Por Vitor Marques*

Tenho observado com atenção uma série de argumentos encabeçados por militantes e dirigentes do Partido dos Trabalhadores – PT, que defendem arduamente a “escolha” da Major Denice Santiago para a condição de candidata do partido nas eleições municipais para a prefeitura de Salvador, em 2020 (se o COVID-19 deixar).

Em sua grande maioria, tenho completa vergonha alheia de muitos caminhos traçados nesses discursos, os quais considero representativos em algumas linhas de argumentação abaixo discutidas.

A primeira é de que todas as pessoas “insatisfeitas” com o desfecho apontado deveriam se filiar às estruturas (racializadas, gendradas, supremacistas) do partido e disputar internamente o suposto diálogo partidário.

Sem desconsiderar o que os elementos acima apontados informam à concretização real das nossas disputas, mas tomando como base os valores de uma cultura de esquerda, considero este argumento absurdamente antidemocrático e um verdadeiro contrassenso mesmo com as ideias de uma democracia liberal-branca-formal instalada nas Américas, que impõe aos partidos políticos o papel constitucional de mediação das vontades populares com a institucionalidade, não podendo se restringir apenas às vontades de seus dirigentes e filiados.

Não nos custa lembrar que a mofada cultura institucional formalista sempre foi reivindicada pela elite dominante como mecanismo de criar obstáculos aos processos de participação e reivindicação negra, seja porque não fôssemos letrados o suficiente; seja por que possuímos a “degenerescência da raça”; seja porque, ainda que fôssemos filiados e letrados, continuamos pretos e pretas.

O segundo argumento que tem orbitado, e ao qual considero de antemão extremamente racista-sexista-classista, é o que antagoniza a escala de desigualdades vivenciadas entre Vilma Reis e Major Denice Santiago, colocando-as em uma competição de opressões cujos valores meritocráticos continuam sendo apontados pela mesma parcela branca da população que domina a estrutura político-partidária (que poderíamos classificar com representação da branquitude acrítica, para dialogar com Lourenço Cardoso), que se esquiva da assunção do seu papel no enfrentamento às desigualdades e privilégios gerados, a partir desses sistemas interligados de dominação (racismo, patriarcado e capitalismo, como nos informa bell hooks), em face dos direitos da população negra.

Ou seja, ao recuperar o discurso político assinalado desde a Marcha de Mulheres Negras 2015, como nos lembrou Naiara Leite, em seu artigo no site da Revista Afirmativa; ao ler o emblema da campanha Agora é Ela – Mulheres Negras na Prefeitura de Salvador, lançada em 02 de julho de 2019 e que segue postado aqui como diálogo textual; até o recente texto exuístico de Samuel Vida, que ressaltou como o racismo seguiu imune com esta posição, a supremacia branca, apesar de continuar passada a branco dentro do partido, precisa ser mais uma vez recolocada no centro do debate, onde a hegemonia de homens-brancos-cisgêneros-de classe média nos processos de DECISÃO POLÍTICO-PARTIDÁRIA (ainda que não estejam como cabeça de chapa) não pode ser desconsiderada!

Assim, o que está em jogo não é quem sofreu mais ou menos, ou se nós “gostamos” mais de Vilma Reis ou de Major Denice Santiago, mas a retirada de foco dos projetos políticos com marcadores de posição e origem de legitimidade no movimento social distintos.

Vocês querendo ou não, das pré-candidaturas que fiaram até o fim, Vilma Reis foi a única que, efetivamente, foi originada do debate com o Movimento Social Negro e que, desde o anúncio da entrada de Denice Santiago e Fabya Reis no processo de escolha, apontou que não seriam essas outras duas mulheres negras as antagonistas da disputa contra o patriarcado e a supremacia branca partidária.

Justamente pelo afeto ser parte da nossa compreensão política ancestral (para quem cultua a Ancestralidade), não podemos repercutir lógicas extremamente misóginas, que coloca na conta de mulheres negras a obrigação de provarem a sua capacidade de gestão pública e de submissão ao conjunto de falos brancos que seguem decidindo o nosso viver e o nosso morrer, e que mesmo quando foram submetidos aos processos eleitorais não passaram por um debate tão popularizado com a cidade de Salvador têm exigido. Homens brancos não concorrem, homens brancos são avalizados por quem tem mais concentração de poder e riqueza!

Ainda mais quando, nas vésperas da eleição indireta que ocorreu, manipula-se toda a construção da ideia de representatividade negra como artifício de autoproteção dessa mesma casta racial, que veda as nossas possibilidades reais de disputa por uma mobilidade política intrapartidária – e como fontes históricas, no mínimo, quem nos demonstra toda essa articulação são os próprios jornais e colunas políticas também dominadas pelas elites da imprensa baiana.

Por último, eu também gostaria de dizer que vocês não vão conseguir desarticular a evidência do avanço da militarização da política de esquerda no estado da Bahia tão-somente dizendo que a candidata não integra mais a corporação (apenas por uma estrita proibição constitucional).

Também, acho uma desonestidade com o Pensamento Social construído pelas Mulheres Negras na Diáspora o uso reduzido do conceito de interseccionalidade a uma simples “soma de opressões”, ao analisar a experiência vivida por Denice Santiago ao longo da sua carreira na corporação da PM, olhando-se muito pouco justamente para como os sistemas de violência atuam estruturalmente na imposição de elevadas cargas para as mulheres negras e homens negros que enfileiram esse quadro do serviço público militar.

Neste ponto, também me incomoda a tentativa de retirada da autoria e autonomia intelectual de Denice na formulação das políticas realizadas na corporação, como representação do suposto “avanço democrático” ocorrido nos últimos 14 anos de gestão do PT na Bahia. Além de pilhagem epistêmica (Henrique Freitas, 2016), toda a comunidade negra baiana, da capital e do interior, sabe muito bem o que representa a Polícia Militar nos territórios negros (Laís Avelar, 2016).

Com isto, não quero sobrecarregar nas costas dos praças mais uma vez o peso da estrutura, pois entendo que lançar para o “dominados” (se vocês querem trabalhar com essas categorias binárias) o peso de subverterem toda a ordem, é também isentar os gestores da política de segurança pública que, do alto de seus escalões (igualmente supremacistas), aumentam exponencialmente a necropolítica (Mbembe, 2016) baseada na política de guerra às drogas; de militarização das comunidades periféricas; de aumento de armamento pesado no cotidiano das ruas e mesmo do quantitativo das tropas, ao tempo em que escolas são fechadas; que segue com políticas criminais que ainda estereotipizam a pessoa negra como universalmente bandida; que persegue e realiza chacinas, execuções sumárias e tribunais de exceção; e que é responsável pelo quadro de superencarceramento masculino e feminino no sistema penitenciário baiano, mesmo em tempos de pandemia como os que temos vivido.

É sobre essa militarização da política que diversas organizações do Movimento Negro que apoiam o movimento Agora é Ela, traduzido pela expressão coletiva baseada no nome de Vilma Reis, está discutindo e pautando a esquerda baiana há anos. É sobre ela que tecemos mais uma vez preocupação sobre o que significa, não só a escolha de Major Denice Santiago como candidata, mas sobre o que está implícito, ocultado no processo de decisão política imposta pelo governador Rui Costa, e avalizada por parcela dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores, acerca da sobrevivência real da população negra na cidade de Salvador.

Qual o projeto de vida negra comunitária estamos dispostas e dispostos a guerrear no presente-futuro da cidade mais negra fora da África? O quanto que os brancos e negros de partidos de esquerda estão dispostos a sentar, escutar, apoiar essa reviravolta de agenda de esquerda? Eis a questão.

O que sei, é que de fato somos continuidades. Eles não tem poder de nos parar!

 

*Militante do Movimento Negro, mestrando em Direito pela Universidade de Brasília – UnB, apoiador do Movimento Agora é Ela – Vilma reis

 

 

 

Referências com quem conversei:

AVELAR, Laís da Silva. “O ‘pacto pela vida’, aqui, é o pacto pela morte!” : o controle racializado das bases comunitárias de segurança pelas narrativas dos jovens do grande nordeste de Amaralina. 2016. 152 f. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos e Cidadania)—Universidade de Brasília, Brasília, 2016.

CARDOSO, Lourenço Conceição. O branco objeto: O movimento negro situando a branquitude. In: Instrumento (Juiz de Fora), v. 13, p. 81-93, 2011.

FREITAS, Henrique. O Arco e a Arkhé: ensaios sobre literatura e cultura. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2016.

HOOKS, bell. Supremacia branca, Patriarcado e Capitalismo. Entrevista. Disponível em: https://www.youtube.com/watch…. Acesso a partir da página de Alex Ratts.

LEITE, Naiara. Surpresa nenhuma na Província da Bahia. In: Revista Afirmativa, 2020. Disponível em: https://revistaafirmativa.com.br/surpresa-nenhuma-na-provi…/

MBEMBE, Achille. Necropolítica. In: Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/UFRJ, n. 32, dezembro 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169

VIDA, Samuel Santana. A imunidade do racismo e a militarização da política municipal. In: Folha Popular. Disponível em: https://www.jornalfolhapopular.net.br/a-imunidade-do-raci…/…