“Pensei, quero que ele seja trans e porque ele não pode ser preto, gordo e quilombola? Essas pessoas existem e nós precisamos falar sobre elas”, afirmou Jared

Por Anna Julia Fagundes

Imagem: Divulgação

Em meio a falta de diversidade da literatura brasileira, a comunidade transgênero, negra e gorda é protagonista em produção que combina o lúdico à realidade no livro infantojuvenil: “Ariel: A Travessia de um Príncipe Trans e Quilombola”, do jornalista Jared Amarante.

O livro retrata a vida de Ariel,  um menino trans, gordo e negro, inicialmente nomeado como Ariele, que entra em uma processo de autoconhecimento, desvendando sua incompreensão diante de sua identidade de gênero. A personagem tem como seu confidente o papel em que desenha, o único que o acolhe e lhe dá a liberdade necessária para que seus sentimentos se expressem e o ajudem em sua identificação. Além disso, o garoto, por meio de sua trajetória, ao ser coroado com um pente garfo tem a chance de se tornar um príncipe.

Jared explicou que a obra de Ariel foi criada em homenagem aos corpos trans, pretos e gordos, tendo como inspiração a ativista trans negra Marsha P. Johnson. “A ideia de fazer essa obra é pela gratidão aos corpos trans, pretos e gordos. Eu reverencio a todos eles. Foi uma mulher preta e trans que instituiu a primeira parada gay no mundo e muita gente não sabe disso, mas ela se chama Marsha P. Johnson”, explicou.

Ilustrador trans

Tornando a obra ainda mais especial, Nathan Borges, ilustrador e tatuador de João Pessoa (PB), foi o responsável por trazer “à vida” ilustrada a personagem Ariel. O profissional, como um homem trans, deu um toque lúdico à uma história que ele mesmo já passou.  

“Me senti muito privilegiado por fazer parte de uma obra que chegou a tantos lugares, e representa uma comunidade inteira. Não só por representar a comunidade trans, mas também pela comunidade dos artistas de modo geral”, disse Nathan.

Conforme confirma o ilustrador, a abordagem lúdica da narrativa de Ariel foi criada a partir de uma visão infantil, fugindo de complexidades da vida real e explorando a essência da criança. “A ideia que tive para esses desenhos foi exatamente pensar em como uma criança veria. Por ser um tema mais complexo e pouco abordado, uma criança não veria com a mesma complexidade. Então tive que pegar elementos e traços de desenhos simples, para chamar a atenção de uma criança e que também pudesse se sentir representada pelos desenhos” revelou. 

Jared, orgulhoso, cita Nathan como uma das principais peças para o sucesso de Ariel: “Eu sempre disse ao Nathan, você é o Ariel. Ele deu o fôlego da vida de Ariel e sem ele, não seria tão lindo, porque ele é um homem trans, ele sabe como é, e eu não”.

O psicanalista negro Wellington Oliveira , também ganhou uma participação na obra comentando no rodapé do livro, uma visão mais especialista da narrativa de Ariel. Ressignifica o lúdico à uma realidade palpável.

Transfobia nas redes

Jared ressalta que sua personagem, como menino trans, também mora no país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. De acordo com o dossiê “Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2021”, publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas no ano passado foram assassinadas 140 pessoas trans, sendo elas  135 travestis e mulheres trans e 5 homens trans.

O livro infanto juvenil não conseguiu fugir das falas transfóbicas acerca da realidade do personagem principal. Após entrevistas realizadas ao UOL e ao Estado de Minas, internautas se posicionaram contra a premissa da obra de Jared, publicando comentários como “Verme da pior espécie”, “Que besta! É uma droga defendendo demônios” e “Crianças trans? Que absurdo, deixem as crianças serem crianças”. 

“Quando eu compus o Ariel, eu já imaginava que eu ouviria de tudo, porque quando levantamos essas bandeiras, não é que você vai sofrer esses preconceitos, mas eles vão te esbarrar”, contou Jared.

Mergulho criativo

O autor revelou que sua produção foi fruto de um mergulho na realidade das minorias representativas existentes no Brasil, dando a ele a bagagem necessária para a criação da narrativa do personagem principal de sua obra. “Foram 4 anos fazendo trocas com essas pessoas negras, trans e gordas para compor a história de Ariel. Essa troca foi o meu maior laboratório”, diz o jornalista.

Por outro lado, o autor conta que apesar de ser um homem branco, homossexual, compreende seus com seus privilégios e sente a necessidade de usa-los para levantar essas bandeiras e apoiar a causa. Nathan concorda com Jared, quanto aos lugares que o mesmo chegou por conta de seus privilégios. “Por Jared ser um homem branco e gay, saiu da bolha trans. Pessoas trans consomem pessoas trans. Só de ter saído dessa bolha, chegou em muitos lugares, que, por exemplo, uma pessoa trans sendo escritora desse livro não chegaria”.

A partir disso, a obra “Ariel: A Travessia de um Príncipe Trans e Quilombola” inseriu, ao final do final do livro, depoimentos de pessoas trans, negras e gordas dando espaço de fala a estes públicos. “Ao final do livro, temos 9 entrevistas com pessoas destes públicos, então, ali está cru e nu a realidade destes povos. Queria entender a transição, suas inspirações e dores, compreender as travessias de tantos Arieis”, declarou o autor.


“Eu sempre quis escrever algo sobre um príncipe, então quando escrevi pensei, eu quero que ele seja trans e porque ele não pode ser preto, gordo e quilombola? Essas pessoas existem e nós precisamos falar sobre elas”, finaliza.

Imagem: Divulgação

“Ariel – A Travessia de Um Príncipe Trans e Quilombola”

97 páginas

Editora Giostri

Ano de publicação: 2021