Por Monique Rodrigues do Prado/  Imagem: Hallina Beltrão

Na experiência ocidental tudo é combustível para alimentar o capitalismo, por isso, até os corpos são consumíveis. Nessa frequência, há uma sanha para que o corpo do outro seja reduzido apenas ao plano estético. A atração deixa de ser sensorial e passa a ser uma armadilha publicitária. Está aí os aplicativos que não nos deixa mentir. O sujeito eleito atrativo e bonito torna-se a mercadoria mais cobiçada e todas as outras pessoas pagam o preço.

A sociedade brancocidental estimula que as relações sejam resumidas a esse esgoto emocional para manter o sistema de opressão de corpos. Assim, enquanto, uns sentem vergonha, insegurança e baixa autoestima, outros gozam.

Mas aqui, vamos fingir que o paradigma não é o ocidente eurocentrado. Nesse outro lugar, quem conta essa história é a africanidade. Corpos abundantes se encontram como em uma dança cuja sedução e o sexo passam a serem expressões de cura e vitalidade.

A professora Sobonfu Somé, nascida em Burkina Faso, país africano localizado no Oeste do continente escreveu “O espírito da Intimidade” onde lançou olhar sobre a experiência intima e sobre maneiras de se relacionar a partir dos ensinamentos ancestrais africanos.

O livro faz uma análise comparativa da experiência ocidental e africana para demonstrar que se hoje estamos vivendo em uma seca emocional sem precedentes, afundados em desesperança, ódio e controle, nem sempre foi assim.

Em um trecho do livro ela compartilha: “o povo Dangara não tem uma palavra específica para referir ao sexo. Expressamos o conceito de sexo como uma viagem com alguém. A pessoa não quer fazer sexo com a outra; ela quer ir a algum lugar”.

Em outro trecho ela acrescenta: “quando duas pessoas compartilham uma vida íntima equilibrada e espiritual, elas têm o poder de aumentar a energia curadora de tudo à sua volta”.

Se para o Ocidente a religiosidade é sinônimo de castração e demonização de qualquer matriz que não combine com o fundamentalismo hegemônico, a autora nos mostra que espiritualidade africana tem profundo respeito à intimidade sexual como parte do ciclo da vida, onde os corpos, sobretudo femininos, não precisam ser ocultos.

A autora elucida que os pensamentos negativos são um veneno perigoso para navegar nessa viagem e que o sexo não é para trazer uma sensação de confinamento. Muito pelo contrário, ali é um espaço de evaporação do consciente.

A obra sinaliza que onde se acha afeto, não necessariamente é onde se busca afeto, já que sequer somos ensinados a compreender quais são as formas saudáveis de se relacionar intimamente.

O livro é um convite para refletirmos acerca das toxicidades provocadas pela hegemonia eurocentrada que coloca uma mordaça sobre as nossas expressões para que a sexualidade não seja tratada de uma forma franca, vital e sagrada