A organização nasceu durante o I Encontro de mulheres negras da região, que resultou na criação do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Por Andressa Franco

Imagem: Anastácia Flora

No dia 25 de julho de 1992, mulheres negras latino-americanas e caribenhas se reuniram em Santo Domingos, na República Dominicana para denunciar o racismo e o machismo enfrentados por elas. A data do encontro ficou marcada desde então como Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Foi nesse espaço que nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas, que lutou junto à ONU para o reconhecimento da efeméride. A Rede foi criada a partir da inquietação sobre a ausência das mulheres negras dentro do movimento de mulheres e feministas. Conheça a linha do tempo da organização aqui.

O 25 de julho se tornou assim o dia para reivindicar a existência, lutas, contribuições, aspirações e apostas das mulheres negras do continente em todas as áreas. No Brasil, a Lei 1297 de 2014 estabelece também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Nesse 25 de julho, a Afirmativa conversou com Caren Paola Yañez Inofuentes, Coordenadora Geral da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas, com sede na Bolívia. Ela explica os desafios da região, avalia o desenvolvimento das organizações de mulheres negras e a importância de debater reparação.

Revista Afirmativa: Pode começar contando um pouco da sua história e como o ativismo em defesa das mulheres negras chegou na sua vida?

Paola Yañez: A primeira organização afro-boliviana foi criada em 1988. Venho de uma família afro-boliviana muito ativa no movimento afro-boliviano. Ao longo da minha vida sempre ouvi meus tios, primos e primas falarem sobre as atividades que realizaram. Aos poucos fui participando das atividades do Movimento Cultural Afro-Boliviano Saya, até me tornar uma militante ativa. Nos encontramos todos os domingos no quintal do Museu Tambo Quirquincho em La Paz. Nossas reflexões foram focadas em falar sobre o contexto, a exclusão do povo afro-boliviano. Ao longo do tempo começamos a ter reflexões sobre gênero, identidade de gênero e questões geracionais. Nos articulamos com outros movimentos sociais, com o início da Assembleia Constituinte na Bolívia (2006 – 2009), essas articulações tornaram-se alianças estratégicas. O Centro Afro-Boliviano de Desenvolvimento Integral e Comunitário e o Movimento Cultural Afro-Boliviano Saya conduziram todo o processo de advocacy do povo afro-boliviano pelo reconhecimento constitucional, de maneira particular na vida das mulheres. A aliança com o movimento de mulheres resultou em uma agenda comum de gênero, então percebi que quando se fala em “mulher” como um assunto universal, nem sempre a situação é abordada ou são propostas soluções para as necessidades das mulheres. Minha militância em defesa das mulheres negras começa nesse período, a partir da consciência de que o racismo determina as hierarquias de gênero na sociedade.

R.A.: Na América Latina e no Caribe, 200 milhões de pessoas se identificam como afrodescendentes, de acordo com a Associação Mujeres Afro. É o grupo populacional que mais sofre com a pobreza. Também é na América Latina e no Caribe que estão localizados 15 dos 25 países com os maiores índices de feminicídio do mundo. Quais os principais desafios enfrentados hoje na região para construir o ativismo organizado e reivindicar nossas demandas e agendas políticas?

P.Y.: Verificamos que apesar dos avanços que ocorreram nas últimas décadas em termos de garantia de direitos, a raça ainda existe como resultado de processos históricos e socioculturais sendo fator fundamental em sociedades onde a cor da pele e gênero são determinantes para a distribuição do bem-estar entre indivíduos e grupos sociais. A América Latina e o Caribe é a região mais desigual do mundo. Apesar disso, a negação da existência do racismo é outra das características da região que atribui a miscigenação como identidade e evita qualquer diálogo que busque reconhecer e responder ao racismo como eixo estruturante da desigualdade. Nesse contexto, o relatório do Alto Comissariado sobre a brutalidade policial contém uma agenda de quatro pontos destinada a acabar com o racismo sistêmico e as violações da lei internacional de direitos. No documento, o Alto Comissário insta os Estados e o Conselho de Direitos Humanos a: reverter culturas de negação e início do desmantelamento do racismo sistêmico; pôr um fim na impunidade e remediar o déficit de confiança; escutar as vozes de afrodescendentes e fazer frente a legados e tomar medidas especiais de responsabilização e reparação.

R.A.: Há 31 anos, o dia 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha. Quais os impactos de termos uma data que chame atenção para essas reivindicações no decorrer dessas décadas?

P.Y.: A data tem um valor histórico e político para nós, não é uma data que nos foi dada, mas uma data que adotamos como nosso dia. Observamos que ao longo dos anos houve uma apropriação do Dia da Mulher Afro-Latino-Americana, Afro-Caribenha e da Diáspora, sendo uma data importante para abordar a situação da mulher negra no continente. Para a Rede é uma data também para avaliar nosso trabalho e desafios.

Imagem: Reprodução ONU Mulheres

R.A.: Como avalia o desenvolvimento dos coletivos e organizações de mulheres afrolatinoamericanas e afrocaribeñas nesse período? Quais potencialidades a Rede observa que foram reveladas e desenvolvidas?

P.Y.: Tornar visível o racismo nas sociedades latino-americanas e caribenhas tem sido a árdua tarefa que as organizações de mulheres afrodescendentes têm assumido com mais força. É a militância ativa das mulheres afrodescendentes que tem alcançado os maiores avanços no reconhecimento dos afrodescendentes como sujeitos de direitos com instrumentos jurídicos internacionais e nacionais a partir das negociações com os Estados, do sistema internacional, da produção de provas, ativa incidência, articulação com outros movimentos sociais, produção literária, acadêmica, reprodução de saberes e tradições ancestrais. Somos nós que enfrentamos o racismo sem hierarquizar as opressões, que refletimos sobre democracia, direitos, bem viver, estado multinacional. É o amplo movimento de mulheres negras que é a força do movimento negro. É da América Latina que pensamos, refletimos, sentimos e projetamos um mundo com justiça social e racial. Nesses 31 anos, a Rede tem conquistado reconhecimento por seu trabalho e capacidade de articulação e incidência, sendo uma referência na busca por justiça racial.

R.A.: No Brasil, construímos o Julho das Pretas. O tema escolhido para 2023 foi Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver. Por que é importante fortalecer o debate sobre reparação na região da América Latina e Caribe?

P.Y.: Falar em reparações é central para o movimento social afrodescendente. É imperativo para o nosso trabalho estabelecer diálogos e uma agenda política que nos permita estabelecer como fazer reparações. Já falávamos sobre as reparações mas só recentemente assumimos como tema central do nosso trabalho. Temos evidências do impacto da escravidão e do colonialismo na vida dos africanos e seus descendentes e como isso tem impactado nas desigualdades que persistem na região.

Imagem: Anastácia Flora

R.A.: Por fim, pensando a partir da sua própria trajetória, de uma mulher jovem que está na coordenação de uma Rede presente em todo o continente, e que foi fundada há décadas por mulheres hoje mais velhas, como percebe a importância da renovação na militância? Quais as estratégias para garantir essa renovação e mobilização de mulheres negras jovens para a continuidade da luta?

P.Y.: Não acredito em renovação, mas sim na continuidade de nossos processos políticos e sociais, que partem do reconhecimento da contribuição de todas as mulheres negras independente de nossa idade. Não consigo conceber meu próprio caminho sem que a maioria me dê a mão, partilhando comigo a sua sabedoria, abrindo caminho aos mais novos, sem o consentimento das minhas irmãs com quem partilho interesses e preocupações geracionais, sem que os mais novos agora venham questionar e caminhar ao lado dos fundadores deste espaço. Eu vejo como importante envolver as jovens nos processos que desenvolvemos, não como um processo de renovação, mas como a importância de suas vozes aqui e agora. Temos a tarefa de pensar nosso espaço como um espaço de mulheres jovens, com mulheres jovens, de mulheres jovens e para mulheres jovens, não um espaço que vai silenciar suas vozes criando uma única categoria de mulheres negras adultas.