Saiba como manter o couro cabeludo saudável e evitar alopecia de tração

Por Andressa Franco

Imagem: Getty Images

Tranças nagô, box braids ou twits. De fibra kanekalon, de jumbo e até mesmo de lã.  Quando o assunto são tranças, há uma variedade de modelos e métodos. Mais do que um simples penteado, seu uso por pessoas negras carrega conexão ancestral e todo um simbolismo histórico-cultural, passando inclusive por processos pessoais de autoconhecimento, aceitação, afirmação da identidade e empoderamento, sobretudo para mulheres negras.

Todavia, alguns cuidados precisam ser observados para que o hábito de trançar o cabelo não acarrete em consequências indesejáveis.

Os perigos do uso recorrente das tranças

Segundo divulgação do Jornal Internacional de Dermatologia, 11% das mulheres negras são afetadas por queda de cabelo. De acordo com a pesquisa, o uso de variados produtos químicos, bem como alguns penteados ou métodos de trança são os principais fatores que acarretam na perda dos cabelos.

É o caso de Luyla Santana, de 25 anos. A primeira vez que trançou o cabelo foi aos 10 anos de idade, com o modelo conhecido como “miojo”: tranças mais fininhas.

“Eu comecei a usar não por questões de transição, mas por estética”, conta a graduanda do Bacharelado Interdisciplinar em Cultura da UFRB. Desde os cinco anos de idade seu cabelo foi alisado. Nesse ínterim, decidiu experimentar as tranças por um momento na infância por achar bonitas. Até que, aos 18 anos, deixou de alisar definitivamente os cabelos e iniciou seu processo de transição. “Comecei a usar pela auto aceitação, por não me enxergar mais bonita com o cabelo alisado.”

Luyla teve queda severa dos cabelos após o uso recorrentes de tranças – Imagem: Arquivo Pessoal

E funcionou. A jovem redescobriu sua autoestima nas tranças. O que não esperava era que o processo pudesse fragilizar tanto seus cabelos, e, sem os devidos cuidados, se tornar tão prejudicial para sua saúde capilar.

Em 2020, depois de cinco anos fazendo uso constante do penteado, começou a apresentar uma queda de cabelo severa. Ela conta que chegaram a ficar duas entradas completamente sem fios no couro cabeludo na região próxima à testa. Ao ponto que da última vez que foi à uma trancista, foi preciso amarrar a parte da frente com um tipo de elástico, já que não tinha cabelo suficiente para trançar.

“Eu não aceitava meu cabelo natural então buscava qualquer oportunidade para trançar. Já teve tempo de eu tirar a trança numa sexta, lavar o cabelo no sábado e começar a trançar de novo no domingo porque eu não conseguia ficar sem”, relata.

Para Luyla, o que provocou a queda dos cabelos, além da frequência e do penteado apertado, foi o fato de não cuidar ou hidratar os fios nos intervalos entre as colocações, o deixando frágil. “Meu cabelo ficou com o couro cabeludo tão esticado que criou várias bolinhas. Eu cheguei a passar gel de arnica para parar de arder, porque eu tomava remédio e não resolvia, e só piorou a queda de cabelo”, lembra. “Ele só está se recuperando agora”.

Depois das quedas de cabelo, em julho de 2020, foram apenas três meses longe das tranças. “Gera realmente uma dependência da autoestima”, lamenta. Hoje, depois de conseguir desapegar por um ano, em um processo gradual, a estudante já está exibindo o penteado novamente.

Cuidados

A biomédica esteta com mais de 10 anos de atuação, especialista em pele preta, Jéssica Magalhães, aponta os cuidados para que a colocação das tranças seja realizada de modo a minimizar possíveis prejuízos ao couro cabeludo.

A biomédica Jéssica Magalhães é especialista no assunto e passa algumas recomendações para evitar os problemas gerados pelo uso de tranças – Imagem: Divulgação

“Primeiro garantir que a raiz do cabelo esteja saudável e limpa no momento de colocação. Nada de trançar onde já existe atividade de dermatite, psoríase ou alguma outra condição semelhante”, explica.

Além disso, destaca a necessidade da profissional ter alguns cuidados durante a colocação, para minimizar a tração e a quebra dos fios, já que os cabelos crespos são muito mais frágeis. O uso de tônicos no couro cabeludo também ajuda a conter a inflamação da área.

Uma condição muito comum quando se fala em queda de cabelo é a alopecia de tração, ou seja, a perda generalizada de cabelos decorrente de traumas ou de processos inflamatórios crônicos na raiz do cabelo, geralmente resultante do manuseio incisivo dos fios, como o ato de puxar com força.

“A alopecia de tração é um tipo de perda de cabelos causada pelo puxar excessivo. Então penteados que puxam muito o cabelo podem causar uma inflamação na raiz que, caso não tratada, pode matar a origem dos fios. Uma vez que isso ocorra, não haverá mais crescimento de cabelo na região”, ressalta a especialista.

Trancistas têm papel fundamental

Quando enfrentou esses problemas com seu cabelo, Luyla conta que não procurou nenhuma casa de cabelereiro ou especialista. Apenas retomou os cuidados que mantinha antes de dar início ao uso constante de tranças, além de seguir recomendações de produtos, óleos e hidratações indicadas por amigas.

Mas, o ideal, acredita, era que tivesse acesso a informações como as causas da alopecia de tração, por meio das próprias trancistas. “Nunca soube que o fato de puxar bastante o cabelo poderia provocar isso. Observava que faziam por conta da durabilidade das tranças”, completa.

Sobre isso, Jéssica reforça a importância das profissionais tanto nos cuidados de manuseio, quanto na identificação e orientação das clientes. “As profissionais da área precisam de mais orientações sobre a força colocada durante o processo. Isso porque é algo ancestral, elas não querem causar a perda de cabelo, apenas não foram instruídas que seria possível e como fazer”, pondera.

Além da força colocada durante o procedimento, há a necessidade de respeitar intervalo entre as colocações, não utilizar a remarcação anterior para recolocação (puxando sempre os mesmos lugares com maior intensidade).

É válido ressaltar que os homens também estão sujeitos a alopecia de tração e decorrente queda de cabelo, sobretudo dada a popularidade das tranças e dreads nesse público. “Não é uma questão de gênero. Vemos mais mulheres acometidas porque são as que mais frequentemente utilizam desses penteados apertados, mas nada impede que homens também desenvolvam essa alopecia”, conclui a especialista.