Neste dia da mulher vamos discutir a condição das mulheres negras que ainda estão à margem da sociedade brasileira.

Por Monique Rodrigues

Durante muito tempo “o dia da mulher” foi símbolo do cinismo narrativo masculino que as representava a partir da cordialidade, sendo comum que neste dia elas recebessem flores. A imagem pública de belas, recatadas e do lar perdura até hoje na figura, inclusive da primeira dama e dondocas socialites. Todavia, isso camufla as camadas de opressão de gênero do guarda-chuva do patriarcado, sobretudo, nas esferas do  trabalho, setor responsável pelas mais variadas formas de assédios, bem como as violências que ocorrem  dentro do ambiente familiar às mulheres.

Com o avanço das mulheres no mercado de trabalho e mais tarde participando dos pilares da democracia em relação ao sufrágio e o direito ao voto, as mulheres começaram a barganhar também o seu espaço político-social na discussão das relações humanas público-privadas.

Entretanto, isso ainda está numa esfera muito rasa do que é ser mulher. Afinal, não podemos considerar que o sexismo produzido dentro do mercado de trabalho é o mesmo que alcança todas as mulheres, já que muitas dessas mulheres sequer alcançaram a humanidade plena.

Assim, Sueli Carneiro grifa “Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis”.

A filósofa ressalta o papel da mulher negra que historicamente trabalha em cargas exaustivas e provoca o feminismo liberal quando diz: “Quando falamos em garantir as mesmas oportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de mulher?”

Por isso, precisamos refletir sobre a reprodução social e a interseccionalidade, teorias que  ajudam a compreender parte da opressão vivenciada por mulheres negras.

A psicanalista Grade Kilomba, dialogando com a obra “ O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, vai apresentar a mulher negra como “o outro do outro”, pois se para a filosofa francesa a mulher é o outro, para Kilomba a mulher negra está a margem da mulher branca e dos homens, sendo duplamente atingidas pelos efeitos do sexismo e do racismo.

É bem verdade que mulheres, no geral, são responsáveis pela educação, cuidados e criação nos ambientes domésticos, já que dados PNAD mostram que apenas 26% dos homens realizam essas tarefas. Para mulheres, mesmo sem auferir qualquer salário para isso, são elas que transmitem os valores, habilidades, competências e algumas das condições materiais, sociais e culturais humanas que serão aproveitadas mais tarde de todos nós.

Sem qualquer romance, as mulheres são as grandes responsáveis pela atividade vital. Entretanto, no cenário capitalista a criação, o cuidado e reprodução das pessoas são desvalorizados a tal ponto que falar em remunerar esse trabalho chega a ser um crime, pois “criar os filhos com amor é obrigação das mulheres”, mantendo-as na condição de subordinação e os homens em posição de maior remuneração.

Se o recorte de raça é feito, mulheres negras massivamente ficam adstritas ao ambiente doméstico, à informalidade ou à condição de “mão de obra barata”. Contudo, mesmo nesse cenário de precarização, em 2019 elas representavam 55,5% das chefes de família dos lares brasileiros, segundo a consultoria IDados.

Essa desvalorização da importância de atividades relacionadas ao cuidado é o que permitiu a demora do Brasil em regularizar, por exemplo, a lei das domésticas que só foi regulamentada em 2015. Dados do Ipea demonstram que em 2018, 92% das atividades domésticas eram desempenhadas por mulheres. Isso equivale a 5,7 milhões de mulheres das quais 3,9 milhões eram negras.

A origem escravocrata interfere na desvalorização desse trabalho, triplicando a opressão (gênero, raça e classe), criando um imaginário de que empregadas domésticas “são quase da família”, mesmo quando sacrificam as suas próprias famílias para limpar a casa e educar os filhos da patroa que seguem as suas carreiras no mercado formal.

Inserir mulheres negras nessa dimensão de “quase da família” serve para autorizar a exploração do trabalho de famílias brancas, de modo que é comum flagrar mulheres negras trabalhando em condições análogas à escravidão, eternizando esse lugar de “servas”.  .

Exemplo disso é o caso de Madalena Gordiano, que recentemente foi resgatada por uma força tarefa do Ministério Público do Trabalho em razão de ter sido escravizada por quase 40 anos pela família branca Milagres Rigueira, na cidade do Alto Paranaíba em Minas Gerais.

Ou ainda o caso da executiva Mariah Corazza Üstündag que de igual modo mantinha uma idosa em condições análogas à escravidão por mais de 20 anos, a qual fora submetida a maus-tratos, tortura, constrangimentos, violência física e psíquica, em uma casa no Alto de Pinheiros em São Paulo.

Essa reprodução escravocrata da relação entre senhor e serva é uma forma de manter vivo o fetiche da dominação, incorrendo no que Grada Kilomba chamou de “glorificação colonial” no livro “Memórias da Plantação”. O efeito é a negação nacional do racismo, fortes acentos patriarcais, identidades marginalizadas e ausência de reparação histórica.

Por falar nisso, a  jurista americana Kimberlé Crenshaw foi responsável por cunhar o termo “interseccionalidade”, explicando sobre as avenidas de opressão gênero e raça na defesa de mulheres negras frente ao mercado automobilístico. O setor contratava homens negros e mulheres brancas, mas era omisso em relação às mulheres negras. Recentemente a teoria ganhou corpo no Brasil com a publicação do livro “Interseccionalidade” da pesquisadora Carla Akotirene, cujas reflexões traduzem a precariedade vivida por mulheres racializadas em que o racismo e o sexismo tenta reduzir a importância dessas sujeitas enquanto trabalhadoras responsáveis por grande parte da educação, cuidado e criação. Colocando-as na condição de marginalizadas explorando a força de trabalho em prol de ganhos econômicos de um país ainda colonialista e hetero-masculino branco.

Não à toa que os homens brancos estão na escalada do mercado formal, ascendendo em suas carreiras e ganhando até 159% a mais do que mulheres negras como mostrou o estudo do Insper “Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas” realizado em 2020 com base nos dados PNAD. Já nos quadros executivos das 500 maiores empresas brasileiras, as mulheres negras não chegam a 1%, de acordo com o instituto Ethos.

Esse é o mesmo país que jamais chegou a instituir o imposto sobre grandes fortunas previsto na Constituição Federal no art. 153, VII, mas que no ranking da Forbes possui homens brancos com fortunas bilionárias. Quem serão as pessoas “quase da família” desses homens brancos que acordam antes do sol nascer para exercerem as suas atividades de babás e trabalhadoras no lar?

Assim, como consequência da reprodução social, mulheres negras recebem os salários mais baixos e são mais expostas a violências domésticas, pois estão  longe do topo da pirâmide econômica e social, mesmo sendo a maior força de trabalho não remunerado do país.

Neste dia da mulher, não se pretende medir sofrimentos, mas refletir sobre a alteração do paradigma atual, já que esse dia  internacional nasceu com objetivo de luta e emancipação das trabalhadoras mulheres.

Por conseguinte, na passagem em que Angela Davis diz “quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela”, a autora busca fincar a importância do reequilíbrio socioeconômico contra o patriarcado. Aliando mulheres de todas as etnias e cores contra o classicismo e o racismo, já que essas três opressões juntas recompensa somente a classe dominante, especialmente os homens brancos ricos.