Por Codinome Maria / Imagem: Agência Lusa

Faltam poucos minutos para às 21h. O jantar foi servido às 19h e, agora, ensaiamos desacelerar as rotinas. Estou no banheiro, pronta para tomar banho, nua, sentada no vaso. De repente, um alarme é acionado em uma frequência ensurdecedora com uma luz refletora vermelha por todo o apartamento. Dor de cabeça. Sequência de sensações e afirmações que foram aprendidas em treinamento: roupa de frio, tênis, apagar luzes, pegar celular com carregador e sair, se possível. Prédio evacuado. Dor de cabeça aumentando. Estudantes fora do prédio. Ninguém sabe bem o que está acontecendo. Começamos a perceber pessoas com cobertores, representantes de turma com sinalizadores e gritos pedindo para que as pessoas se organizem em filas, sem falar ao mesmo tempo, para que seja feita a contagem. Dor de cabeça em intensidade máxima. Uma pessoa adulta e parte da equipe me pergunta o que estava acontecendo. Como eu saberia?

Retorno ao prédio, conforto, incompreensão. Segundo alarme. Se vestir novamente. Agora, com menos atenção. Dor de cabeça e intensa confusão mental.

Praticamente uma hora depois ou mais, temos a informação: alguém estava usando algum item eletrônico não autorizado dentro do quarto ou alguém apertou o alarme em alguma brincadeira. Fim.

Dizem que é muito comum apertarem os alarmes em tom de brincadeira e que, obviamente, isso é algo frequente em cotidiano de ambientes escolares.

Estaria tudo absolutamente compreendido se entre o primeiro sinal do alarme e a informação tudo fosse rápido. Infelizmente, quando pessoas adultas responsáveis pelo espaço perguntam o que está acontecendo a estudantes, de fato, nada parece estar tranquilo. O peso mental trazido por um alarme, além do exercício mental de se preparar para sair do prédio somado às perguntas, gera estresse.

É exatamente sobre/sob esse estresse que tenho necessidade de expressar essa experiência de morar em um continente com familiaridade com a palavra atentado.

Bom, poderia ser um incêndio. Porém, a tensão de um alarme é a mesma e a quantidade de informações que recebemos sobre como se proteger em caso de incêndio são expressamente menores que os alertas que recebemos, espalhados em todos os lugares, sobre o que fazer em caso de atentado. Somos informadas de forma excessiva sobre o que fazer em caso de situação de violência com armas de fogo, faca, bombas.

Nessa ocasião, eu não saberia como reagir ao ver alguém pegando fogo, mas tinha gravado o que fazer em caso de ouvir qualquer barulho similar a qualquer caso de violência. E o ponto central do estresse em que estamos inseridas está aí: estamos vivendo sob os traumas de guerra ainda que, nesse momento, boa parte do mundo desconheça qualquer eminencia de guerra local, regional ou mundial, com governantes afirmando isso.

Achille Mbembe (2017) nos informa que estamos em um continuum de guerra (colonialidade) e Eduardo Taddeo nos apresenta, em seu livro, uma interpretação/denúncia sobre uma “Guerra não Declarada na Visão de um Favelado” (2012). São esses dois tópicos que trazem reflexão sobre o estresse em um caso simples de uma ocasião em que um alarme é acionado.

Por já estarmos envolvidas em situações de violências diárias, que são resultados do momento moderno onde a violência começou (colonização), poderia propor uma reflexão que afirme: estamos vivendo sob os traumas de guerra psicológica intensa entre a desconfiança que temos em relação ao outro e a forma como deixamos que decidissem o que iria nos assustar, o que iria impor o medo ao nossos corpos.

Nessa ocasião, nada aconteceu, mas estamos sendo informadas via mídia e educação sobre diferentes pandemias nesse momento: como se proteger do vírus, como denunciar racismo e como se proteger em caso de atentado.

Todas essas situações são distintas, porém vitimando grupos específicos que estão/são considerados à margem da sociedade. Com isso, o peso do estresse não nos dá a capacidade de reagir as situações com centralidade e objetividade. Seremos, sim, pessoas subjetivas, somos pessoas profundas e complexas antes das violências. O peso do estresse apenas reproduz o que nos dão: medo. Então, passamos a não mais andar perto de outras pessoas, passeamos com distância. Nos distanciamos por medo do vírus, por medo de um corte a faca e por medo de uma outra pessoa que não conhecemos. Em relação às pessoas que conhecemos, estamos sempre agindo em desconfiança.

Desde que cheguei foram, exatamente, 7 situações tensas: 3 atentados, um alarme inexplicável e 3 treinamentos. O alarme sem qualquer necessidade aparente foi acionado uma semana depois da minha defesa de dissertação. Eu passei muito tempo me questionando se era preciso escrever sobre a história política de uma mulher negra e, agora, tenho receio de que façam comigo o mesmo que Nic Stone, autora de “Cartas para Martin”, também tem receio e não quer que aconteça: temos medo que alguém diga que as nossas histórias contadas sejam mentiras, fatos inventados sobre a realidade.

Uma mulher negra no mundo sempre tem receios antecipados. Diante dos alarmes, eu tive medo de beirar o colapso mental. Eu partilhei a situação com pessoas amigas e familiares. Muitas pessoas não entendiam o motivo de eu estar triste e nervosa. Isso tem relação com a forma que vivemos no Brasil, são violências, mas existem nuances diferentes dentro dos nossos traumas.

Por esse motivo, anteriormente, havia afirmado que estamos todas afetadas por essa forma violenta de existir. Portanto, dialogar sobre novas formas de viver é necessário. Ao dialogar sobre essas novas formas de viver, é preciso também que a gente considere as diferentes formas de ver a vida, para não deslegitimar a forma de ser do outro ser humano, ser vivo, ainda que o medo seja a única centelha de vida que a gente compartilhe nesse momento.

Pensando que a justificativa para um dos alarmes tenha sido uma brincadeira, isso tudo que disse será importante para que a gente retome brincadeiras que tenham relação com uma vida saudável: queimada, bingo, pique-esconde, futebol, pique-pega, escorrega, roda de histórias e tantas outras que não tenham relação com soar um alarme em um ambiente institucional em uma noite de zero graus.

 

Referências:

MBEMBE, Achille. Políticas da Inimizade. Lisboa: Antígona, 2017.

TADDEO, Eduardo. A Guerra Não Declarada na Visão de Um Favelado. Editora: Do Autor – Eduardo Taddeo F.C., 2012.