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Marcha das Mulheres Negras: entenda um dos conceitos fundamentais da luta feminista negra

A interseccionalidade vai mostrar que desigualdade racial, social e outras atuam juntas na opressão de mulheres negras e pode auxiliar na criação de políticas públicas de igualdade.
Imagem: Ana Carolina Mata

Por Larissa Novaes*

Em 18 de novembro de 2015, aconteceu a primeira Marcha das Mulheres Negras. A mobilização foi organizada pelo movimento feminista negro brasileiro, com o objetivo de denunciar o racismo, a violência e exigir o Bem Viver. O conceito de Bem Viver, que guiou a Marcha de 2015 e de 2025, engloba práticas de valorização da ancestralidade, do coletivo sobreposto ao individualismo e à competição, e acredita na economia subordinada à ecologia.

As mulheres negras crêem que tais práticas podem ocasionar em melhor qualidade de vida e reparação às mazelas históricas vividas por elas. O Bem Viver reúne os princípios que as mulheres negras querem para o Brasil, que só é possível se almejar, graças ao processo de tomada de consciência das mazelas intercruzadas que as atingem. 

O feminismo negro é um movimento que pensa as necessidades e requisições das mulheres negras, considerando as múltiplas interseccções de opressão. Interseccionalidade é o conceito que dá nome a esse fenômeno. Carla Akotirene, pesquisadora e autora do livro “Interseccionalidade” (2019), explica o conceito como “à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado – produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais”. Ou seja, o termo significa uma análise da estrutura social em que as opressões se organizam conjuntamente e não são analisadas e consideradas separadamente. 

Você pode pensar que se trata de uma soma de opressões, mas não é necessariamente isso. Interseccionalidade é sobre como as opressões atuam simultaneamente coordenadas pelo sistema racista e capitalista, que prejudica, principalmente, mulheres negras no acesso a direitos básicos. Kimberlé Crenshaw foi quem cunhou pela primeira vez o conceito de interseccionalidade, nos Estados Unidos, em 1989. A definição da feminista negra estadunidence, que serviu de referência para a elaborada por Akotirene, coloca que interseccionalidade é a forma com que diferentes braços da opressão e discriminação não agem separadamente, mas se cruzam e marginalizam juntos. 

As violências interligadas no cotidiano

A sociedade brasileira ainda vive um processo de dificuldade em relacionar opressões, mesmo que dados mostrem que há um aumento na percepção sobre racismo e machismo no Brasil. Segundo uma pesquisa do Datafolha, em 2024, 59% dos brasileiros acreditam que a população brasileira é racista e 45% dizem que o racismo vem aumentando. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) da ONU, divulgou em 2023 que, no Brasil, 84,5% dos brasileiros têm preconceito contra mulheres. 

Esses dados comprovam que as pessoas percebem que as opressões existem e estão aumentando, porém, ainda não conseguem olhá-las agindo juntas. Por isso, é preciso, além de olhar para os dados, explicar como eles estão refletidos no cotidiano de mulheres negras, oprimindo em conjunto. 

Jade Miguez, graduanda em Ciências Sociais (UFRB) e pesquisadora há mais de oito anos em questões de gênero, raça e classe, atualmente se dedica a examinar o uso do conceito de interseccionalidade no Brasil na última década, e afirma que se trata de uma categoria de análise, ou seja, auxilia na interpretação de dados a partir da organização e classificação deles. Segundo ela, no conhecimento feminista negro, a experiência é fundamental, “porque diferente da ciência que se diz neutra, a teoria feminista negra compreende que a neutralidade é impossível, porque todos os corpos estão localizados”. Pensando nisso, o conceito permite que possamos olhar para cada pessoa considerando que suas experiências estão ligadas a diferentes marcadores sociais. 

As mulheres negras são, cotidianamente, expostas a diversas violências e todas agem interseccionando raça, gênero e, muitas vezes, classe. “As mulheres negras são expostas a mais violências, como, por exemplo, não ter anestesia no momento do parto”, exemplifica Jade Miguez, a respeito da violência obstétrica. A imagem da mulher frágil não existe quando se pensa em mulheres negras. O grande estereótipo do negro forte, negro que aguenta dor, da mulher preta parideira é usado para justificar as violências sofridas em um momento tão frágil. Uma pesquisa presente na Revista “Ciência & Saúde Coletiva” da SciELO, de 2024, aponta que 60% das mulheres que morrem por causas obstétricas no Brasil são negras.

Vendo o mundo Interseccionalmente 

Outro exemplo claro de como ver as situações cotidianas interseccionalmente, é a partir da situação proposta pela pesquisadora Ana Emília Carvalho (UFRB), que se dedica às  pesquisas relacionadas à identidade racial, gênero e movimentos sociais a partir da perspectiva do feminismo negro. Ela atesta que as mulheres negras estão nos piores postos de trabalho, sobrecarregadas e mal remuneradas. 

“Pense na seguinte situação, uma mãe solo que trabalha fora e um dos filhos adoece. Para conseguir atendimento na UBS, essa mãe solo precisaria ou faltar ao serviço ou acordar extremamente cedo para entrar na fila de atendimento e ter o filho atendido a tempo para que ela ainda pudesse ir trabalhar”. Ela sugere que se trave uma luta por um sistema de saúde pública que olhe para essas demandas interseccionais de raça, gênero e classe, considerando que essa medida resultaria em avanços para a sociedade como um todo. 

A Marcha das Mulheres Negras de 2025, aconteceu em 25 de novembro e carregou como lema a Reparação e o Bem Viver. Ana Emília coloca a interseccionalidade como “ferramenta de elaboração de políticas e soluções”. Considerando que estamos numa sociedade em que os problemas sociais são frutos da interação das opressões que estão agindo juntas, as mulheres negras ao lutarem por Reparação e Bem Viver estão utilizando de olhares interseccionais para elaborar suas demandas de resolução. É olhando para as próprias mazelas que interseccionam gênero, raça, classe, que elas propõem políticas como: reparação financeira para comunidades afetadas por desastres e crimes ambientais, investimento em infraestrutura nas periferias, programas de saúde pública para mulheres trans e travestis negras, entre outras. 

As medidas para a superação das questões sociais brasileiras precisam ser solucionadas, segundo Ana Emilia, “a partir da dimensão dessa interseccionalidade, ou corremos o risco de fornecer soluções parciais ou ineficientes”. Em uma sociedade estruturalmente racista, pensar em corpos negros a partir da interseccionalidade é propor novas possibilidades de existir. Há séculos, as mulheres negras vêm desenvolvendo estratégias de luta e apontando esses caminhos. Mas cabe ao Estado e às instituições, que historicamente se beneficiam desse sistema de opressões, a responsabilização pelas violências e desigualdades perpetuadas.

*Este é um artigo de opinião que está dentro da nossa política editorial, mas não reflete necessariamente o posicionamento da Revista Afirmativa

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