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Designer gráfico cria HQ sobre jovens negros da periferia que encontram no jazz uma saída para lidar com a violência e o racismo

Quebrada Jazz é o título de um HQ independente que narra o cotidiano de dois jovens negros da periferia de São Paulo: Renato e Ícaro. Renato é apaixonado pela música jazz e pelo seu trompete deixado de herança por seu pai também músico.

A obra está disponível gratuitamente para download, mas para garantir versões impressas e realizar um lançamento oficial, Felipe Oliveira abriu uma vaquinha online

Por Andressa Franco

Imagem: Divulgação

Quebrada Jazz é o título de um HQ independente que narra o cotidiano de dois jovens negros da periferia de São Paulo: Renato e Ícaro. Renato é apaixonado pela música jazz e pelo seu trompete deixado de herança por seu pai também músico. Ícaro é um estudante que vive com sua mãe, e tem uma vida conturbada pela violência cotidiana da capital paulista.

Maravilhado pelo som do trompete de seu amigo, Ícaro também se envolve com a música, e isso lhe traz uma nova perspectiva de vida, mesmo lidando com as mazelas do racismo. “A história trata sobre depressão e sua ligação com a questão racial, jovens negros que precisam encontrar um norte para fugir de tudo que a sociedade empurra em suas vidas, e na música jazz eles encontram essa esperança de seguir em frente.”, explica o autor do projeto, Felipe Oliveira, de 33 anos.

Hoje, a obra está disponível gratuitamente para download, mas para garantir versões impressas do material de 68 páginas e realizar um lançamento oficial, Felipe abriu uma vaquinha online. A meta é arrecadar R$ 3.200, e é possível contribuir até o dia 5 de dezembro.

A relação com as HQs

Morador da periferia do Grajaú, extremo sul de São Paulo (SP), o designer trabalha com direção de arte em agência de publicidade. O interesse por desenho existe desde criança, e por um período trabalhou com ilustração digital, quando criou a marca Camada AFRO. O perfil nas redes sociais publica ilustrações digitais e grafittis com influências africanas e cultura negra e afro-americana.

Mas foi só depois de participar de um curso de HQ, que lhe despertou a vontade de criar uma HQ que falasse sobre a realidade de jovens negros da periferia, e que também tivesse ligação com a música, já que Felipe também é músico. “Como também estudei jazz, veio muito forte essa ideia. Assim, eu juntei as duas coisas para contar essa história.”

Felipe Oliveira é designer gráfico, diretor de arte e autor do HQ Quebrada Jazz – (Imagem: Arquivo Pessoal)

Depois do curso, o ilustrador passou a mergulhar ainda mais no universo das HQs e da ilustração, encontrando inspiração em quadrinistas premiados como Marcelo D’Salete, que já recebeu o Prêmio Jabuti de Histórias em Quadrinho. Suas obras mais aclamadas tratam da história da resistência à escravidão no Brasil pela ótica dos povos negros.

“Eu quis trazer o jazz de volta pra periferia”

Surgido entre o fim do século XIX e o início do século XX em Nova Orleans nos Estados Unidos, o jazz chegou na América com mais de meio milhão de escravizados vindos da África. E apesar de hoje não ser incomum que o ritmo seja interpretado por artistas brancos, foi alvo de muito preconceito.

“Eu quis trazer a relação com o jazz porque é uma música periférica, nasceu da cultura negra, representava resistência. E hoje, por mais bizarro que seja, é visto como uma música elitista, praticamente branca. Então eu quis trazer o jazz de volta pra periferia.”

Depressão e juventude negra

Como o trabalho de produção do HQ foi 100% independente, Felipe não conseguiu promover um lançamento oficial. Mas fez sua própria divulgação, por meio dos amigos, e das redes sociais. Como não tem dinheiro para custear totalmente as publicações impressas para o lançamento, tem expectativa de que o sonho de ver a história de Renato e Ícaro no papel se concretize através do financiamento coletivo.

Jovens esses que têm 45% mais riscos de desenvolver depressão do que jovens brancos, assim como também há uma probabilidade maior de suicídio neste grupo. Nos últimos anos, o perfil das pessoas que mais cometeram suicídio no Brasil, é o de jovem negro com idade até 29 anos. Os dados são da pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde em 2019, e que alerta para os fatores que contribuem para esse quadro, como o sofrimento psíquico oriundo do racismo estrutural.

Já dados do Fórum Brasileiro de Segurança mostram que 78,9% dos brasileiros mortos por intervenção policial em 2020 eram negros. A taxa de letalidade em operações policiais é 2,8 vezes maior entre negros do que entre brancos. São Paulo aparece em segundo lugar no ranking de cidades com mais mortes por intervenção policial, com 390 mortes, sendo 65,4% de negros.

“A história mostra a violência cotidiana que eles [Ricardo e Ícaro] viveram. Você vai guardando tantas dores e frustrações, que gera essas doenças mentais. E apesar disso, eles encontraram uma perspectiva melhor a partir da música, como uma válvula de escape desse sistema”, finaliza Felipe.

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