Por Alane Reis*

Imagem: Valter Campanato/ABr

Recentemente, publicamos aqui na Afirmativa a matéria intitulada: Dependência da autoestima: uso constante de tranças pode agredir os fios e gerar queda de cabelo, escrita por Andressa Franco, tendo como fonte a biomédica Jéssica Magalhães e a estudante universitária Luyla Santana, as três, mulheres negras.

Além de exaltar os diversos penteados da tradicional estética negra, o debate principal do texto versou sobre os cuidados necessários para que o uso constante (ao longo de meses ou anos ininterruptos) das tranças, dreads e afins, não acarretem problemas na saúde em nossos couros cabeludos, a se destacar, a alopecia de tração, muito comum em mulheres negras das várias gerações.

A pauta e o texto, sobretudo o título, dividiu nossas leitoras entre comentários de identificação e críticas. Em maioria, quem se identificou, compartilhou histórias pessoais sobre os riscos e consequências do uso recorrente das tranças (e mega hair’s) feitos sem os devidos cuidados e atenção, ou em pessoas com couros cabeludos e fios mais finos e frágeis; e que sim, refletiram sobre como ao longo de anos estar bem consigo mesmas esteve (ou ainda está) atrelado aos penteados.

Já quem criticou o post, destacadamente trancistas e trançadas, demonstrou incômodo sobre tratar do tema ou como fazê-lo. Muitas chamaram de sensacionalismo, sobretudo por conta do título. A maioria falou sobre o uso saudável das tranças estar diretamente relacionado aos cuidados tomados pelas profissionais e clientes – narrativa que atravessa toda matéria. Outras, ainda, equivocadamente, comentaram sobre as estratégias da branquitude para atacar a estética negra.

Imagem: naloaded.com

Para nós, mulheres negras, qualquer assunto que fale sobre nossa autoestima, formas de construí-la ou sobre como ela foi repetidamente agredida ao longo das nossas vidas, é extremamente delicado. E por isso, destacamos nossas sinceras desculpas a quem se sentiu fragilizada pelo conteúdo, jamais foi nossa intenção, ainda que continuemos acreditando na importância do compartilhamento de experiências e informações sobre a pauta, e os atravessamentos de saúde física e mental da mesma.

Destacamos também nossas sinceras desculpas às trancistas que por algum motivo sentiram que a matéria desqualificava seu ofício, tão lindo e necessário, prática ancestral de cuidado e beleza, de trabalho e subsistência para tantas de nós. Inclusive, assumimos o erro da ausência de uma profissional no quadro de fontes da matéria. 

Aqui celebramos e exaltamos a memória e tradição da estética enquanto política para o povo negro: seja através do Movimento Black Power no Brasil e Estados Unidos a paritr da década de 1960; os penteados e estampas de mundos negros nascidos em torno de Blocos Afros Brasil a fora que vieram depois da fundação do Ilê Ayê, em Salvador (BA), no ano de 1974; seja a partir da radicalidade estética fruto das cenas hip hop nascidas no Brasil a partir das décadas de 1980 e 1990; da irreverência estética, política e sexual de gerações tombamentos, afrofuturistas e marchas de empoderamentos crepos, a partir de 2010, em todo Brasil; seja por nossas experiências pessoais e coletivas, contemporâneas e históricas, de colos calorosos de nossas mães, tias, avós, primas, amigas, vizinhas, que tocaram nossas cabeças em práticas de cuidado e beleza desde a mais tenra infância.

Imagem: iStock

Por essa história que atravessa cada uma das mulheres negras que constroem a Revista Afirmativa e a cada uma de nossas leitoras, pedimos desculpas a quem se sentiu ofendida, mas ressaltamos que o jornalismo que praticamos aqui é radicalmente a favor das narrativas e da informação como exercício de humanidade e cura, a partir da perspectiva de Audre Lorde e seus escritos revolucionários sobre o silêncio não nos proteger de absolutamente nada.

Ao pensar às violências dos padrões de beleza, para nós, não nos restringimos a apontar os danos do racismo, mas queremos nos provocar a pensar como nós reproduzimos também padrões sexistas sobre sermos mulheres negras, ao modo bell hooks no texto fundamental sobre estética e política: Alisando o nosso cabelo.

Já para pensar sobre os impactos do racismo em nossa psiquê e na não reprodução de padrões (já que qualquer padrão enquadra, viola e exclui), convidamos nossas irmãs a refletirem a partir de Neusa Souza Santos, em Tornar-se Negro.

Há tempos pensamos de cá como tratar do tema da alopecia de tração entre mulheres negras, por percebermos como ela se configura como problema comum, ao tempo que é tão silenciado pela delicadeza que incorre – seja nas redes, nos movimentos, ou até em conversas informais entre mulheres que vivem essa experiência. E por isso, nos comprometemos em reverberar a pauta com o cuidado e sinceridade que ela merece, e que nós merecemos. Para tal, convidamos mulheres negras trancistas, médicas dermatologistas, esteticistas, psicólogas e amantes do uso de tranças, box braids, dreadlocks, twists e afins, a compartilharem seus saberes e experiência conosco nesta pauta, em reportagem especial que publicaremos em breve.

Quer colaborar com o assunto? Fala com a gente através deste link aqui e entraremos em contato com você.

A narrativa cura, liberta, informa, garante a existência e os sentidos. E é nesse jornalismo de narrativas livres e úteis que nós acreditamos. De nós para nós.

Somos nós, falando de nós, para todo mundo!

*Alane Reis é Jornalista e Mestre em Comunicação. É Editora de Conteúdo e Coordenadora Executiva da Revista Afirmativa – Coletivo de Mídia Negra. Coordena o Programa de Comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra, e é responsável pela Comunicação nas equipes de coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).