo o mundo, como “Little girls’ sung games”, da Costa do Marfim, “Nzenzenze” e “Lullaby-Nzakara”, da República Centro-Africana e “Alundé Dodo Basé”, do Sudão; e da Biblioteca Internacional de Música Africana, organização dedicada à preservação e estudo da música africana, sediada em Grahamstown, África do Sul. Além das músicas que costuram a narrativa, o filme também apresenta poemas da escritora britânica-queniana Warsan Shire.

Black is king foi oficialmente lançado pela plataforma Disney+, ainda inacessível em países africanos. Por isso, um acordo de distribuição foi feito com o canal de televisão Canal+ Afrique, da África Central e África Ocidental, e o canal M-Net do conglomerado de mídia MultiChoice Group para exigir o filme na África subsaariana em a partir de 1º de agosto de 2020. Haverá exibições em países como África do Sul, Nigéria, Gana, Etiópia, Namíbia, Camarões, Libéria, Burundi, Senegal, Togo, Somália, Benin, Congo, Quênia, Costa do Marfim, Zimbábue, Malauí, Gabão e Cabo Verde. Adicionalmente, a rede de televisão OSN dos Emirados fará exibições da produção nas regiões do Oriente Médio e do Norte de África. Nada mais justo.

A repercussão, mais positiva do que negativa, de Black is king vem comprovar a importância de cada vez mais nós pessoas negras estarmos reconhecendo e recuperando nossas identidades, de diferentes maneiras, além de nos reconciliarmos com o nosso passado grandioso e otimista, de beleza, dignidade e sabedoria, herdado dos nossos antepassados africanos.

Diante de um antigo e atual processo violento que nos tirou e tem “sistematicamente, nos tirado tanto”, reassumir nossa realeza “é levar-nos ao que é nosso, mas não por motivos egoístas, para desenvolver a comunidade”.

 

*Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia e Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).