Por Viviane Ferreira* / Imagem: Flica

Para nação angola, o Tempo é divindade que alicerça nossa existência. Cumpre essa função por ser capaz de nos acompanhar na sabedoria e na ignorância enquanto trilharmos a jornada de tornarmos-nos alguém. Ele, o tempo, é dono do feitiço maior, aquele que amarra o inicio e o final de todos os ciclos.  E nos permite transitar entre as mais tenras sensações: o frio na barriga, diante do desconhecido presente no inicio dos caminhos; o cansaço, e capacidade regenerativa da resiliência ao conhecermos a metade da estrada; e o acalanto, da sensação de missão cumprida, ao nos amalgamarmos com o final do percurso.

É Tempo, esse orixá, que nos conecta a nossa própria revelia com outras existências que nos ajuda a esculpir e moldar o nosso próprio destino. Professor Jaime Sodré, Dindo Jaime Sodré, Historiador e Pesquisador Jaime Sodré, Ogã Jaime Sodré é uma das existências que Tempo plantou em minha trajetória.

O ano era 2001, o espaço o Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (CEFET-BA), a idade era 16 anos, o ímpeto e discurso recheado de frases de efeitos afirmativas alinhadas com as faixas, panfletos e cartazes das manifestações dos movimentos negros baianos, debaixo do braço, o livro de estimação – Peter Pan, e uma grande paixão pela “terra do nunca”.  Numa abordagem graciosa, abrindo diálogo sobre a estética da capa do livro, Jaime Sodré, buscou entender o porque aquela narrativa me tocava tanto. Falamos do poder da fantasia, e ele sentenciou: “esse livro não está combinando com suas reflexões, me passe seu endereço, vou enviar a história de um herói à sua altura”. E 15 dias depois recebi, por correios, um exemplar do seu livro “Manuel Quirino: um herói da raça e classe”. Sem dedicar tempo à deslegitimação do consumo do livro, até ali de estimação, não economizou tempo em reconhecer a oportunidade e se responsabilizar por me apresentar referências que pudessem dialogar com minha paixão pela fantasia e criação artística, mas que fosse ancorada em nossa experiência coletiva.

Em 2004, já era o “Dindo” que “puxava a orelha” e exigia explicações pelas ausências nas aulas de desenho, ou atividades acadêmicas obrigatórias. Logo, entusiasta e apoio fundamental na minha decisão de migrar de Salvador para São Paulo, buscando estudar cinema. Sabemos que de entusiasmo o mundo está cheio, e nem só de entusiasmo se fez um Orí como o de Jaime Sodré, foi quilombola ativo, cedendo o próprio lar, para que realizássemos reuniões da rede de apoio que se dispunha a contribuir com minha mudança de forma segura e estruturada. 7 de agosto daquele ano, seria o grande dia de levantar voo, se não fosse um aviso do Tempo: “minha filha, só pode partir depois das comemorações do dia 10 de agosto”.  Tempo, orixá de minha Bisavó, celebrado no Manso Dandalungua Cocuazenza todos os anos no dia 10 de agosto desde 1940. Aos 19 anos, sentia-me livre o suficiente para me mudar antes de saudar o Tempo. E foi Jaime, que no auge da minha ira juvenil com a necessidade de reorganizar a viagem, apaziguou-me e conduziu-me ao entendimento : “não atormente-se, menina. Faça como os seus, cumpra sua saudação ao Tempo, e siga acompanhada em todos e qualquer momento”.          As memórias são individuais, mas os ensinamentos e interações de Sodré foram todos alicerçados na sabedoria de um homem de axé, que viveu atento a decodificar e aprimorar a linguagem de uma experiência coletiva, que resistiu o além mar, sobrevivendo por diversos tempos.

7 de agosto de 2020, 19 anos depois da abordagem graciosa, 16 anos depois da partida em busca do ofício de criação de “mundos-fantasias”, em um tempo tão duro à nossas existências coletivas, é difícil compreender e acolher sua partida desse mundo. Mas, atrevo-me a disseminar a narrativa de que fostes convocado para dançar um xirê com todos os Tempos da “terra do sempre”. E daí, seguirá nos dando forças para seguirmos na tentativa de visualizar os tantos mundos e tantos tempos que nos compõem, nos alimentando de todo saber ancestral por você sistematizado em suas obras, mas sem dúvidas, com muita consciência da sua contribuição para a nossa existência coletiva por todos os tempos.

 

* Viviane Ferreira, diretora e roterista , sócia na Odun Filmes, presidenta da APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro, diretora artística do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.