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Disputando narrativas para a transformação social: o papel das mídias independentes na garantia dos direitos humanos

Comunicadoras e ativistas comentam a importância do financiamento para veículos que denunciam violações e ampliam debates democráticos
Arte: Patrícia Rosa

Por Jamile Novaes e Luana Miranda

É possível garantir o cumprimento das diretrizes da Declaração Universal dos Direitos Humanos sem a atuação das mídias independentes? A princípio, essa questão pode parecer até fora de contexto, contudo, é uma indagação pertinente quando se trata do enfrentamento à hegemonia e às injustiças vivenciadas por populações historicamente oprimidas. Sabe-se que os movimentos sociais são a principal via desse enfrentamento, mas quem dá voz aos movimentos para além deles mesmos? 

Entre os dias 9 e 10 de setembro, a Revista Afirmativa esteve em São Paulo (SP) para a Conferência de Direitos Humanos: “A sociedade civil, os desafios do Brasil, a filantropia e os próximos 20 anos”. Durante o evento, realizado pelo Fundo Brasil, com participação de diversas organizações que atuam em defesa dos Direitos Humanos, conversamos com comunicadoras e ativistas sociais sobre o papel da comunicação e das narrativas produzidas pelas mídias independentes no campo das denúncias de violações e garantia de direitos. 

Para Juliana Gonçalves, jornalista e ativista do movimento de mulheres negras de São Paulo, a humanidade vive um momento de guerra de narrativas, e as mídias independentes negras, periféricas, LGBTs, são as que podem fazer o contraponto nessa disputa. “É um instrumento importantíssimo para que a gente consiga não só lançar luz a toda essa construção obscura do ódio, da falta de direitos que a gente vive, mas também trazer essas narrativas possíveis, que vão falar sobre a vida das pessoas no cotidiano.” 

De fato, quando se trata do Brasil, essa discussão ganha outra proporção. O país chegou a ser classificado como o 4º Estado que mais mata ativistas de Direitos Humanos no mundo, segundo o relatório da Anistia Internacional de 2023. Em documento mais recente, referente ao ano de 2025, a organização destaca os altos índices de letalidade policial, chegando a citar o assassinato de 120 jovens em uma operação policial do Rio de Janeiro e o recorde nacional nos casos de feminicídio.

Juliana Brandão, coordenadora de gênero e raça no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que essas violências acometem uma fatia muito específica da população. “Eu estou falando de uma violência que tem o endereçamento certo: a população negra, a população jovem. E quando eu estou falando de violência contra as mulheres, são as mulheres negras que são as maiores vítimas”, refletiu.

Segundo Lola Ferreira, jornalista e também participante da Conferência, os veículos de comunicação têm um papel fundamental para o enfrentamento a essas violências, em especial, a de gênero. Contudo, em muitos casos a mídia tradicional acaba por reproduzir estereótipos ou, até mesmo, revitimizar as mulheres envolvidas. 

“Infelizmente, nesse monte de publicação, há alguns resquícios de práticas jornalísticas que já são combatidas há muito tempo, a hiperssexualização do corpo dessa mulher que é vítima, duvidar dos depoimentos… Isso ajuda a moldar como a população enxerga essas mulheres que são vítimas de violência de gênero”, comentou.

Pensar no papel do movimento de mulheres negras em atuação com as mídias independentes, nesse quesito, se torna essencial. As mulheres negras têm operado historicamente como defensoras dos direitos humanos, seja em busca de justiça por seus filhos mortos pelo Estado, de direito à terra e ao território, ou mesmo para se manterem vivas em uma sociedade racista e machista que insiste em as matar. É primordial que esse grupo ocupe espaços de produção de informação para que essas questões possam chegar à população geral de maneira profunda e coerente. Portanto, as mídias feministas negras independentes são por si próprias uma forma de luta contra as desigualdades.

“A gente consegue evidenciar, com a nossa narrativa, como esses direitos são violados e quem são esses agentes violadores e omissos nesse processo. Então, a mídia negra proporciona uma disputa de narrativas que, até então, era impensável no campo da comunicação”, destacou Maryellen Crisóstomo, jornalista e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

Apesar de ter um papel fundamental na garantia e permanência de Direitos Fundamentais, esses modelos de veículos de comunicação enfrentam barreiras financeiras para se manter em atividade. Falar sobre financiamento de mídias feministas negras é pensar em pessoas recebendo salários dignos, com estrutura de trabalho e instrumentos de qualidade. “Você precisa pagar por essa estrutura, e a gente precisa desses aportes para garantir que essas outras perspectivas de Brasil, essas outras narrativas da população brasileira, sejam propostas”, analisa a jornalista. 

Nesse aspecto, Juliana Gonçalves também chama atenção para a preferência pública em injetar recursos em grandes conglomerados de comunicação. Esse movimento, muitas vezes, acaba se somando a discursos antidemocráticos, em vez de colocar esse subsídio em quem de fato está disputando as narrativas dos territórios vulnerabilizados.

“As pessoas muitas vezes perdem essa visão ampla e acham que vão fortalecer uma mídia LGBT e ela só vai falar com pessoas LGBT. Não é verdade! A gente está fortalecendo o campo democrático quando a gente vai construir narrativas que vão contrapor justamente essas narrativas de fim de mundo”, pondera. 

Falar sobre Direitos Humanos é também poder fazer os enfrentamentos a quem não os cumpre, é poder disputar narrativas a respeito de grupos minoritários, territórios explorados e da própria forma de enxergar a vida. E, para além dos movimentos sociais, são as mídias  feministas negras, que historicamente têm feito esse papel. 

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