Artistas musicais, visuais e das palavras criticam os estereótipos e desafios para se consolidar no mercado

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

Estereótipo ou não, a relação entre a comunidade LGBTQIAP+ e as diversas expressões artísticas é algo presente nos nossos imaginários. Mas, isso não é por acaso, a arte em sua diversidade é uma das estratégias, se não a principal ferramenta, para reconstruir imaginários e preconceitos direcionados à essa população. Além disso, continua se tratando de um mercado e uma fonte de renda para muitas pessoas, o que também significa que nem tudo são flores nesse caminho. Nessa Semana do Orgulho, ouvimos artistas LGBTQIAP+ sobre os desafios e alegrias da escolha de exercer suas vocações. 

Hiran: de Alagoinhas para o mundo

A música é uma das expressões artísticas com maior alcance no mundo, com artistas e gêneros para todos os gostos. Um desses gêneros despontou entre os afro-americanos na década de 1970, e alcançou o jovem de 27 anos, Hiran, em Alagoinhas, interior da Bahia.

No seu primeiro álbum, “Tem Mana no Rap”, de 2018, ele já dava a letra: “Também sou do rap, sou do meu jeito. Seu preconceito, eu não aceito. Entro na cena, exijo respeito”. De lá pra cá, o alagoinhense foi apadrinhado por Caetano Veloso, e já dividiu palcos com Ludmilla, Duda Beat, Larissa Luz, Baiana System, Daniela Mercury e Psirico e Ivete Sangalo.

Imagem: Arquivo Pessoal

O artista tem muita clareza de que a arte é a estratégia “mais potente” de resistência para recriar imaginários sobre pessoas LGBTQIA+. “Quando esperamos a galera que está no poder tomar as rédeas da parada e fazer a mudança, a gente caminha a passos lentos e termina se frustrando.”

Ele não esconde sua frustração com os estereótipos, e já reafirmou que, sim, é gay, mas o que quer é ser reconhecido como um grande artista. Ponto. “Só vou me sentir encaixado no cenário quando minha sexualidade não for uma pauta”. O que não significa que vai deixar de apontar as incoerências do mercado em que atua. “Quando um festival de rap coloca um ou dois artistas LGBT num line-up de 60, a mensagem que está me dando não é de inclusão.” 

Hiran está prestes a dar início a uma turnê pela Europa, com seu novo álbum, “Jaqueira”, onde troca o rap por voz e violão. “Ninguém estava esperando isso, nem eu mesmo”. Se permitir explorar outras formas de expressar sua arte faz parte do pacto que tem consigo mesmo de se esquivar da ansiedade que vem com o mercado em que atua. “Eu tento fazer a música pela música, passar uma mensagem. Eu respeitei muito o processo que me fez chegar até esse disco mesmo não sendo a coisa mais comercial ou tiktoker a ser feita.”

O artista tem o pé no chão, e as raízes são parte de quem é. “Não vivo no meio de artistas, meus amigos são os mesmos de sempre. Passo boa parte do tempo em Alagoinhas”. O rapper conta que, além de conhecer seus ídolos, a maior alegria da carreira é ver que nos shows todos sabem cantar suas letras, inclusive fora do país. “Muitas vezes o que te machucou, salva outra pessoa. Encontrei pessoas que se identificavam com minha música em Amsterdam. Nunca nem pensei que seria possível chegar lá.”

Louise Queiroz: “A arte LGBTQIAP+ traz à vista nossas presenças indóceis”

Louise Queiroz é soteropolitana, bissexual, escritora e pesquisadora de literatura. Sua produção literária é forte na identidade negra e alicerçada em suas raízes no Candomblé. Ela é autora dos livros Girassóis estendidos na chuva, Kwame: a menina de vento e Água e Gonzo. Para se definir, Louise toma emprestado um verso de Manoel de Barros: “sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito”.

Imagem: Arquivo Pessoal

“Sou dessas escritoras que têm deslumbre pelas palavras. Essa semana tropecei nesse poema e fiquei com ele dançando na ponta da língua, pronto, desaguei aqui. E ser água é muita coisa, né?! Água é imparável”, reflete. A jovem conta que sua maneira de escrever é fruto do seu entorno. “Sou filha de Maria e Antônio, Mona Nkisi do Nzó Amaziinguê Junsara e cresci em uma casa com sete mulheres. Tudo isso potencializa minha palavra.”

A poeta também observa a arte como estratégia para recriar imaginários sobre pessoas LGBTQIAP+. Mas, ressalta que é o corpo o lugar da resistência. “Vejo a arte LGBTQIAP+ como um recurso potente para ampliar e recriar as paisagens. E mais: expandir nossa língua a ponto de golpear essas representações artísticas ocidentais, hegemônicas, estáticas e imaculadas. Trazendo à vista nossas presenças indóceis, fluidas e diversas”, pondera.

Na arte que exerce, revela que as trocas com os leitores são a melhor parte. Em maio, Louise esteve na Festa Literária Internacional de Praia do Forte (FLIPF), onde falou do seu primeiro livro para o público infanto-juvenil: Kwame: a menina de vento e água. No final da mesa, Louise convidou as crianças da plateia para ver a ilustração da personagem pelo celular. “Me vi cercada de crianças e ouvi coisas como: ‘olha, ela é pretinha, parece comigo”, lembra.

Ainda assim, Louise não hesita em cravar que ainda não se vê em um lugar de consolidação. No mercado literário há quase sete anos, destaca a baixa ou nenhuma remuneração. “Muito dificilmente você vai encontrar uma escritora negra LGBTQIAP+ que consegue dispor de todos esses recursos para se doar exclusivamente ao exercício da escrita. Preciso trabalhar com mil e uma outras coisas para pagar minhas contas. Isso é exaustivo”, desabafa.

A filha de Maria e Antônio, porém, não desanima. “Escrever, por si só, já me causa grande alegria. A escrita me faz reconhecer e acreditar nas minhas potências.”

Ani Ganzala: é possível viver de arte?

Ani Ganzala é uma mulher negra, mãe, sapatão, artista visual, aquarelista e grafiteira. A arte nasceu na vida da soteropolitana ainda na infância, nas brincadeiras. Os temas dos seus desenhos passeiam sobre temas ligados ao povo preto, o afeto entre mulheres negras, espiritualidade e ancestralidade. “Eu considero minha arte autobiográfica. Minha relação com minhas mais velhas, nas mulheres de axé, todas têm uma simbologia do afeto com mulheres. Existe uma grande invisibilidade nessas representações.”

Imagem: Arquivo Pessoal

Ganzala é formada em história, e já chegou a se afastar da arte. “De tanto falarem que era impossível viver de arte, eu acreditei. Até o momento que não conseguia mais fazer outra coisa. Eu tinha que me profissionalizar ou estaria falhando comigo.”

Ani conta que a arte possibilita criar outras narrativas de vida, fugindo do imaginário branco e heterossexual. Mas aponta a dificuldade da comunidade LGBTQIA+ em se formalizar no mercado de trabalho. Ela nunca teve a carteira assinada. “Essa é uma realidade para nós, e de alguma forma também nos estimula a procurar trabalhos autônomos.” 

Para ela, as dificuldades para artistas LGBTQIAP+ exporem seu trabalho começa na relação com curadores e donos de galerias brancos, com olhares folclorizados para a arte negra. Além do baixo consumo do público, por ser um mercado “muito nichado”. Assim como Hiran, ela não quer cair nos estereótipos, conhecida por apenas um tipo de arte. “Vem sendo minha luta, porque eu sou uma artista completa”.

Ganzala inaugurou sua Casteliê nos dias 20 e 21 de junho, em Cachoeira (BA). Um espaço onde abriga todo o acervo da artista. Para ela, chegar no recôncavo foi a maneira de nutrir as suas raízes. “Tem sido gigante todo esse processo.”

Magali Moraes – Diagnóstico: artista

Magali Moraes é uma mulher preta e sapatão de Salvador (BA). Conhecida como Maga, tem 38 anos, e há uma década a fotografia, que antes era um hobby, se tornou sua profissão.

Imagem: Arquivo Pessoal

Formada em Direito, estava insatisfeita com seu emprego, sentia sua criatividade engessada. O diagnóstico de um nódulo na tireóide fez ela repensar as prioridades. “Eu achei que ia morrer e a minha ex-esposa me perguntou como eu me imaginava em 10 anos, eu respondi que no mesmo lugar, reclamando e ganhando mais. O nódulo era benigno, mas foi o que me fez abrir os olhos para ser feliz.”

Na nova carreira, Magalí já trabalhou com o Olodum e fotografou nomes como Carlinhos Brown, Tia Má, Rita Batista, Maroon 5, Nanda Costa, entre outros. Em 2019, recebeu o Troféu Ujamaa, uma homenagem do bloco afro Olodum a um conjunto de personalidades que contribuem para a defesa, preservação e promoção da cultura e das tradições afro-brasileiras. 

“Para transformar o mundo eu não preciso fazer coisas grandes. Consigo fazer uma microrrevolução através das pequenas mudanças que faço no mundo de cada pessoa que passa pelas minhas lentes”. Apesar do sucesso no ramo fotográfico, ela destaca as dificuldades de lidar com um mercado masculino e branco. “Você precisa entregar um bom trabalho enquanto lida com o preconceito.” 

Em 2020, durante a pandemia da Covid-19, ela lançou um curso de fotografia pelo celular, com bolsas para mulheres negras, que não pudessem pagar. A iniciativa alcançou centenas de pessoas. Magalí reconhece que uma das conquistas foi dialogar com o público: “Eu sou um corpo político, uma mulher preta, sapatão, que se deu ao direito de não falar dessas pautas, mas vivê-las e compartilhá-las de forma natural. É minha forma de atingir as pessoas.”

Ziati Comazi: potencializando outros artistas

Ziati Comazi tem a música como pulsão na vida, desde o fazer até o impulsionar outros artistas. O virginiano de 32 anos nasceu em Salvador, e cresceu no bairro do Engenho Velho de Brotas. Em 2020, durante a pandemia, se descobriu enquanto homem trans. “A partir disso um vulcão entrou em erupção dentro de mim.”

Imagem: Arquivo Pessoal

A música sempre fez parte de sua vida, e gerou uma inquietação com a realidade à sua volta. “Eu percebi que não tinham muitas mulheres negras trabalhando com música, foi aí que eu tive a ideia de criar uma produtora para abraçar as mulheres negras e pessoas trans.”

Em março deste ano, Ziati e a arquiteta e produtora Pita Nice, inauguraram o escritório físico da aceleradora musical “A Nova Estação”. O empreendimento surge da necessidade de acolher, catalogar, incentivar e movimentar a arte musical para esses públicos. “Eu precisei viver a situação para tentar modificar. A produtora transiciona junto comigo.”

Como músico, já tocou com cantoras como Preta Gil, Luedji Luna, Panteras Negras, Larissa Luz e Xênia França. Seu último trabalho nos palcos foi no ano passado com a cantora Majur, com quem atuou como diretor musical e baixista.

Há mais de 10 anos se dedica à carreira de produtor de artistas independentes. “Eu entendi que precisava me dedicar exclusivamente à produção. Eu amo tocar, dirigir, mas sentia que a minha utilidade plena não estava sendo utilizada.”

Apesar das dificuldades do ramo, ele segue com o projeto da “Nova Estação” e tem como as principais alegrias os feedbacks de artistas assistidos. “Às vezes você está no escritório e chega um artista trans que só precisava ouvir uma frase de uma pessoa experiente para mudar o rumo artístico dele, tudo isso é alegria.”