A advogada do mandato de Jhonatas Monteiro (PSOL) e presidente da Comissão de Direitos Humanos do município, afirma que o Secretário de Prevenção à Violência condicionou a liberação do assessor à saída dos manifestantes do prédio da Prefeitura

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

Imagem: Matheus Araújo

Os professores da rede municipal de educação de Feira de Santana (BA), seguem recebendo ação violenta da guarda municipal no segundo dia da greve da categoria, que foi deflagrada nesta quinta-feira, 31.

Durante os atos da manhã desta sexta-feira (1), os agentes da Guarda Municipal retomaram as agressões contra os manifestantes. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o momento em que os ataques são direcionados a um militante do PSOL, Rafael Moreira, assessor de Jhonatas Monteiro, vereador pelo partido. Segundo o parlamentar, que também foi agredido e chegou a ter um dente quebrado, Rafael foi espancado, algemado e levado pela guarda municipal para um local isolado dentro da prefeitura.

“Não temos notícias e nem acesso a Rafael! É mentira que Rafael agrediu um guarda! Essa é mais uma fake news divulgada pela prefeitura, não acreditem!”, diz o trecho de uma publicação de Monteiro nas redes sociais. O vereador acrescenta que a advogada do mandato e outras advogadas estavam sendo impedidas de entrar na prefeitura para verificar a situação do assessor.

“Eu ouvi várias pessoas que estavam próximas do portão, esperando e fazendo pressão para soltarem os professores, comentando que estavam usando Rafael como ‘moeda de troca’ para que os professores e os manifestantes fossem embora”, afirma John Wesley Costa, de 23 anos, estudante de Letras com Espanhol, que estava presente nos atos.

A informação é reforçada em uma transmissão ao vivo publicada também nas redes do vereador Jhonatas Monteiro. No vídeo, a advogada do mandato, Mariana Rodrigues, que também preside a Comissão de Direitos Humanos do município, afirma que o Secretário de Prevenção à Violência, Major Moacir, condicionou a liberação de Rafael à saída dos manifestantes do prédio da prefeitura. 

VEJA O VÍDEO: 

A Diretora da Associação dos Professores Licenciados do Brasil (APLB-BA), Marlede Oliveira, se pronunciou sobre as agressões sofridas pela categoria. Oliveira afirma que os professores seguem acampados, aguardando uma resposta para dialogar diretamente com o governo municipal. Assim como buscando mais informações sobre a situação de Rafael Moreira.

“Nós continuamos na luta e estamos aguardando a secretária de educação, que ficou de conversar com o prefeito, que ela possa nos ligar para dizer que horas vai acontecer uma audiência para tratar da pauta da categoria. Nesse momento o que  nos  interessa é a pauta dos trabalhadores, pois as escolas estão sem aula, e é preciso que o governo entenda que é  preciso dar uma resposta aos trabalhadores da educação”, pontua.

A Greve

Vídeos divulgados nas redes sociais na noite desta quinta-feira (31), mostram os manifestantes sendo espancados pelos agentes dentro da sede da prefeitura com cassetetes e spray de pimenta. A professora Vivian Nery, que acompanha a manifestação, classifica a ação da guarda como truculenta, e afirma que começou quando os professores e vereadores foram à prefeitura no intuito de dialogar com o prefeito Coulbert Martins (MDB).

“Com a ação truculenta da Guarda Municipal, eles agrediram vereadores, lançaram spray de pimenta, mas os professores seguiram ocupando a prefeitura”, relata a educadora. “Uma classe constituída, na sua grande maioria, por mulheres negras, vimos nossos corpos sendo massacrados pela guarda municipal, eles entraram encapuzados na prefeitura e com cassetetes”.

A categoria iniciou a greve por tempo indeterminado, decretada na manhã desta quinta-feira, com o pedido de direitos como reajuste, salarial de 33,23%, mudança da carga horária de 20 horas para 40 horas de trabalho, reformulação do plano de Carreira, direito à licença prêmio e pecúnia e pagamento integral dos salários. A categoria também denuncia a falta de professores e funcionários, além da escassez de merenda escolar mas unidades. “Ele não quer dar o reajuste para categoria e as condições das escolas são o que a gente já tá careca de saber, o professor tirando o bolso pra fazer educação”, completa Vivan.

Pela primeira vez em uma manifestação, o estudante John Wesley esteve presente nos atos que se seguiram na manhã desta sexta-feira (1). “Acho que existem assuntos que não podemos nos abster e ficar calados. Não poderia, como futuro educador, deixar de marcar presença e mostrar de que lado estava”, comenta.

Em nota publicada nas redes sociais ainda na quinta-feira (31), Colbert comunicou que se reuniu com os professores na noite de quarta-feira (30), e que estava ouvindo as pautas e demandas da categoria. Onde, afirma, se comprometeu a pagar o Piso Nacional dos Professores, conforme recomenda a legislação.

Na nota o prefeito afirma não compactuar com nenhuma forma de violência e desrespeito. Classificando a ação truculenta da guarda municipal como uma “situação isolada”.

Manifestações de apoio aos professores

O caso está tendo ampla repercussão para além da Bahia, e políticos têm se manifestado através das redes sociais em apoio aos professores.

“O que tem sido demonstrado ontem numa data tão simbólica, que a gente diz Ditadura Nunca Mais, é o retorno da ditadura no município de Feira de Santana. As pessoas estão reivindicando mais direitos na perspectiva da educação, regularização de salários, uma melhor qualidade e simplesmente o que aconteceu foi agressão física, agressão verbal”, declarou a vereadora da mandata Pretas Por Salvador (PSOL), Laina Crisóstomo.

O deputado federal do Rio de Janeiro Glauber Braga (PSOL) também prestou solidariedade aos manifestantes, e mandou um recado para o prefeito Colbert. “Qualquer dano físico, qualquer lesão à integridade da saúde desses militantes e do vereador vão estar na responsabilidade do senhor. […] Não à arbitrariedade em Feira de Santana!”.