Por Catiane Pereira
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) denunciou a desativação permanente de sua conta institucional no Instagram, ocorrida no último sábado (28), e classificou a medida como um ato de silenciamento contra a luta quilombola. Segundo a organização, o perfil foi derrubado sem aviso prévio ou justificativa por parte da plataforma.
Em nota pública, a Conaq afirmou que a retirada do ar acontece em um momento simbólico: a entidade celebra 30 anos de atuação na defesa dos territórios quilombolas, dos direitos humanos e da justiça social. Para a coordenação, o episódio ultrapassa o ambiente digital e representa um ataque direto à memória e à comunicação estratégica de comunidades tradicionais.
“Mais do que um ataque digital, é uma tentativa de silenciar vozes que defendem direitos, ancestralidade, titulação de terras, meio ambiente e justiça social”, declarou a organização.
Com cerca de 65 mil seguidores, o perfil da Conaq funcionava como um canal de informação, denúncia e mobilização. A entidade destaca que o apagamento da conta compromete a circulação de conteúdos sobre temas como regularização fundiária, combate à violência de gênero e justiça climática — pautas consideradas centrais para a sobrevivência e a autonomia dos territórios quilombolas.
No posicionamento intitulado “O silêncio que ecoa”, a organização levanta questionamentos sobre o papel das plataformas digitais na mediação do debate público. “Em um ano decisivo para a democracia brasileira, é necessário questionar: por que o algoritmo silencia justamente as vozes que pautam a vida?”, afirma o texto.
A Conaq também aponta que o bloqueio pode refletir um padrão mais amplo de invisibilização de conteúdos ligados a direitos humanos. Para a entidade, o que chama de “boicote invisível” a páginas engajadas na promoção da dignidade e da justiça social, configura uma forma de censura velada.
“Quando o debate sobre o bem comum e a justiça climática é interrompido sem justificativa, não é apenas um perfil que sai do ar — é um canal de proteção, trabalho e denúncia de comunidades vulnerabilizadas que é asfixiado”, diz a nota.
A organização ainda relaciona o episódio a um histórico de estigmatização das vozes negras. “Estamos cientes de que, historicamente, a altivez das vozes negras é lida sob o prisma distorcido da agressividade. No entanto, nossa resposta é a da inteligência e da resiliência”, afirma.
A Conaq exige o restabelecimento imediato da conta e cobra explicações da Meta sobre os critérios que levaram à remoção do perfil. Até o momento, não houve manifestação pública da empresa sobre o caso.
“Não aceitamos o apagamento de cinco anos de construção coletiva e o silenciamento de quase 65 mil seguidores que veem na Conaq um farol de informação e cidadania”, conclui a entidade, reiterando que seguirá atuando na defesa dos direitos quilombolas.
Enquanto não tem restabelecida a conta, a organização criou um perfil novo: @conaquilombo.


