Sapaokê e Casa Sankofa usam a criatividade para acolher a comunidade lésbica em sua diversidade

Por Andressa Franco, Brenda Gomes e Patrícia Rosa

Imagem: Joana Bennus

A luta da diversidade de gênero e sexualidade, e existências dissidentes, sempre passou pela necessidade de ocupar espaços. Mas quantas vezes precisamos criar os espaços que não existiam para acolher essa diversidade? Para a comunidade LGBTQIAPN+ como um todo, a busca por espaços seguros sempre foi um desafio. A história que deu origem ao Dia do Orgulho Lésbico reflete um pouco dessa realidade.

No dia 19 de agosto de 1983, mulheres do Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) protagonizaram o Levante ao Ferro’s Bar, em São Paulo (SP), que ficou conhecido como “pequeno Stonewall brasileiro”. Em um contexto de ditadura militar, o bar era muito frequentado por toda comunidade LGBT, no entanto, algumas ativistas lésbicas foram agressivamente proibidas de vender os folhetos do periódico independente “Chana com Chana” no local.

Em resposta, organizaram um levante para tomar o estabelecimento em um protesto contra a lesbofobia. Somaram-se outros grupos LGBT, feministas e figuras políticas. Na ocasião, elas leram o manifesto contra a repressão e pelos direitos das mulheres lésbicas. A iniciativa resultou em pedido de desculpas e liberação da venda dos panfletos. 

Levante ao Ferro’s Bar, em São Paulo (SP) – Imagem: Acervo Folha de São Paulo

40 anos depois, as mulheres lésbicas continuam em busca de lugares seguros para se expressar. Em 1996, no Brasil, o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE) deu origem ao Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado no dia 29 de agosto.

Em Salvador (BA), há apenas quatro meses, as cantoras Lua e Thaísa do Brega decidiram operar um karaokê exclusivamente para mulheres, uma iniciativa que surgiu devido ao amor pela música, que é comum nas duas idealizadoras: o “Sapaokê”.

Lua, que é nativa da Costa do Dendê (BA), transferiu o curso da faculdade de Direito para Salvador em meio à pandemia de Covid-19. Na capital, a jovem de 26 anos também queria tentar a sorte movimentando a carreira enquanto artista. Com o fim da crise sanitária, voltou a fazer apresentações, integrou grupos musicais, até que um amigo contou de um bar e espaço cultural “A Marujada”.

“Na época ele não tinha som, era uma caixa fodida e um microfone fuleiro. Isso aqui hoje o tesão do tesão, e a gente foi construindo junto. Essas caixas são novas, microfone sem fio, já tá diferente”, lembra Lua. O evento foi inaugurado no dia 8 de março, pouco tempo depois de começar a morar com a amiga Thaísa. “Eu falei pra ela: bora fazer alguma coisa pras sapatão. Eu estava na vontade de construir, mas não tinha coragem de ir sozinha”, Lua completa.

Thaísa tem 29 anos e é natural de Cruz das Almas, no recôncavo baiano. Morando na capital desde 2010, ela sempre sentiu falta de um lugar seguro para garantir diversão ao público sapatão.

“O sapaokê só tomou a dimensão que tem hoje porque existia essa demanda para toda mulher sapatão, bi ou até hétero que só queria ficar no rolê com as amigas sem ser assediada. A gente tem a TV de Lua, caixas de som e a vontade das mulheres de num lugar que só entra mulher”, ressalta.

Lua e Thaísa do Brega – Imagem: Joana Bennus

No início, o espaço recebia homens, gays, héteros, aliados. Mas decidir pela exclusividade foi necessário. “Acontecia muito de homens gays tomarem o protagonismo. Queriam cantar cinco músicas, pegar o microfone na mão das meninas. Desde o início, a ideia do sapaokê era um rolê de protagonismo sapatão.”, explica Thaísa.

Quem já foi no evento, provavelmente já ouviu o chamado de Thaísa para pôr o nome na prancheta para cantar: “Atenção sapatonas, a lista está aberta para cantar”, “Aqui não é The Voice, aqui é Sapaokê” são alguns dos bordões. “Uma mulher foi contando pra outra até o dia que a gente botou 220 mulheres aqui dentro e tivemos que fechar a portaria!”, brinca.

Para as cantoras, o Sapaokê também é um incentivo à retomada da ressocialização pós pandemia. “Outro dia foi muito fofo porque chegou um menino que comprou uma entrada pra amiga. Ela desceu, sentou na escada e ficou três horas esperando. Ele contou que ela atravessou processos de depressão, e estava há dias sem sair de casa. E ele achou que aqui ela poderia se sentir acolhida”, relata Lua.

Mas nem sempre esse entendimento fica claro. Não é incomum que homens apareçam na portaria apenas para fazer comentários inconvenientes e questionar a existência de um espaço exclusivo para mulheres. As sócias contam que já houve até mesmo uma tentativa de invasão, rapidamente contida.

Sapokê – Imagem: Joana Bennus

Hoje, a iniciativa tem sido considerada pela dupla como trabalho que tem fortalecido outras profissionais, e dado para pagar algumas contas. “O Sapaokê hoje paga nosso aluguel”, brincam. Mas ainda com os pés no chão, e as experiências de outras iniciativas é um dos motivos.

“A gente tem referência de espaço onde mulheres lésbicas se concentravam, como o Beco dos Artistas. Mas não se sustentou, morreu. Por conta da violência que a gente já conhece. Temos medo de que isso aconteça aqui”, lamenta Lua.

Adriele do Carmo, de 27 anos, é uma frequentadora assídua do Sapokê. Ela estava na primeira edição do evento, “foi aquela coisa entre amigas, que chamaram outras amigas e a gente teve um espaço tão gostoso”. Pesquisadora de lesbianidade  e cultura negra em Salvador, ela observa a dificuldade de sustentabilidade dos espaços LGBTQIAPN+ geridos por mulheres pretas. O bar Caras e Bocas foi um desses estabelecimentos, que funcionou por dois anos na Avenida Carlos Gomes, em Salvador, e foi alvo de ataques e violências.

“Fechou porque sofreram vários ataques, jogaram pedras, bateram, e os outros bares do lado, que eram gays, como o Âncora do Marujo, fez 23 anos. O espaço sapatão não consegue se manter por dois. Você até pode ser sapatão, mas se você é assumida e quer ter visibilidade, o ataque vai ser ainda maior”, lamenta Adriele.

Adriele do Carmo, de 27 anos, é uma frequentadora assídua do Sapokê – Imagem: Joana Bennus

Apesar dos desafios, o otimismo tem sido a palavra de ordem para projetar o futuro. “Ficamos tanto na luta, que nos tiram o direito de nos divertir, beijar na boca”, pontua Lua. Ela e Thaísa pretendem ampliar a equipe, vislumbrar outras modalidades de entretenimento sapatão, e oferecer ao público o que elas sempre buscaram e não escontraram: espaços sociais divertidos e seguros para lésbicas. “A gente tem recebido um público bem jovem, começamos até a cobrar identidade. A gente também pensa em como o Sapaokê impacta numa geração mais nova. Em não só lutar pela lesbianidade, mas celebrá-la”, finaliza Thaísa.

A CASA SANKOFA

Há cerca de dois meses, nasceu em Salvador a Casa Sankofa, localizada no bairro Dois de Julho. Esse empreendimento familiar pertence às sócias Antônia Oliveira,  Luana Nascimento e Thais Nascimento. O Sankofa é resultado da combinação da experiência das irmãs Thaís e Luana em um empreendimento anterior chamado “Bar das Pretas”, com a bagagem empreendedora da mãe, Dona Antônia.

A ideia para o bar surgiu após o fechamento do antigo estabelecimento. Thaís, que já era sócia, e Luana, que trabalhava como gerente, decidiram dar continuidade ao negócio. O nome “Sankofa” reflete a história do bar, incorporando a ideia de aplicar todo o aprendizado do bar anterior.

Luana Nascimento, Antônia Oliveira e Thaís Nascimento – Imagem: Brenda Gomes

Luana, de 28 anos, conta que os desafios são diários. Enquanto mulher negra e lésbica, ela afirma que a presença delas intimida algumas pessoas na vizinhança, principalmente homens brancos que têm seus negócios na região. No entanto, elas demonstram resiliência e habilidade em lidar com essas situações. 

“As pessoas que querem deixar os seus carros aqui na porta, a maioria são homens brancos, que tem seus comércios mais adiante,  e aí quando você senta para conversar com eles, não curtem muito a ideia. É um pouco intimidador às vezes, mas como eu sou uma mulher negra, vinda da Suburbana, sei muito bem lidar com isso e tenho conseguido levar adiante. Eu posso  sentar com a minha namorada e o medo de sofrer algum tipo de agressão não existe.”, declara Luana. 

Apesar dos desafios, Luana fala com alegria da proposta do bar que tem como foco ser um local de encontro para a comunidade negra e, em especial, ser um lugar de segurança e acolhimento para os clientes da comunidade LGBTQIA+.

“Nosso atendimento é muito humanizado e pensado estrategicamente para atender nosso povo muito bem. Priorizamos a contratação e prestação de serviço de profissionais negros e da comunidade LGBTQIA+, isso faz diferença na atmosfera no nosso espaço, é algo que você pode sentir literalmente ao chegar aqui. É um espaço onde as pessoas são bem vindas”.

Luana enfatiza que é recompensador ver as pessoas surpresas e satisfeitas com o  atendimento dos funcionários, do cardápio e da cerveja “estupidamente gelada, com veuzinho de noiva” da casa Sankofa. 

A publicitária e também sócia do Sankofa, Thais Nascimento, 30, também aborda a importância de proporcionar um local seguro e inclusivo para diversão e encontros afetivos, ou para as pessoas estarem sozinhas. 

“Em já fui em  vários lugares e queria tomar uma cerveja sozinha e não tinha paz, era homem me  incomodando,  alguém achando que eu estava triste e às vezes eu só queria curtir meu rolê, eu sinto falta desses lugares em Salvador. Eu sou uma mulher bissexual, Luana é uma mulher lésbica. A gente sempre pensou em um espaço onde pessoas como a gente se sentissem seguras. Pois são as pessoas que mais ficam a margem de ter um lugar seguro para se divertir, pra ter um date, para beijar na boca à vontade.”

A Casa Sankofa funciona de terça-feira à domingo. O cardápio é composto de drinks e petiscos com nomes que fazem referência a cultura africana, os horários de funcionamento e atrações podem ser conferidos através das redes sociais.