Por Luciana Brito*

“Bora, bora, é a defesa de Vilma Reis, você não conhece Vilma Reis?” … Era 2001, eu estava no pátio de São Lázaro, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal na Bahia (UFBA), quando alguém que não me lembro passou e me disse isso. Quase que me puxando pelo braço, alguém, que só me lembro vagamente de ter sido um rapaz negro, me conduziria ali para um dos momentos que transformariam minha vida na universidade, do ponto de vista intelectual e político.

Eu tinha 22 anos, estava cursando a graduação em História e dali por diante eu começaria meus primeiros passos no movimento negro. Até então eu era uma jovem negra começando a formar minha identidade racial, já que eu era fruto de uma família negra cujas pessoas tentavam se inserir (ou sobreviver) na sociedade negando sua negritude e se afastando de tudo que lembrasse África.

Voltando àquele dia de 2011, o episódio que comecei a descrever era um momento muito importante. Tratava-se da defesa de monografia de Vilma Reis, uma jovem mulher negra de dreadlocks, que naquele dia me lembrou Tracy Chapman. Parecia uma defesa de mestrado: a banca composta totalmente por homens estava afiada e Vilma exibia uma sorriso sarcástico. Avaliavam vírgulas, parênteses e concordâncias, coisas menores que nos escapam na escrita. As regras de escrita acadêmica sucumbiam diante do tema da pesquisa: “Operação Beiru – Falam as Mães dos que Tombaram”. A Salvador das comunidades abatidas pela violência policial era o tema da pesquisa da socióloga Vilma Reis. Ao longo da sua defesa, eu só pensava: como ela conseguiu pesquisar isso? E ali, naquele dia, naquela sala onde todxs estudantes negros e negras da faculdade de filosofia se encontravam para celebrar a formação de uma socióloga entre nós, apresentava-se para mim duas possibilidades: uma de ser uma mulher negra intelectual, e a outra era de ser uma mulher negra intelectual que desafiasse o discurso da neutralidade acadêmica, utilizando ciência e conhecimento no combate às desigualdades.

Depois daquele dia, minha vida na universidade não seria mais a mesma…

Essa memória tem estado viva em mim desde o dia em que ficamos sabendo que a socióloga e militante Vilma Reis não seria a nossa candidata à prefeitura de Salvador. Novamente, essa memória se manteve viva ontem, numa plenária virtual em que diversas ativistas, homens e mulheres, intelectuais, lideranças politicas, trabalhadoras, artistas, professoras, reafirmavam que ainda queríamos ela, ela Vilma Reis, e não estávamos dispostas a desistir.

Aliás, que saibam os homens brancos no poder nessa cidade, não nos subestimem, não desistimos tão fácil.

A escolha do PT por outra candidata negra, membro da corporação militar, para disputar o cargo de prefeita de Salvador, além das estratégias de campanha que aqui e ali já se anunciam, nos revelam muita coisa. Uma delas, inclusive, é que nem toda preta é igual e que não defendemos os mesmos projetos, não utilizamos as mesmas estratégias e não fazemos o mesmo tipo de concessão. Isso é fundamental na hora de saber quem é quem no jogo político.

Quem tem sua história politica forjada na luta coletiva sabe: desconfie quando se é escolhida ou escolhido para algo quando a “escolha” não foi resultado do debate democrático. As estratégias individuais podem até dar certo no Big Brother, mas na vida real, geralmente, não dá.

Na esquerda ou na direita, mulheres negras sabem o quão estamos distantes do centro de decisões, que é branco e masculino, tanto de um lado quanto do outro. No caso do Partido dos Trabalhadores o que está em questão é: como abrir mão de um projeto de nação que também foi construído por nós, e cujo capital politico foi construído por nós também, embora assim como em tudo no Brasil, não somos nós ( homens e mulheres negras trabalhadoras) que tiramos vantagem disso?

Quando a campanha Agora é Ela foi formada por diversos setores do movimento negro e de esquerda de Salvador, mas sobretudo pelo movimento de mulheres negras, a Ela a qual nos referíamos é Vilma Reis, e isso, além de ser inegociável,  vem de uma trajetória política construída desde muito antes de 2001 (quando eu vi Vilma pela primeira vez) ou muito antes da campanha eleitoral de 2020.

Ao longo desses anos, todas nós estávamos fazendo alguma coisa, tanto pela nossa sobrevivência individual e algumas de nós pelo bem coletivo. É isso que nos distingue de quem entrou na politica por uma herança patriarcal.

Contudo, como diz a canção de Edson Gomes, tenhamos cuidado com as sutilezas. Não basta, como o racismo patriarcal das elites bem fez, substituir uma preta por outra, desde que seja alguém da sua escolha, e não nossa. Aqui reside outra diferença entre as candidatas. Embora as elites acham que todas nós somos iguais “Agora é ela” não é slogam, é palavra de ordem. Apropriar o mote da campanha de Vilma Reis, além de ser algo desonesto do ponto de vista político e intelectual, não resolve a questão que querem abafar, e isso será percebido aos poucos, ao longo da campanha eleitoral.

Quando falamos de uma “nova estética política” como algo marcante da campanha de Vilma Reis, entendeu mal quem acha que estávamos falando de beleza física, esse tipo de beleza enquadrada e adequada, que é fruto das aspirações patriarcais sobre como deveria ser a “estética” de uma mulher negra ao gosto de quem nos contempla.

A nova estética política quer dizer algo muito mais revolucionário, que é uma campanha cujas bases são formadas nos movimentos sociais, nas ruas, nos becos, nas conversas que aconteceram nas nossas casas, nas esquinas, nos auditórios, nos centros comunitários, nas mesas de bar. Essa nova estética, despreocupada se vai agradar ou não, rompe com os modelos patriarcais, com o racismo, o sexismo, a lgbtfobia e que reivindica a cidade de Salvador como nossa. Nessa nova estética, todas e todos que falam e se colocam, que propõem e que afirma que “é hora do lixo falar”, como diria Lélia Gonzales, estão comprometid@s com o fim das desigualdades. As manifestações disso e que aparece em pessoas de todas as idades, lesbicas, gays, trans, crianças, idosas, gordas, magras, indígenas e quilombolas, é isso é que é bonito. Quem não entendeu de que beleza estamos falando, não entendeu nada!

Portanto cuidado: para quem acha que a beleza, essa comprometida com uma estética normativamente aceita, até para pessoas negras, era a “beleza” da qual estávamos falando, muito cuidado: na disputa politica com o homem branco, pelo menos entre eles, essa beleza física não importa.

De que importa discutir beleza, uma beleza engessada no estético, que é tão exigida das mulheres, diante da pandemia que estamos vivendo e que vem expondo ainda mais as desigualdades sociais e raciais desse pais? Aqui quero aproveitar para lhe parabenizar por ser a primeira, e talvez única pessoa da disputa eleitoral, quando ainda pré-candidata, a lançar um conjunto de propostas de combate à propagação do Coronavirus na nossa cidade, quando todas as outras e outros ainda estavam caladxs, por espanto, por susto ou por achar que era muito cedo para se prenunciar sobre o assunto.

Para governar Salvador ninguém precisa ser mãe ou pai, porque a maternidade, ou paternidade, não é sinal de comprometimento coletivo, pode ser, mas pode não ser. Além do pais, as metáforas e associações de família quando empregadas no jogo politico democrático são perigosas.

Para governar Salvador não é preciso tutela, nem nenhum discurso meritocrático, que transforma nossas conquistas históricas em resultados de projetos individuais. O discurso da meritocracia é tentador aos nossos egos, mas. uma sentença de solidão política e de vida.

Para governar Salvador não é preciso carregar armas, pois vivemos numa cidade armada, violenta e desgovernada para as pessoas negras. Ninguém pode falar melhor sobre isso do que as comunidades, que sabem muito bem os efeitos sobre suas vidas do único aparelho de Estado que está no seu cotidiano: a policia.

Aliás, professora Vilma Reis, sobre armas e educação, termino essas linhas com uma das suas frases, repetidas tantas vezes e que a mim, como professora, tanto enche meu peito de esperança: Nossa luta se dá com o livro na mão! E aqui não estamos falando somente do direito à educação pública de qualidade, o que por si só já demonstra qual é o seu projeto para essa cidade.

O livro, nossa arma de luta, é educação, é conhecimento e é portanto liberdade para escolhermos os caminhos que quisermos com autonomia, na cidade que vivemos ou em qualquer uma outra, com direito à saúde, à arte e a cultura. É dessa beleza, que estamos falando, a beleza da democracia!

Viva nós e as águas, Vilma Reis.

 

* Luciana Brito é historiadora, pesquisadora, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e integrante da Rede de Mulheres Negras da Bahia.

 

 

 

Foto de Destaque: Ismael Silva