Apesar de celebrada há 22 anos, a data ainda não emplacou, e a letra B da sigla continua buscando espaço dentro e fora da comunidade LGBT

Por Andressa Franco, com contribuições de Patrícia Rosa

A bissexualidade ainda é cercada de tabus, estigmas e preconceitos. Em uma sociedade culturalmente heteronormativa e cercada pela lógica do monossexismo, ou seja, a crença de que o indivíduo só pode se envolver emocional e sexualmente com um gênero, a bissexualidade é invisibilizada. Em vista de contornar essa invisibilidade, falar de diversidade e levantar o debate, que no dia 23 de setembro de 1999, ativistas estadunidenses criaram o Dia da Visibilidade Bissexual.

“Esse dia pra mim é importante porque é uma data política, uma data de resistência, de afirmação, de luta e também é uma data que a gente, de certa forma, cobra que os outros movimentos também apoiem as nossas lutas e que a gente ganhe visibilidade e espaços”, define a ativista e estudante de Ciências Sociais Ana Paula Rosário, de 26 anos, que assumiu sua orientação sexual aos 20. A estudante é de Itabuna, e vive em Salvador desde os 16 anos.

Imagem: Arquivo Pessoal (Foto tirada antes da pandemia)

A data é uma referência ao aniversário da morte do psicanalista Sigmund Freud, um dos pioneiros na discussão sobre a bissexualidade. O 23 de setembro foi instituído na 22ª Conferência da ILGA (International Lesbian and Gay Association), como o Dia da Visibilidade Bissexual.

Mas o que mudou de 1999 até aqui? Para Paulinha, como também é conhecida Ana Paula, os esforços para articular espaços que tragam a bissexualidade como um fator central e político ainda passam por muita resistência fora da comunidade LGBTQIAP+, mas dentro também. 

“É muito triste que a gente tenha que ter esse movimento de denunciar alguns espaços LGBT’s que não aceitam a bissexualidade, não conseguem pensar esse corpo bissexual fora da nossa caixinha de militância”, desabafa Ana Paula. “Existem bissexuais pretas, indígenas, travestis, que são atravessadas pelos impactos do racismo, da exclusão social, da vulnerabilidade, do fetichismo, da sexualização dos nossos corpos, e muitas vezes isso não é discutido”.

Movimento Organizado

Especificamente no Brasil, um dos coletivos que mais articulou e articula pessoas bissexuais, é o Bi-Sides, que desde 2010 milita e cria bases para o movimento bissexual no país. Começou como um blog, na tentativa de dar o pontapé inicial na produção de conteúdos nacionais “de bi para bi” em português, já que tudo que havia era estrangeiro.

Apesar de o assunto não ser mais uma novidade, como explica a própria Ana Paula, os avanços caminham a passos lentos. O Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais, o Senalesbi, se chamava Senale até 2016, excluindo as pessoas bissexuais. “A gente construiu esses anos todos o Senale, para que, depois de muita briga, fosse reconhecida a participação das mulheres bissexuais nesses espaços. Eu não posso dizer que é uma luta de agora porque a gente já esteve em várias lutas, só que não tem o reconhecimento”, pontua.

A ativista explica que, desde que as mulheres começaram a se organizar dentro do movimento feminista, já se existe o debate sobre bissexualidade. “Nas década de 60 e 70, as mulheres negras, a partir dessa articulação do movimento pela consciência negra, também entram no debate da sexualidade, não só trazendo a bissexualidade, mas a lesbianidade. Então quando a gente vê todos esses movimentos, a gente entende que sim, nós participamos da história”.

No entanto, foi apenas em sua 10ª edição, que aconteceu em 2018 na capital baiana, que o Senalesbi teve sua primeira roda de mulheres bissexuais. Mas, Ana Paula lembra o quanto houve resistência do público com a atividade, e como o evento gerou momentos de frustração e desgaste. O encontro reuniu em torno de 200 mulheres de diversos estados, e estando na organização do evento ela ouviu frases como “bissexuais não são de confiança”, “as bissexuais nem deveriam estar aqui”, “mulheres lésbicas não podem namorar bissexuais”.

Roda de Conversa sobre bissexualidade no Senalasbi – 2018 em Salvador – Imagem: Arquivo Pessoal

“Pra mim uma pessoa que chega para uma mulher negra e fala: ‘você não merece que as pessoas se relacionem com você porque você é bissexual’, não compreende os impactos do racismo, da solidão da mulher negra, das várias negações que ocorrem pra gente desde a infância. Acho inclusive que o movimento bissexual tem o déficit de não discutir os impactos do racismo para pessoas bissexuais negras e indígenas”, afirma.

Quem conhece bem os questionamentos de Paulinha, é a soteropolitana Érica Capinan. Mulher negra, bissexual, ativista, feminista, de matriz africana, integrante da Liga Brasileira de Lésbicas e mulheres bissexuais e pedagoga. Érica é diretora no Departamento de Políticas LGBT na Prefeitura de Lauro de Freitas, e há 11 anos vive um relacionamento com outra mulher.

“Ainda é um tabu por parte de algumas mulheres lésbicas se relacionarem com bissexuais, não é uma denúncia, mas uma reflexão. Já ouvi em rodas de diálogo e em formação política ‘mas você tem 11 anos vivendo uma relação lésbica, e nesses últimos 10 anos eu não vi você com nenhum homem, você ainda é bissexual?’, ‘você não é mais bi, você já passou da fase de indecisão’. Ninguém ama por decreto, goza por decreto, é feliz por decreto. O que vale é ser feliz naquilo que você se reconhece”, defende.

Érica Capinan. Mulher negra, bissexual, ativista, feminista,
de matriz africana, integrante da Liga Brasileira de Lésbicas

Invisibilidade

Setembro abriga, além do Dia da Visibilidade Bissexual, as pautas do Setembro Amarelo, de enfrentamento ao suicídio, além do Dia do Gordo, que chama atenção para o combate à gordofobia. Nisso, o 23 de setembro ainda não emplacou, e a pauta dos bissexuais muitas vezes não é lembrada.

Quando setembro passa, as mesas que debatem a diversidade sexual nem sempre chamam representantes da letra B da sigla, ou o fazem em número muito menor do que com as demais letras. Assim, ficam adormecidos temas como a hipersexualização das pessoas bi, que com frequência são alvos de convite para “ménage à trois”, a desinformação que faz com que a sociedade ainda veja esse grupo como vetores de doença, e o impacto na autoestima dessas pessoas.

Quanto menos informação, mais difícil é para jovens como Bernardo* (nome fictício), estudante de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia, que viveu no interior do estado até ingressar no curso em 2019. “Eu saí de uma prisão religiosa que limitava o meu autoconhecimento. Na minha casa as questões de sexualidade e gênero sempre foram tratadas com muito rigor. Eu não tinha a oportunidade de quebrar o padrão e ser quem sou, um homem negro e bissexual. A universidade me possibilitou escolher entre continuar dentro do que era correto para religião, ou encontrar a minha orientação sexual e permiti-la”, conta.

Foi na universidade, espaço que considera fundamental em sua vida, que Bernardo ficou com um menino pela primeira vez e, diferente do que teve até aquele momento da sua vida, recebeu apoio dos amigos do curso. Vivendo, pela primeira vez, sua orientação sexual sem julgamentos.

“Ficar com meninas já fazia parte do meu cotidiano, mas eu sempre fui atraído pelos dois gêneros. Eu nasci assim, nunca foi uma questão de escolha. A sexualidade é fluida e jamais vai se limitar a padrões religiosos ou sociais. É uma pena que só descobri isso com 19 anos, e foi necessário uma mudança de cidade para possibilitar isso”.

Acostumado com o racismo que vivencia desde a infância, não demorou a buscar uma instância na faculdade onde pudesse discutir os direitos humanos. Foi quando conseguiu se aceitar e se engajar na militância, escrevendo matérias que pautavam minorias políticas, começou a entender que essas reivindicações também eram dele, e que passaria a enfrentar outro obstáculo: a bifobia. 

Hoje, a maior luta do jovem é em casa. Com medo de perder o suporte familiar, principalmente para conseguir se manter em Salvador, não pretende se assumir tão cedo. “É difícil, é dolorido, mas sinto que quando conquistar minha independência financeira posso ser livre da corda familiar que me sufoca. Uma pena que ainda exista a corda da sociedade, e que em um passo em falso pode tirar a minha vida por ser negro e/ou LGBT”.

Contra toda desinformação e preconceito, Ana Paula sugere que as pessoas bissexuais se motivem a organizar espaços de/para bissexuais, onde possam falar de si mesmos com liberdade e sem censura. “Eu acho que depois que acabar a pandemia, o que a gente tem que fazer principalmente é: festa bissexual, roda bissexual, grupos bissexuais. Porque é assim também que a gente se potencializa, se forma e se informa politicamente”, pontua.

“O que eu deixo para as pessoas é que respeitem. Respeitem pessoas bissexuais, trans, mulheres lésbicas, homens gays, homens bissexuais, respeitem todo mundo e compreendam que a sua existência não define a existência do outro”, finaliza.

*A Fonte optou por não se identificar