A agenda de incidência política foi criada pelo Instituto Odara, na Bahia. Com os anos, adquiriu ampla adesão dos movimentos de mulheres da região Nordeste, Amazônia e expandiu para todo o Brasil.

Por Andressa Franco*

Imagem: Divulgação

Em 2013, quando o Julho das Pretas teve sua primeira edição, a programação apresentava cerca de 35 atividades, todas em municípios da Bahia, onde a agenda foi criada pelo Odara – Instituto da Mulher Negra. Com o passar dos anos, adquiriu ampla adesão dos movimentos de mulheres pela região Nordeste, Amazônia e se expandiu para todo o Brasil, já tendo realizado agendas inclusive fora do país. Em 2023, a iniciativa completa 10 anos, com o tema Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver. A agenda coletiva da 11ª edição conta com 446 atividades realizadas por 230 organizações de mulheres negras em 20 estados brasileiros e no Distrito Federal.

O Julho das Pretas é uma ação de incidência política e agenda conjunta e propositiva com organizações e movimento de mulheres negras do Brasil, voltada para o fortalecimento da ação política coletiva e autônoma das mulheres negras nas diversas esferas da sociedade. A ação celebra o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina Americana e Caribenha.

Disputa por memória e invisibilização Nordeste e Amazônia

O pioneirismo do movimento de mulheres negras do Nordeste e da Amazônia é inquestionável. Ainda assim, a invisibilização desses territórios é um fator que se soma às práticas de cooptação não só do Julho das Pretas, mas de toda produção intelectual dessas regiões. 

Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Instituto Odara, vivemos um processo histórico no Brasil de apagamento das estratégias, reflexões e contribuições políticas das organizações negras que estejam fora do Sudeste. Não só do ponto de vista do que é produzido, mas também das violações vividas.

“O Sudeste precisa ter como obrigação dar crédito à produção política que saiu desse território, que historicamente é invisibilizado no acesso a recursos, informação e participação em grandes espaços. O Julho é de todas nós, mas é importante reforçar onde e como surgiu essa agenda, que ganhou o Brasil e hoje produz um efeito gigantesco.”

Naiara Leite é coordenadora executiva do Instituto Odara – Imagem: Divulgação

Maria Malcher é quilombola, doutora em Geografia, ativista e liderança do movimento de mulheres negras no Pará. Ela lembra que, em 2021, algumas coordenadorias da prefeitura de Belém passaram a fazer as atividades como se o Julho das Pretas fosse uma pauta governamental.

“A marca pegou e determinados coletivos não têm a percepção em saber por onde a coisa começou. Começou a partir do Odara e se espacializou via Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). Sobretudo, a partir das mobilizações do Nordeste e Amazônia filiadas a AMNB, Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira e Rede de Mulheres Negras do Nordeste”, relembra.

A paraense conta que a adesão ao Julho das Pretas na Amazônia se deu na sua segunda edição, em 2014. Ela é enfática em definir que não pertence à “ala que precisa ser validada por outras regiões. Sempre foi feito por aqui, ações locais e globais de enfrentamento ao racismo”. Mas, não hesita em criticar o discurso de negação de conhecimento sobre as origens da ação. “Não cabe mais. É só dar um Google que você vai no site da AMNB e lá tem um histórico. É mais profundo que isso, é a reprodução do racismo de achar que determinadas ideias do sul global não podem perpassar pelo norte equatorial.”

Maria Malcher é quilombola, doutora em Geografia, ativista e liderança do movimento de mulheres negras no Pará – Imagem: Arquivo Pessoal

“O papel do governo é fazer política pública”

“O Julho das Pretas já nasce com uma perspectiva solidária. Ele não é do Instituto Odara, é do movimento de mulheres negras, que tem lutado por autonomia. E autonomia é criar, projetar e fazer suas ações de incidência sem que elas sejam cooptadas por governos”, explica Naiara Leite, coordenadora executiva do Instituto.

No entanto, diversas prefeituras pelo país têm se apropriado da agenda sem mencionar a origem.

“O ‘Julho das Pretas’ têm como objetivo fortalecer a luta do feminismo negro dando visibilidade às mulheres negras residentes no município”, define a prefeitura de Osasco (SP), que anunciou evento com servidoras públicas, shows e feiras; a prefeitura de Lauro de Freitas (BA) divulgou a promoção de apresentações de vídeos, lives, rodas de conversas e feiras culturais, também tomando para si os créditos da realização da agenda, sem mencionar o movimento de mulheres negras, que a idealizou e construiu; desde 2021; a prefeitura de Niterói realiza o “Ação Mulher” em referência ao Julho das Pretas, também sem explicar suas origens, esse ano com atividades como corte de cabelo, design de sobrancelhas, aferição de pressão arterial, distribuição de mudas de plantas e apresentação de hip hop; também em 2021, a prefeitura de São Francisco do Conde (BA) anunciou que “está rendendo homenagens às mulheres do município no Dia Internacional da Mulher Afro-Latino Americana e Afro-Caribenha, 25 de julho. A ação foi intitulada como ‘Julho das Pretas’”. Já seguiram caminhos semelhantes prefeituras como as de Cruz das Almas (BA), Araraquara (SP), São Paulo (SP), Natal (RN), entre outras.

Naiara ressalta que a deliberação do movimento é de que universidades, sindicatos e toda sociedade civil podem usar a marca do Julho das Pretas, mas não os governos, sob risco de esvaziar o sentido da agenda.

“A estratégia do Julho é incidência, denúncia e fortalecimento da nossa luta. E não é papel do governo fazer atividade, roda de conversa, debate, marcha. É papel do governo fazer política pública; buscar orçamento para que elas cheguem até as mulheres negras; garantir o debate interseccional em todas as agendas de saúde à economia.”

A ativista também chama atenção para o uso da agenda por empresas. Não basta criar uma homenagem, mas instituir políticas para aumentar a presença das mulheres negras nesses espaços, em cargos de chefia, criar políticas de diversidade efetivas e formação em questões raciais.

*Com contribuições de Daiane Oliveira